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07.08.2006
UMAS POUCAS PALAVRAS SOBRE ZUZU ANGEL
Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com
Zuzu Angel é uma bela história de amor. Da mãe pelo filho, e deste pelo Brasil. O filme de Sérgio Rezende, que estreou na sexta-feira 04/8, conta a vida da estilista de classe média que, após a morte do filho, abraça a causa revolucionária.
Zuzu, que transitava na chamada alta sociedade, começa a questionar seu próprio trabalho e passa a criar modelos engajados, que denunciavam o assassinato do filho pela repressão. Corajosa, vai até as últimas conseqüências em sua cruzada para dizer ao mundo o que acontecia no Brasil daquela época.
Vai à Anistia Internacional, escreve a intelectuais e parlamentares, enfrenta oficiais militares nos tribunais e até num avião usa o microfone para avisar que "nesta cidade maravilhosa em que estamos chegando, estão prendendo, torturando e assassinando".
O filme emociona, mais pela narrativa do que pelos efeitos visuais e montagem. Embora o início seja excessivamente teatralizado, no decorrer da trama os personagens se definem. E, ressalte-se, Patrícia Pillar está perfeita.
Zuzu Angel tem o mérito de ser uma obra politizada, mas ainda não foi dessa vez que o cinema brasileiro abordou o período histórico com propriedade. A ditadura é mostrada como uma entidade que surge do nada, sua ligação com a CIA é omitida e a imprensa, no pouco tempo em que aparece, é apresentada unicamente como vítima de censura, embora tenha apoiado com gosto o regime de exceção.
Para tanto, basta lembrar as palavras do sociólogo Emir Sader, em entrevista ao Fazendo Media: "Os carros da Folha de S. Paulo foram usados pela Operação Bandeirantes". Ou as de Chico Buarque, em depoimento ao documentário Cidadão Kane: "A Globo chegou a ser mais realista que o rei ao proibir meu nome de ser veiculado".
Por isso, há que se ter cautela com os depoimentos de artistas envolvidos na produção do filme, que estão dizendo por aí que ver Zuzu Angel é importante para "saber que pessoas lutaram para termos a liberdade que temos hoje". Não é bem assim.
O cinema enquanto arte questionadora ainda precisa fazer a conexão entre a ditadura política e a ditadura financeira que agora assola o Brasil. E se hoje não existem presos políticos, existem presos financeiros. Se não existe tortura e execução sumária para a classe média, existe tortura e execução sumária para os pobres. Quem fala em democracia no Brasil de hoje não tem idéia do que acontece na favela.