A POLÍTICA ECONÔMICA DO GOVERNO LULA ATRAVÉS DAS LENTES DO JORNAL NACIONAL
por Breno Costa

A partir desta edição, o Fazendo Media estará acompanhando cada passo da mais influente fonte de informação do Brasil: o Jornal Nacional. Assisitido por dezenas de milhões de telespectadores em todo o Brasil há quase 40 anos, o JN tem, no seu currículo, diversas manchas irremovíveis, tais como a omissão na época da campanha "Diretas Já!", em 1984, e a descarada manipulação do debate final para a presidência da República, em 1989.

Nesta edição, começaremos analisando a maneira pela qual o Jornal Nacional aborda a questão da política econômica praticada pelo governo Lula. Juros altos, desemprego e miséria crescente. Por qual viés o JN aborda a economia? Negativamente, criticando os juros "arranha-céu", que emperram o desenvolvimento do país e aumentam o desemprego? Ou positivamente, com a exaltação da "prudência fiscal" praticada pelo Ministério da Fazenda e pelo Banco Central?

Acompanhamos o Jornal Nacional dos dias 21 a 29 de abril. O resultado: 82% das matérias referentes à economia davam sustentabilidade à política econômica atualmente praticada. Apenas duas matérias poderiam injetar no imaginário dos milhões que, diariamente, acompanham o jornal algum miligrama de questionamento acerca da condução da economia brasileira. Além disso, nas 11 matérias sobre questões econômicas transmitidas pelo noticiário durante a semana, 93% dos entrevistados eram defensores do sistema econômico predominante. Para um jornal que se diz imparcial, esse é um dado preocupante. O pior: 46% das vozes ouvidas nas matérias analisadas pertenciam ou a Antônio Palocci, ministro da Fazenda, ou a Henrique Meirelles, presidente do Banco Central e ex-presidente do Bank Boston, reforçando a tese dos que vêem o Jornal Nacional como porta-voz do governo e dos que acreditam que a necessidade de aporte financeiro por parte do BNDES para saldar dívidas da Globo tenha algo a ver com o apoio dado pela emissora ao governo.

Como se não bastasse, em uma das matérias desfavoráveis à política econômica do governo - referente ao desemprego recorde na Grande São Paulo - o JN resolveu ouvir a opinião de três populares. Uma babá disse que não esperava, que se sentiu surpresa; uma vendedora culpou o mercado, por não oferecer vagas suficientes; e um motorista disse que a solução é cada um fazer a sua parte, "não baixar a cabeça". Ou seja, nenhum dos "representantes da massa" questionou a política econômica promovida pelo governo Lula e, agora provadamente, apoiada pela Rede Globo. A outra notícia negativa divulgada pelo JN - versando sobre o aumento dos juros cobrados das empresas - foi a que teve menos tempo dentre todas as analisadas.

No dia 29 de abril, o Jornal Nacional poderia ter colocado em pauta a divulgação de uma pesquisa divulgada pelo SEBRAE, que mostra que a maior preocupação entre os jovens é com o desemprego. Como William Bonner diz que apenas os fatos mais relevantes ocorridos no Brasil e no mundo entram no Jornal Nacional, pode-se concluir que a tal pesquisa não está dentro dos critérios de relevância exigidos por ele, o editor-chefe do jornal. Ou então, o JN poderia ter dado voz ao professor de economia da UFRJ, Reinaldo Gonçalves, que afirmou que se o governo investisse metade do que paga em juros da dívida, através do superávit primário acertado com o FMI, a economia do país estaria "consertada". A Agência Carta Maior (www.agenciacartamaior.com.br) ouviu. O JN preferiu escutar as opiniões nada suspeitas de Antônio Palocci e John Snow, secretário do Tesouro dos Estados Unidos, sobre o superávit primário mais alto já alcançado por um governo brasileiro em toda a história.

Matéria publicada na edição # 14 do FM impresso

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