......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



07.03.2007
ASSASSINOS E CORRUPTOS PROFISSIONAIS

Luís Eduardo Soares, André
Batista e Rodrigo Pimentel

Editora Objetiva

314 páginas

R$ 21,90 a R$ 39,00

Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com

Após a leitura de "Elite da Tropa" (Objetiva, 314 páginas) você fica sabendo de pelo menos duas coisas: o BOPE, Batalhão de Operações Especiais, é treinado para matar e a PM do RJ está corrompida até a alma.

O livro é fictício, mas baseado em fatos reais. Algumas situações descritas foram contadas parcialmente, outras integralmente e às vezes recombinadas. O universo retratado é o cenário de violência do Rio de Janeiro do ponto de vista do ex-secretário de Segurança Pública Luís Eduardo Soares e de dois ex-capitães do BOPE, André Batista e Rodrigo Pimentel.

"À noite, por exemplo, não fazemos prisioneiros. Nas incursões noturnas, se toparmos com vagabundo, ele vai pra vala" (página 26). Para ilustrar a corrupção da PM - que, segundo os autores, ainda não havia atingido o BOPE - a melhor história é a do bandido resgatado pela polícia na Paraíba para reassumir o controle do tráfico na Rocinha.

Isto porque um chefe da polícia precisava acertar as contas com o empresário que havia financiado sua campanha. O traficante, chamado no livro de Dino, costumava pagar o chamado arrêgo (propina) para a polícia não incomodá-lo. Mas havia um detalhe: era preciso tirar o BOPE da Rocinha, o que é conseguido a partir da fabricação de uma guerra em outra favela.

Esse foi um exemplo de como as coisas funcionam na capital. No interior é um pouco diferente: "o prefeito indica o comandante do batalhão, o coronel leva sua equipe, o bicheiro local se apresenta, ele ajuda a financiar a campanha do prefeito vitorioso - porque ajuda todos os candidatos, justamente para não correr riscos - em geral o pessoal que controla as maquininhas é o mesmo e, quando o tráfico se organiza, tem de tomar bênção ao pode estabelecido e negociar o seu lugar".

O conjunto da obra pode parecer um "Abusado" ao contrário; o livro de Caco Barcellos retrata o mesmo universo, mas do ponto de vista dos bandidos. Os dois títulos, inclusive, abordam a interferência da mídia nas questões relativas à segurança pública, embora este pequeno detalhe nunca tenha sido registrado nas resenhas publicadas pela mídia grande.

A explicação para isto pode estar na página 51 de "Elite da Tropa", onde os autores registram o uso do BOPE "pela política de propaganda do governo, que delega à mídia as decisões sobre nossas prioridades".

Um desses exemplos é contado entre as páginas 83 e 86. A mídia pressiona para que o BOPE invada Vigário Geral, mas o comandante da tropa lembra ao secretário de Segurança Pública que é sexta-feira e as pessoas estão nas ruas, o que poderia provocar uma chacina. O secretário, pressionado pelo governador, por sua vez pressionado pela mídia, avisa ao comandante: "você tem 30 minutos para invadir".

Invasão e chacina consumadas, o comandante do BOPE é demitido pelo secretário.

Em "Abusado", há um registro completo de como O Globo, O Dia e JB conscientemente distorceram informações que acabaram enganando seus leitores e expondo as vidas de pessoas inocentes [veja aqui os detalhes].

Outro ponto a ser destacado em "Elite da Tropa" é a constatação precoce da existência das milícias, fenômeno que aparece sob o nome de "segurança ilegal" - mais condizente com a realidade, diga-se. Está lá na página 119: "Segurança privada ilegal, o grande negócio de delegados e coronéis; vans e ônibus clandestinos; bingos; grampos, legais e ilegais; as maquininhas dos ovos de ouro, que se multiplicam feito coelhos, o venerável jogo do bicho, gasto e antiquado, mas ainda na ativa; e as mil e uma transações com traficantes, em sua exuberante variedade, dos chamados arregos nas favelas - os pagamentos diários ou por turnos de policiais - aos acordos mais arriscados, ou mais estratégicos, digamos assim".

Repare que os autores falam em "delegados e coronéis", e não em inspetores, como aquele recentemente afastado e assassinado no Rio das Pedras logo após ter sido acusado de chefiar a mais antiga milícia do Rio de Janeiro. Mas a mídia grande não se lembrou que existe alguém ou alguéns acima dele na hierarquia da corporação, embora esse pequeno detalhe esteja bem claro no livro.

"Elite da Tropa" não procura apontar soluções para os problemas da violência do RJ, mas tem o mérito de identificar muitas de suas causas. Todo governante sério deveria ler este livro com atenção. Para compreender que a política de enfrentamento pautada por estratégias de guerra está causando a morte desnecessária de milhares de pessoas, incluindo policiais, mas em sua maioria trabalhadores que vivem em conjuntos habitacionais de baixa renda.

É obrigação do poder público proteger o cidadão sem deixar que manipulações políticas e midiáticas ameacem a vida de quem quer que seja.


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