
Editora: Thaís Tibiriçá - tibirica@fazendomedia.com
11.08.2006
BORBULHANDO LITERATURA
Por Thaís Tibiriçá, de Parati - tibirica@fazendomedia.com
A maior festa literária do Brasil, a FLIP, começou no dia 9 com o show da cantora Maria Bethânia. Ontem, dia 10, as mesas com autores brasileiros e estrangeiros fervilharam. E a literatura da América Latina não podia deixar de ser tema de debate.
No primeiro dia de palestras, representantes de peso: Mário Carvalho, um dos maiores romancistas portugueses da atualidade, e David Toscana, escritor mexicano da nova geração. O tema proposto nesta mesa mediada por Aguinaldo Farias, crítico de arte e professor de Arquitetura da USP, foi "De onde vêm as palavras?".
A escrita como um processo de reflexão: "Quase uma oração. As palavras precisam ter um contato espiritual com a gente. E esse contato se dá com as obras clássicas, como Dostovieski" - revelou Toscana, mostrando como a literatura se torna a elevação da condição humana no seu nível mais alto.
Sobre a literatura latino-americana, discutiu-se suas duas vertentes: a que rompe com as tradições locais, ou seja, "matan los padres" e a que quer aprender com os mestres da arte de escrever. Gabriel Garcia Márquez foi citado por Toscana como um gênio da literatura, da prosa e da colocação dos adjetivos. Carvalho relembrou os brasileiros de que a nossa literatura é uma das melhores do mundo, tendo e vista o universal Machado de Assis.
Conforme Umberto Eco já destacou, "o texto é uma máquina preguiçosa". Assim, tratar o leitor como parte fundamental do romance é lema desses dois autores. Carvalho cita como exemplo um verso do seu conterrâneo Fernando Pessoa: "Ao ler sou mais do que eu". O respeito com o leitor e a necessidade de não considerar a literatura mercadoria foram pontos citados pelo escritor português. Que ressaltou a necessidade de se entender que nem tudo segue a linguagem econômica.
Toscana e Carvalho ficaram lisonjeados com a presença de vários leitores de suas obras e depois seguiram para a mesa de autógrafos. Os últimos romances de Toscana lançados no Brasil foram "O último leitor" e "Santa Maria do Circo". Mário Carvalho tem mais de 20 obras publicadas, e a mais recente é "Um Deus passeando pela brisa da tarde".
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Leia abaixo três poemas de Leandro Leocadio, um dos autores convidados da FLIP, que gentilmente enviou parte do seu trabalho ao Fazendo Media.
SEM PALAVRAS
Que ninguém seja contra
A que vou dizer,
Mesmo eu sendo um cabeça-de-bagre.
Que ninguém seja contra
A que vou falar,
Mas santo de casa não faz milagre.
O robusto marido esportista,
Triatleta e fisiculturista,
Campeão de judô e maratona,
À esposa decepciona
Quando tenta e não consegue
Abrir um vidro de azeitona.
A irmã do dentista é banguela,
O filho do churrasqueiro nunca comeu vitela.
Aquela "top model" famosa
Sempre tem dor de cabeça
Quando o marido a procura.
O exército brasileiro,
No lugar de defender,
Instaurou no país
A tão dita ditadura.
A luz do quarto do eletricista não acende,
A respeitada psicóloga tem um filho que é demente.
Eu mesmo, escritor
Que sou, ou que tento ser,
Não consigo escrever
Nem, ao menos, tão somente,
Uma frase pra você.
A NOZ
Ilusão atroz
De quem traz a noz
Fechada de dor
Deste meu amor.
Trata-se de noz
Cuja casca dura,
De larga espessura,
Está entre nós.
Precisa de amor
De forte cutelo,
Que desmanche a casca
Sem deixar farelo.
E, deste recheio,
Deleitar-se-á
No bolo, no meio
Da torta, no chá,
No manjar mais fino,
Com um belo vinho,
Com uma cervejinha,
Sem sair da linha.
Amor bom é este
De apreciar,
Não importa como,
Quando e o lugar.
Amor bom é este
De saborear,
Mas, ai!, não tem jeito,
Tem que descascar.
O TEMPO
Não há tempo,
Tenho pressa.
Bateu vento,
Vamos nessa.
Deu a hora,
Vamos indo,
A aurora
Já vem vindo.
É o mundo,
Minha gente,
Lá no fundo,
Que é corrente.
Correnteza
Sem igual
Da destreza
Temporal.
Só lamento,
Ao correr,
O momento
Não viver.
E o palhaço
Não chegou.
Já o maço,
Se acabou.
A avenida
Está parada.
Minha vida,
Acelerada.
Vida é longa
Quando surta,
Mas termina,
Por ser curta.