......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



Editora: Thaís Tibiriçá - tibirica@fazendomedia.com


06.10.2006
JUKEBOXES DA ZONA NORTE - PARTE FINAL

Por Guilherme Mazzocato (*) - contato@fazendomedia.com

Já estava desistindo de encontrar um Cartola dobrando a esquina ou um descompromissado Jamelão cercado de lavadeiras entoando uma melodia em algum lugar da Lapa quando, nesses dias, me veio uma luz no fim do túnel.

Eu estava num desses recentes dias chuvosos, entre uma pausa e outra de duas aulas de inglês que eu dou ali em São Cristóvão, bem pertinho do Centro de Tradições Nordestinas, e resolvi parar num daqueles pés-sujos da Figueira de Mello pra beber uma Coca-Cola (cerveja em hora de serviço não dá).

Lugar fétido, como soe a um pé-sujo, e ainda mais um pé-sujo da Zona Norte. Sentado na mesinha, tomando a Coca-Cola, vem um vagabundo qualquer com uma ficha na mão, passa por mim, vai até o fundo do bar, e insere a ficha numa daquelas jukeboxes arcaicas para daí vir da caixa um sambão-pagode magnífico do Zeca Pagodinho. Na mesma hora a vagabundagem inteira do bar começou a cantar a melodia do samba - com sorrisos e tudo o mais - e a batucar na mesa, a bater com os copos nas garrafas de cerveja e até mesmo, sim, eu vi isso! com a clássica e antológica caixinha de fósforo.

A imagem me veio naquela quarta chuvosa como uma redenção: finalmente eu vislumbrava, ainda que por linhas tortas, a velha malandragem carioca. Até a letra da música era circunstancial: falava de um delegado de polícia que avisava para um malandro que, se quisesse namorar a filha dele tinha que casar, porque senão, era bala (tinha sonoplastia de tiro de revólver e tudo).

Foi daí, talvez por causa do estresse de uma semana no meio da subida, ou do frio, ou dos meus sapatos molhados, ou talvez da embriaguez da Coca-Cola que já fazia-se sentir, que me veio a necessária e inevitável reflexão filosófica: eu me dei conta de que tudo que eu ouvira sobre aquelas velhas histórias da cultura marginal e popular do Rio de Janeiro - a malandragem, a boemia, o samba de raiz, a bem dizer - sobreviviam na voz de Zeca Pagodinho esparramada por jukeboxes de todos os quadrantes da Maravilhosa. Para vê-la só é preciso os 50 centavos da ficha.

Mas isso também me levou a uma outra conclusão.

Há muitos anos atrás, quando essa mesma malandragem e esse mesmo samba começaram a surgir, os músicos, batuqueiros e cachaceiros de plantão reuniam-se em mesas de bar, justamente por não poderem fazer e escutar a música que queriam nos lugares reservados à elite, a bem dizer, os lugares aonde existia um, digamos, establishment musical. Estes seriam os teatros, os cabarés, os gramofones, etc. Música negra, ou música de pobre, abrangendo um pouco, era coisa de mesa de bar, e freqüentemente caso de polícia.

Hoje em dia é justamente nas caríssimas mesas de bar da Lapa que os jovens filhos da nossa elite vão escutar bandas de Samba e Choro que cobram seu cachê em ouro, e que muitas vezes são músicos provenientes dessa mesma elite. Isso sem falar nas baterias de Escola de Samba que tocam até no Municipal, e nas próprias Escolas de Samba, que cobram cada vez mais caro no Carnaval.

E o que é que salva esses malandros de São Cristóvão, assim como todos os outros, do total ostracismo em relação a essa nova elite do samba que conquistou o establishment?

É justamente um antepassado do gramofone, a jukebox. Reverteram-se os valores, os valores de mercadoria, mais especificamente. Acho que Marx fala alguma coisa sobre isso no Capital, do "valor espiritual", se eu bem me lembro, atribuído a uma mercadoria que só tem relevância cultural, e não material.

A Jukebox sintetiza toda uma nova era, em que você pode ter uma roda de pagode inteira dentro de uma caixa com uma telinha e alto-falantes. O que antes era inacessível para os pobres - o som gravado - hoje se encontra de 50 centavos nos botecos até 5 reais com os camelôs: as caixas de som de meus vizinhos que moram no cortiço aqui embaixo da Rua Santa Cristina que o digam!

Na Jukebox, os espíritos de Cartola, Zé Kéti e Nelson Sargento emanam muito mais altos do que em qualquer microfonezinho fincado nos paralelepípedos, ou entre quatro paredes da Lapa ou de Santa Tereza.

Para um vagabundo com alguns trocados no bolso é mais viável comprar uma ficha para escutar um samba do Pagodinho do que ir beber na Lapa, onde ele poderia escutar samba à vontade. Claro que muitos vão, muitos moram por ali, inclusive. Mas normalmente ficam de pé, escutando de longe, por poderem cada vez menos consumir, tornam-se os assaltantes, os ambulantes, os mendigos que deixam aquele lugar tão pitoresco para os turistas, não é mesmo? e, finalmente, são cada vez mais empurrados por toda uma nova leva de estudantes universitários, gringos, jovens e não-tão-jovens foliões de happy-hour. Há uns três ou quatro meses ainda era possível encontrar boas cervejas por R$ 2,50 na Joaquim Silva, que é ainda o que se salva dessa elitização da Lapa.

Agora, a não ser que se queira tomar Cintra, não se encontra por menos de 3. Inflação? Ou melhoria no nível social de quem toma, e paga, a cerveja? O que é certo é que a cerveja vai aumentar ainda mais, assim como todo o resto: a gasolina, o pão, o preço do metrô e, obviamente, a malandragem.

(*) Guilherme Mazzocato é professor de inglês, historiador e gaúcho perdido no Rio de Janeiro.

Leia aqui a primeira parte dessa história.


Clique aqui para assinar nosso jornal impresso


Este site é melhor visualizado na resolução de 800 x 600 pixels.
© 2004 Fazendo Media - por Kzal Design