......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS



SERES OU RESES

10.06.2009
"Adh dhuha" (as horas da manhã)

O discurso do presidente Barack Obama no Cairo não deixa de ser um avanço em relação à linguagem usada por seu antecessor, ao mesmo tempo em que mantém intocadas algumas questões cruciais. Há uma crítica positiva a Israel, mas há a reafirmação de “laços inquebrantáveis” entre os EUA e o estado judeu. Os objetivos perceptíveis na fala de Obama são de curto, médio e longo prazos, mesmo que não definam com precisão as políticas norte-americanas para o Oriente Médio. Em si, o discurso foi um sinal que Obama está disposto a conversar.

É interessante notar que Obama falou do Islã, citou trechos do Islã – “seja consciente de Deus e sempre fale a verdade” –, menção ao período que viveu na Indonésia quando criança. Falou para fora e falou para dentro.

Obama e Hillary têm dito com frequência que os povos muçulmanos precisam mostrar mais que vontade, mas ter atitudes efetivas na direção da paz. E aí a porca torce o rabo, um velho ditado brasileiro.

Obama não estava consciente de Deus, portanto não falou a verdade quando se referiu ao Hamas. O partido político que governa Gaza pela vontade do povo palestino reconheceu o direito de existência de Israel em meados do ano passado. O fato foi ignorado pelo governo de Bush, pelo governo de Israel e sequer mencionado pela mídia controlada em boa parte do mundo por grupos norte-americanos ou judeus, ou grupos ligados a esses interesses.

O recuo do Hamas se deu após o genocídio sionista contra o povo de Gaza no final do ano passado, exatamente porque a paz não interessa a Israel em franca e permanente política expansionista. O Hamas, nos termos do acordo firmado por outro presidente americano e democrata, Bill Clinton, venceu as eleições na faixa de Gaza.

Obama citou a necessidade de reformas democráticas nos países muçulmanos e referiu-se especificamente aos direitos da mulher. O Irã é um dos poucos países muçulmanos onde a mulher tem direito ao voto e onde a legislação popular e islâmica avança de forma mais acelerada nessa direção.

O presidente dos EUA não esclarece o que sejam reformas democráticas e fica claro que essas mudanças se atêm ao conceito norte-americano de democracia. Vale dizer, ignora a cultura milenar dos muçulmanos, seus costumes e tradições. Reformas democráticas seriam adaptar os países de maioria muçulmana ao modelo conhecido como american way life. O presidente usou a “expressão interesses de ambos os lados”, logo, comércio. Foi claro e enfático quando disse que a invadir e ocupar o Afeganistão tem um custo alto e é uma realidade que vai ter que chegar ao fim, mas reafirmou que tropas de seu país defenderão em qualquer canto do mundo “cidadãos americanos cuja segurança esteja ameaçada”.

Soprou e mordeu. Fez isso várias vezes.

É relevante notar que Barack Obama falou no Cairo em visita ao Egito. O governo do Egito é uma ditadura e o processo eleitoral naquele país foi modificado pelo governo –aliado dos EUA – quando o partido islâmico venceu. Esse partido foi proscrito. A repressão no Egito a grupos islâmicos é um fato, a violência como ela se dá é outro fato e a população egípcia é em sua esmagadora maioria muçulmana.

Essa democracia que passa por eleições e respeito às religiões ao direito de escolha e crença, não chegou ao Egito. Foi abortada pela força das armas com apoio dos EUA. É assim no Kwait, nos Emirados Árabes, na Arábia Saudita. na Jordânia e outros países de maioria muçulmana na região.

O Irã, apontado como foco do que chamam de “terrorismo” é a única democracia em todo o mundo Islâmico. E o discurso de Obama, entre outras coisas, passeia em generalidades, para tentar chegar a Teerã num momento eleitoral e influir na tentativa visível dos EUA de derrotar o atual presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, candidato à reeleição.

A resposta do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo da revolução islâmica, nos eventos comemorativos dos 20 anos da morte de seu antecessor Ruhollah Khomeini foi com as mesmas palavras de Obama em relação aos países de maioria muçulmana – “o discurso não basta, são necessários gestos práticos" –.

A resolução das Nações Unidas que criou Israel e o Estado Palestino em 1948 dividiu Jerusalém em duas partes. Uma sob o governo de Israel e outra sob jurisdição da Jordânia. Na guerra dos seis dias em 1967 Israel ocupou a parte muçulmana, transferiu simbolicamente sua capital para Jerusalém e não admite participar de qualquer diálogo que implique na volta à situação anterior. Afirma sua supremacia sobre Jerusalém como cidade sagrada do povo judeu. É também de cristãos e muçulmanos.

O presidente dos EUA, em seu discurso no Cairo, citou Jerusalém como cidade dos povos muçulmanos, judeus e cristãos. Criticou Israel pelas políticas expansionistas ao reiterar apelos ao governo de Tel Aviv para por fim às políticas de ocupação de colonização de terras palestinas.

Como se vê, muitas no cravo, muitas na ferradura e agora é hora de Obama mostrar os passos práticos.

