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03.05.2007
DOIS FILMES SOBRE A REALIDADE BRASILEIRA

Por Mário Augusto Jakobskind - contato@fazendomedia.com

Batismo de Sangue e Proibido Proibir são dois longas-metragens brasileiros que vieram para ficar. Ou seja, são documentos de épocas. Batismo de Sangue, um importante documento cinematográfico do excepcional diretor Helvécio Ratton, mostra, com base no livro homônimo de Frei Betto, o calvário de Frei Tito, um padre dominicano vítima de facínoras a serviço de uma ditadura que vigorou no Brasil depois do golpe civil-militar de 1964. Esta película, que está provocando o ódio de extremistas de direita que sempre apoiaram o regime autoritário que se extinguiu em 1985, mas deixou seqüelas, é da mais alta relevância, pois mostra com realismo o drama de pessoas que foram presas, torturadas e mortas por facínoras, como o então delegado Sérgio Fleury e outros, cujos nomes podem ser encontrados no livro Brasil: Nunca Mais.

O filme remete também a uma questão da mais alta importância e que está em discussão, já em fase adiantada, em países como a Argentina, Uruguai, Chile e mais recentemente a Bolívia, onde o ex-presidente Gonzalo Sánchez de Lozada ainda precisa ser julgado por ter sido o responsável pela repressão violenta, em El Alto, que resultou em mais de 60 mortos. Ou seja, por lá, torturadores, assassinos e seus cúmplices, inclusive da alta cúpula, estão sendo julgados pelo que fizeram durante as respectivas ditaduras. Na Argentina caiu a anistia concedida pelo ex-presidente Carlos Menem aos responsáveis pela repressão. No Uruguai, um ex-presidente, Juan Maria Bordaberry, considerado responsável pelo golpe que acabou levando o país a uma cruel ditadura, chegou até a ser preso para responder pelo que fez.

No Brasil, o episódio do Coronel Brillante Ulstra é significativo. Depois de ser aberto um processo contra ele - por pessoas que pretendem apenas que o Poder Público reconheça a tortura praticada pelo militar - Ulstra recebeu homenagens de oficiais da reserva, inclusive o golpista mais veterano da paróquia, o ex-coronel Jarbas Passarinho, a mesma figura hedionda que na assinatura do AI-5, em dezembro de 1968, mandou "as favas os escrúpulos de consciência".

Batismo de Sangue remete a todas estas questões e mais alguma coisa, como, por exemplo, por que não tornar públicos de uma vez por todas os documentos da área militar daquela época? Que história é esta de anistiar quem nunca foi julgado? Ou, para citar o jurista Hélio Bicudo, um baluarte na luta em defesa dos direitos humanos: crimes como o da tortura contra seres humanos são imprescritíveis, ou seja, podem ser julgados a qualquer momento. Se algum criminoso nazista que estiver vivo for descoberto, sem dúvida responderá pelo que fez nos anos 40. E por aqui tem muito torturador impune.

Os críticos até reclamam que o filme é muito violento. O filme mostra a tortura. Não é no esquema da violência pela violência, como dos enlatados de Hollywood. Mas aí, geralmente, poucos questionam.

Proibido Proibir, do chileno Jorge Duran, apresenta a realidade nua e crua da atualidade brasileira, no Rio de Janeiro, onde a polícia diariamente desrespeita os direitos humanos nos bairros populares. Embora não tão malignamente criticado pelos "especialistas", este filme mostra como a juventude brasileira, sobretudo a das áreas populares, está encurralada, exatamente porque o sistema econômico em vigor não lhe oferece perspectiva.

O filme deixa claro também como age a polícia, seja ela civil ou militar. É fundamental que esta película seja vista pelos mauricinhos e patricinhas da Zona Sul do Rio de Janeiro, dos Jardins de São Paulo e de outras cidades brasileiras. Proibido Proibir é da mais alta importância neste momento em que a mídia conservadora, na base do preconceito de classe, dá sempre razão para o lado dos que usam a truculência como norma e defendem penas mais rigorosas contra os menores de 18 anos. Hoje querem a redução da maioridade penal para 16 anos e amanhã, quem sabe, para 14, 12, 10, até chegar ao útero materno, eliminando o "mal pela raiz" - na concepção do conservadorismo senso comum -, ou seja, o nascimento de pobres. Podem crer, é esta a filosofia cultivada por aqueles que só conseguem enxergar o próprio umbigo.

Em suma: são dois filmes imperdíveis.


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