
CONTRA-HOMENAGEM À GLOBO NO RJ
por Bruno Zornitta, do Rio de Janeiro
"Se vocês me perguntam quem matou Tim Lopes, eu acho que não foi o Elias Maluco, porque tudo foi mudado nessa história que se conta". Essa é a opinião de Cristina Guimarães, ex-repórter da TV Globo e ganhadora do Prêmio Esso de Jornalismo com a matéria sobre a feira de drogas, produzida em parceria com Tim Lopes. Cristina foi uma das convidadas a falar no debate Globo: 40 anos de manipulação, realizado no auditório do Sindipetro-RJ, no dia 26 de abril, aniversário da emissora. Participaram também Mário Augusto Jakobskind, jornalista e autor do livro "Dossiê Tim Lopes - Fantástico Ibope" e Kleber Mendonça, professor universitário e autor de "A punição pela audiência: o caso Linha Direta".
A contra-homenagem à emissora foi organizada pelos ComunicAtivistas, grupo que luta pela democratização da informação. Além do debate, foram exibidos dois documentários através do sistema multimídia do sindicato. O primeiro foi um vídeo que conta como a Globo manipula as informações, produzido pelo Comitê pela Democratização da Comunicação por ocasião dos 27 anos da emissora. Em seguida, o grupo exibiu o clássico Brazil: Beyond Citizen Kane, documentário produzido pelo Channel Four de Londres e proibido pela Globo no país.
"Quarenta anos de pensamento único fazem com que o povo brasileiro, hoje, esteja desinformado", disse o Jakobskind no debate. O jornalista denunciou a omissão das entidades representativas no caso Tim Lopes: "A Fenaj [Federação Nacional dos Jornalistas] e o sindicato do Rio tomaram as dores da Rede Globo, do patrão". Para Jakobskind, o caso Tim Lopes não foi uma exceção: "Em 14 de abril de 2002, a TV Globo saudava um golpe de Estado na América Latina, o golpe na Venezuela. Esse é jornalismo praticado pela emissora".
De acordo com Cristina Guimarães, a morte de Tim Lopes foi resultado do descaso da Globo com seus repórteres. A jornalista afirmou que Tim foi obrigado a cobrir o tráfico de drogas no Morro do Alemão um ano após ganhar notoriedade pela matéria sobre a feira de drogas: "A TV Globo mandou o Tim pra lá, não pra cobrir o baile funk, como disseram, pois o baile começa às 23h e ele pediu para o motorista buscá-lo às 22h". Cristina disse ainda que, além da manipulação, há censura dentro da empresa: "Muitas das minhas matérias foram censuradas, principalmente a das fraudes nas eleições. As eleições podem ser fraudadas sim, de 22 maneiras diferentes".
Kleber Mendonça destacou o que ele chama de "estratégia de autoridade da Rede Globo". Segundo o professor, a emissora se coloca acima do poder público a pretexto de estar ajudando a população, mas isso gera um problema de distanciamento do cidadão, que não tem mais acesso a esse poder. "Nos dias de hoje, não é mais uma questão de simplesmente manipular a informação, mas de se colocar no lugar de resolver os problemas da população. Talvez isso explique um pouco porque não há mais manifestação na porta da Globo", disse ele, fazendo referência ao protesto dos petroleiros em 95, quando a Globo criminalizou a greve da categoria. Kleber afirmou também que a Globo reconstrói a história do país a seu gosto: "o que está acontecendo hoje é uma briga pela memória". Não por acaso estão sendo lançados vários livros sobre a emissora e seu fundador. Antes de terminar, o professor apontou uma saída: "a gente só vai conseguir reverter esse quadro se conseguirmos criar mecanismos para construir uma memória outra". Exatamente o que faziam as pessoas presentes naquele auditório.
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