A questão de armas nucleares é outro complicador. Israel não é um país signatário do tratado de prescrição dessas armas. Tem armas nucleares e Obama reconheceu o direito de qualquer país dispor de energia nuclear para fins pacíficos. Mas e as armas nucleares de Israel que só foram possíveis graças a apoio, conivência e participação norte-americana?

Existem pelo menos 60 resoluções da ONU condenando Israel por vários crimes contra palestinos. Como Obama vai lidar com isso?

O ex-vice-presidente dos EUA Dick Cheney – governo Bush – tem percorrido as principais associações pró Israel dos EUA e organizações de cidadãos norte-americanos afirmando que o país vai ser novamente atacado pela Al Qaeda. É uma visível reação à política de Obama e tem funcionado para evitar que sejam denunciados os crimes do governo Bush contra muçulmanos em todas as partes do mundo. Nas prisões do Iraque, do Afeganistão, no campo de concentração da base de Guantánamo – área de Cuba ocupada pelos EUA – e nas ações da CIA – serviço de inteligência do país – que envolvem desde sequestro de “suspeitos” em países outros – a Alemanha é um deles –, ao crime de tortura num primeiro momento consentido e depois explicitamente autorizado por Bush. Caso da “asfixia simulada”.

Obama não conseguiu autorização do Congresso para fechar o campo de concentração de Guantánamo e desistiu de mostrar as fotos das torturas, ou de investigá-las e punir culpados. É o resultado concreto que se tem da reação de Dick Cheney que os próprios meios de comunicação dos EUA revelam como sendo quem de fato decidia no governo Bush, já que o ex-presidente não fala – grunhe- e não tem cérebro, mas uma suástica onde deveria estar a massa pensante.

A reação do aiatolá Khamenei deve ser entendida por Obama como vontade de buscar caminhos de paz. São complexos como disse o próprio Obama, mas possíveis. Os gestos efetivos que Obama reclama devem partir dos EUA. Afinal, são eles, os norte-americanos, que têm tropas e “negócios” na região. É o governo de Israel o responsável por práticas terroristas e expansionistas na região.

E são governos ditatoriais como o do Egito que por conta dos interesses de elites subordinadas ao governo dos EUA e países da Comunidade Européia, a empresas, que não têm interesse na paz pelo simples fato que temem a tal “democracia” que Obama tanto fala. São esses governos que reprimem a maioria muçulmana.

Quando as tropas norte-americanas chegaram a Bagdá em 2003 o presidente norte-americano George Bush disse que “é hora dos países de maioria muçulmana aceitarem a democracia”. Citou o Kwait, onde segundo ele a cooperação dos EUA estava criando condições para essa democracia. Permanecem intocadas as monarquias absolutas sócias das grandes empresas petrolíferas dos EUA, Grã Bretanha, Austrália, Japão e Alemanha.

Não há como negar que o discurso de Obama, como discurso, foi diferente de tudo o que Bush dizia.

É esperar para ver a prática. Qualquer tentativa de paz duradoura no Oriente Médio passa pelo Estado Palestino nos termos da resolução de 1948, vale dizer, devolução de terras tomadas por Israel àquele povo. Passa pelo fim dos massacres de palestinos por governos sionistas. Passa por Jerusalém independente nos termos de uma proposta que foi feita ainda pelo papa Paulo VI – último papa decente da Igreja Católica – e passa pelo reconhecimento dos valores da cultura islâmica.

A paz e a integração dos países de maioria muçulmana ao resto do mundo não passa por letreiros da rede McDonalds, ou da Coca-cola. Começa no que Obama chamou de “interesses mútuos e respeito mútuos”. Isso implica também em sair do Iraque, uma guerra montada na farsa e na mentira das armas biológicas.

Se Obama vai ter forças para enfrentar e vencer as resistências de grupos sionistas que controlam os “negócios” em Washington e sacramentam toda essa barbárie israelense contra palestinos, isso é outra história. Esse é o principal desafio do presidente.

Clinton chegou a um acordo de paz consequente. Um terrorista israelense assassinou o primeiro-ministro de seu país nas comemorações do acordo. Ninguém tem dúvidas que agiu a mando dos grupos terroristas que desde então controlam Israel. E têm suas bases políticas e financeiras nos EUA.

O terrorismo não está na república popular e islâmica do Irã, mas em Tel Aviv e dentro dos EUA.

Que Obama se lembre da 93ª Surata do Alcorão. “Adh Dhuha” – As Horas da Manhã –. “Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso. Pelas horas da manhã e pela noite, quando é serena, que o teu Senhor não te abandonou, nem te odiou. E sem dúvida que a outra vida será melhor, para ti, do que a presente. Logo o teu senhor te agraciará , de um modo que te satisfaça. Porventura não te encontrou órfão e te amparou? Não te encontrou extraviado e te encaminhou? Não te achou necessitado e te enriqueceu? Portanto não maltrate o órfão, nem tampouco repudies o mendigo, mas divulga a mercê do teu Senhor, em teu discurso”.

Não se trata de piedade, nem de misericórdia capitalista. De direito legítimo.

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> Laerte Braga é jornalista. Nascido em Juiz de Fora, trabalhou no Estado de Minas e no Diário Mercantil.

Ilustração: Táia Rocha

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