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A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



10.11.2006
"A ALMA ENCANTADORA DAS RUAS" DE PARIS E LONDRES

Companhia das Letras

256 páginas

Edição: 2006

R$ 31,90

Por Luciana Chagas - lua.chagas@uol.com.br

Foi na sua própria experiência que o escritor americano George Orwell (1903-1950) baseou-se para escrever o livro-reportagem Na pior em Paris e Londres, em que ele relata como viviam os pobres em duas das principais capitais européias na década de 1920.

É difícil imaginar que o talentoso George Orwell tenha ficado boa parte de sua vida sem rumo profissional e somente aos 25 anos resolveu se aventurar em Paris: aprender francês, conhecer uma nova cultura e trabalhar como professor de inglês free-lance. Mas as coisas não saíram como planejadas. E é desse plano frustrado que nasce a grande reportagem, seu primeiro livro.

Orwell viveu como mendigo nos anos vinte e em alguns momentos labutou arduamente como plongeur - lavador de pratos - em troca de alguns míseros francos para sobreviver. Outros infortúnios importunaram o escritor na capital francesa. Certa vez, o jovem Orwell se viu forçado a mudar-se para "um bairro parisiense miserável bastante característico", com "bate-bocas e pregões desolados de vendedores ambulantes, a gritaria das crianças correndo atrás de cascas de laranja (...) e, à noite, a cantoria alta e o fedor ácido dos carros de lixo". Porém, ele logo descobriu que "os bairros pobres de Paris são ponto de encontro de pessoas excêntricas".

Orwell chegou a ficar quase 60 horas seguidas sem se alimentar, isto é, sem dinheiro e sem amigos. Até as roupas ele penhorou, sobrando-lhe somente a roupa do corpo e um sobretudo para os dias mais frios. Só lhe restava o pequeno quarto do hotel onde morava - pois havia pago o aluguel adiantado. O quarto era sujo, as roupas de cama não eram trocadas e havia centenas de percevejos desfilando pelas paredes e pelo teto. Sentindo-se fracassado, o jovem escritor encontra um emprego como lavador de pratos - em um porão abafado - num dos dez melhores hotéis de Paris.

Na capital francesa o autor relata suas intrigantes e, por vezes, repulsivas opiniões do ponto de vista de um plongeur. No livro, descreve em detalhes os locais onde trabalhou. Em algumas cozinhas não existia nem lixeira, os detritos iam para o chão e por lá ficavam, pois não havia tempo para limpeza. E ainda acrescenta que quanto melhor o restaurante, pior a cozinha. Quando o livro foi publicado, suas revelações sobre o submundo gastronômico e hoteleiro de Paris causaram furor. Na Pior em Paris e Londres "teve sua autenticidade contestada por donos de hotéis e restaurantes de Paris que, mesmo sem saber a que estabelecimentos Orwell se referia, acusaram-no de mentir sobre o estado geral das cozinhas parisienses", como explica o jornalista carioca Sérgio Augusto, no posfácio da obra.

Sem dinheiro, sem moral e sem preconceitos, o escritor vai conhecendo e nos apresentando seus vizinhos bizarros e assim segue seu caminho aprendendo na pele o que é a pobreza. Descobre que basicamente dois pensamentos ocupam a mente de qualquer miserável: a próxima refeição e a procura de um local para dormir. Afinal, ele mesmo viveu como tal em Londres.

Na capital inglesa ele vasculha a vida de mendigos juntando-se a eles em albergues, nas estradas e nas instituições de caridade. Os resultados são páginas e mais páginas de relatos minuciosos sobre a vida de um ser humano nas ruas de Londres, que chocam e nos fazem pensar no que mudou nessas décadas que nos separam do lançamento de seu livro, em 1933. É uma espécie de "A alma encantadora das ruas" das metrópoles européias, fazendo lembrar o livro do nosso João do Rio, que também descreve com riqueza de detalhes a pobreza e a miséria do Rio de Janeiro do início do século XX.

George Orwell é um dos grandes autores do Jornalismo Literário. Ele não só observa, mas faz instintivamente um trabalho de campo. Segundo Roberto Da Matta, para que o exótico (a miséria) possa ser percebido antropologicamente, ele tem que ser de algum modo transformado em familiar (através da convivência). Orwell descreve no livro-reportagem esse percurso e ainda vai além, pois é possível perceber em seu texto características tipicamente literárias.


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