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A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



Editora: Thaís Tibiriçá - tibirica@fazendomedia.com


10.10.2006
UM RETRATO NU E CRU DE HOLLYWOOD

Uma descrição terrível de como um grande filme pode ser reduzido à incoerência pelo acanhamento e analfabetismo dos chefes de estúdio (Graham Greene).

Companhia das Letras

Páginas: 312

Preço: R$ 49,50

Por Thaís Tibiriçá - tibirica@fazendomedia.com

Romances sempre são bem vistos pelo leitor, principalmente quando trazem como matéria-prima a vida real. E é exatamente este tempero que faz de "Filme" uma obra marcante do cinema hollywoodiano. Mas estamos falando de literatura ou cinema?

Estamos falando de um clássico do jornalismo literário: o livro "Filme" da jornalista Lillian Ross, que retrata a falta de sensibilidade dos donos de uma das maiores fábricas de fazer cinema do mundo - a MGM. Lillian relata nos mínimos detalhes como se consegue destruir uma 'obra-de-arte' da cinematografia.

Ross, com 25 anos, lançou o livro que é a base do "Novo Jornalismo", muito antes de Truman Capote e sua famosa obra "A Sangue Frio". Inicialmente ela publicou uma série de reportagens na revista The New Yorker, que só depois foi transformada em livro. No Brasil, chegou em 2005 pela Editora Companhia das Letras dentro da coleção Jornalismo Literário.

Durante um ano e meio Lillian acompanhou as gravações do filme "A glória de um covarde", desmascarando uma Hollywood hipócrita que visa apenas o dinheiro como produto final e jamais o cinema como arte. Sua presença tornou-se tão natural entre a produção do filme que em nenhum momento foi obrigada a se retirar das conversas entre os diretores, produtores, atores, etc. Ao contrário, lia e ouvia tudo que se passava.

Inicialmente tinha a idéia de ir para Hollywood fazer um perfil do então diretor do filme, John Huston. Acabou conhecendo o produtor de "A glória de um covarde", Gottfried Reinhardt, depois o chefe de produção da MGM, L.B. Mayer. Dali percebeu que tinha personagens reais querendo se mostrar para o mundo, além de uma perfeita história de ficção, com o detalhe de que era real.

A história...
John Huston acreditava que tinha um roteiro primoroso, adaptado do clássico da literatura de Stephen Crane. Só isto já significava o sucesso. O problema inicial foi convencer o produtor, Gottfried Reinhardt, a ajudar a convencer o "primeiro escalão" da MGM. Uma dificuldade, já que nos anos 50 o que dava dinheiro para os estúdios eram os musicais ou as comédias românticas.

Jamais guerra, final infeliz e mortes seriam consideradas um pacote de sucesso para os estúdios; com sacrifício e um orçamento final de U$1.642 017,33 - diríamos comportado em relação ao que se via e vê em Hollywood - o filme seria a produção MGM número 1512.

A preparação das gravações trouxe excitações constantes a toda equipe, já que escolher os atores principais significava uma percentagem do sucesso, pois a capacidade de interpretação era necessária quando se trazia um roteiro permeado por conflitos psicológicos. Outros "detalhes", como a locação ideal para encenar a mais real Guerra Civil dos EUA, foram solucionados pelo próprio diretor, que escolheu sua fazenda. Entre as gravações, Huston adorava cavalgar e pescar no cenário.

Fazer um filme sobre sentimentos trazia insegurança para Reinhardt; sem dúvida, eram necessários sensibilidade e astúcia de um bom diretor. Confiava no talento de Huston, mas não no julgamento dos 'mandachuvas' da MGM.

O elenco escolhido trouxe a intensidade que Huston procurava nas cenas. O ator principal, Audie Murphy, trabalhou com qualidade e representou um jovem inseguro e despreparado participando de sua primeira guerra. O medo era maior que sua bravura; ao se deparar com a possibilidade de morrer, decide fugir dali, mas com a ajuda e amizade de Bill Mauldin - um sábio soldado - e consegue vencer suas aflições.

Uma história recheada de sentimentos profundos, que levou Huston a tomadas de cenas impressionantes, descritas minuciosamente por Lillian Ross. Infelizmente, com o final das gravações a edição não foi acompanha pelo diretor. E ficou totalmente prejudicada, o que foi comprovado na estréia, quando a reprovação do público foi total.

Um Reinhardt desconsolado levou às últimas conseqüências todas as ordens da MGM para que o filme ganhasse circuito nacional, mesmo que isto tenha custado as melhores cenas já feitas por John Huston, segundo ele.

Sem grandes esperanças, Huston viajou para a África para filmar uma nova produção, enquanto se decidia o destino de "A glória de um covarde". O filme acabou estreando numa versão totalmente contrária daquela proposta por John e mesmo assim não foi sucesso de bilheteria; segundo os relatórios do estúdio não obteve nenhum lucro.

O público nunca viu a versão do filme considerada por John sua maior obra, já que os olhos de Hollywood censuram o que se deve ver!


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