
06.12.2006
PELA AMÉRICA LATINA COM GARCÍA MÁRQUEZ
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Editora Record
Páginas: 294
Preço: R$ 39,90 |
Por Thaís Tibiriçá - tibirica@fazendomedia.com
Interessante é pouco ao falar sobre o novo livro de Gabriel Garcia Márquez, jornalista colombiano que faz da reportagem obra literária. Reportagens Políticas (1974 -1995) é o quarto volume da coleção Obra Jornalística, imperdível para os admiradores de seu estilo. A tradução de Léo Schlafman - também responsável pelo prefácio - está impecável.
Apenas dois dias foram necessários para me deliciar em 28 reportagens imperdíveis para os que gostam de América Latina, têm repulsas pelos Estados Unidos ou querem apenas conhecer, com maiores detalhes, a época de repressão latino americana.
Mais da metade das reportagens foram publicadas na revista Alternativa de Bogotá, outras escritas para periódicos de Madri e Havana. Outro ponto interessante do livro é, sem dúvida, a capa, que revela o tom do escritor; a ilustração é a bandeira de Cuba, que para os distraídos poderá lembrar a dos Estados Unidos - personagem que será visto de forma objetiva pelo autor, colocando o seu real papel imperialista na América Latina.
Já que estamos falando em Cuba, começaremos por este que figura entre os principais países da coletânea de reportagens. "Cuba de cabo a rabo" traça um período de problemas graves para um país que sofria o bloqueio norte-americano, levando durante anos um cardápio de alimentação monótona para a população: pescada e ervilha. Nitza Villapol, apresentadora cubana de um programa na TV de culinária que se manteve apesar do bloqueio, usava sua força e criatividade inventando mais de 200 tipos de receitas para que o pescado parecesse vitela ou frango.
García Márquez relata nas entrelinhas sua paixão pelo país socialista; em 1975 mostra um povo confiante com o sucesso da revolução comandada por Fidel Castro, amigo do escritor. "Cuba de hoje não há um só desempregado, nem uma criança sem escola, nem um só ser humano sem sapato, sem moradia e sem suas três refeições por dia, não há mendigos nem analfabetos, nem ninguém de qualquer idade que não disponha de educação gratuita em qualquer nível, nem ninguém que não disponha de assistência médica apropriada e gratuita (...)" ( página 61).
Outro país transformado em personagem pelo autor foi o Chile e a primeira reportagem já assusta o leitor: a queda de Salvador Allende e a tomada do poder pela direita chilena com a ajuda escancarada dos Estados Unidos impressiona pela didática e frieza dos personagens.
Uma entrevista com ex-agente da CIA Philip Agee escancara até que ponto o país do Tio Sam é capaz de chegar. Philip desertou da corporação em 1969, quando percebeu que os EUA financiavam a injustiça e a corrupção para expandir seu imperialismo sobre a América Latina. Conta alguns episódios e táticas usadas pela agência considerada por ele a mais cruel e poderosa do mundo, ressalva que este domínio só foi possível devido à cumplicidade e corrupção de funcionários dos governos locais e da política.
A coletânea não esquece de relatar a guerra do Vietnã, a operação secreta de Che Guevara no Congo, além da desumanidade da metrópole portuguesa na guerra de independência de Angola, cujo resultado foi um país de miseráveis e analfabetos. García Márquez fala de sua terra natal, Colômbia, e conta com detalhes a construção das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e a possível resolução do problema do tráfico junto ao governo, retrocedendo o processo devido as manobras obscuras norte-americanas.
Um livro excitante para os apaixonados por um jornalismo esquecido há décadas pela imprensa brasileira e mundial. Um jornalismo que nas mãos de García Márquez só pode ser considerado literatura. Não se pode negar que é uma voz que fala à América Latina.