
MÍDIA CALIBRADA: NOS EMBALOS DO NYT
por Júlio Lubianco e Malu Muniz
Alguém que conhece as médias que a mídia faz não tem dúvida: o jornalismo é uma arma; a bala, a informação. Nos últimos tempos, essa arma tem andado um pouco, digamos, calibrada demais.
Na mídia calibrada, quase todo jornalista tem seu dia de Jason Blair. Na semana do último dia 9 de maio, Larry Rohter, correspondente do mesmo jornal no Brasil, chegou a receber um prazo de oito dias para deixar o País. O motivo foi o artigo Bebedeira de Lula vira preocupação nacional, em que tentava mostrar uma suposta preocupação dos brasileiros com um suposto alcoolismo do presidente. O Planalto não gostou de tantas suposições e decidiu pela expulsão do jornalista do País.
No ano em que o Golpe Militar, por conta do seu aniversário de 40 anos, volta às páginas dos jornais, a medida do governo foi vista como censura. Essa novela político-midiática, segundo o jornalista Milton Temer, vice-presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), teve maior repercussão na mídia nacional e estrangeira em função da "reação destemperada" do governo a uma matéria fútil. Para Temer, "Só uma república de banana poderia transformar isso numa preocupação nacional. Superávit primário, salário mínimo, a questão da intervenção americana na fronteira com o Plano Colômbia: isso sim é preocupação nacional".
Em seu artigo, Rohter baseou-se em suposições e não em fatos, como manda a ética da profissão. Na opinião do jornalista Fritz Utzeri, ex-diretor de redação do Jornal do Brasil, Rohter fez uma recortagem, ou seja, utilizou recortes do que leu na mídia nacional para compor seu polêmico artigo. Utzeri disse ainda que este episódio mostra o despreparo do governo, e completou: "Esta reportagem é uma bobagem, algo menor. Bastaria uma nota irritada do Itamaraty".
Uma das fontes citadas na matéria foi Cláudio Humberto, colunista do jornal carioca O Dia. Por e-mail, informou que foi procurado por Rother para uma entrevista , mas não aceitou. O jornalista do NYT citou uma enquete de Humberto, em que internautas escolheram o nome para o novo avião presidencial, comprado recentemente. Segundo ele, ganhou a opção Air Force Fifty One. As outras opções, Movido a Álcool e Pirassununga 51, citadas por Rother, nunca fizeram parte de qualquer enquete.
Em meio a trocadilhos, ironias e defesas à liberdade de imprensa e à democracia, que só agora parecem ter sido maculadas, um professor de História do Brasil, na manhã de sexta-feira, 14 de maio, assustado com a possibilidade de um retrocesso anti-democrático, adverte: "O perigo é real!". Sim, professor, há um perigo. Este é real, a cores e diário.
Matéria de capa da edição # 15 do FM impresso

Todas as matérias