
UM ACOMPANHAMENTO (QUASE PSIQUIÁTRICO) DA REVISTA VEJA
por Carolina Rangel
Contestação, manifestação, utopias, desejo geral de liberdade e justiça. "1968, o ano que não terminou" segundo as palavras do escritor Zuenir Ventura. Neste mesmo psicodélico ano, em 11 de setembro, nasce a Revista Semanal de grande impacto social no país: Veja. A sua linha editorial, neoliberal, é identificada por uma série de fatos que marcam a sua história.
Em sua primeira edição são estampados a foice e o martelo com o prenúncio do fim do comunismo, justificativa para o golpe de 64. Seguindo a lógica, o AI-5 é tratado como uma medida necessária para combater num mesmo grupo os estudantes, as ondas de assaltos e os atentados terroristas, até hoje associados ao comunismo de forma velada, "um espectro ronda a Europa" palavras de Marx no Manifesto do Partido Comunista atribuída por Veja ao atual terrorismo. No seu aspecto positivo "O Ato teve o cuidado de colocar a dimensão econômica como um dos dados mais importantes da questão" (13 de dezembro 1968).
Collor possui com Veja uma relação passional. Nas eleições de 1989 o bom relacionamento era visível. "Na verdade, a vitória de Fernando Collor sobre seu concorrente no segundo turno, o candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, saiu melhor que a encomenda" (24 de dezembro de 1989). Após o impeachment, com ampla participação da revista, que publica com exclusividade as denúncias proferidas pelo Pedro Collor, a visão é invertida. "Pedro Collor conta tudo" capa de 25 de maio de 1952.
Com Lula se vê o afeto crescendo à medida que suas tendências de esquerda vão minando até se diluírem com seu atual governo de diretrizes direitas ou "cardosianas".
Por pelo menos duas vezes Veja demonstrou a força das Agências de notícias internacionais e ausência de uma apuração qualificada para assuntos de pouca significação. Aqui incluem-se a história do boi-mate. Num primeiro de abril, nos Estados Unidos, é publicada esta suposta invenção boi com tomate que é reproduzido na íntegra como descoberta verídica. A segunda é mais grave e se refere à chamada facção terrorista da América do Sul, Venezuela, pelo discurso estadunidense. Uma fila para comprar frangos é confundida como uma manifestação para depor o presidente Hugo Chavez.
Como referência mais recente deve-se considerar a matéria intitulada "Os 260 melhores cursos do país" tendo como base a Avaliação Nacional dos Cursos, popular Provão, obtida com exclusividade. Este método de avaliação, criticada pela comunidade universitária pelo fato de ser uma média com base somente nos alunos e, portanto, não pode ser referencial para denominar a qualidade de uma faculdade. "o Provão rendeu mais benefícios do que todas as políticas nacionais para o ensino superior aplicadas nos últimos 196 anos."
Assim, entendendo que Veja faz parte do meio comunicacional dominante nacional e que possui, portanto, um grande poder de significação, de caracterização da realidade política e cultural contemporânea é que o Fazendo Media a partir desta edição cuidará de uma análise cuidadosa e constante da revista. Ao leitor fica a tarefa de uma leitura crítica e opinativa.
Matéria publicada na edição # 12 do FM impresso

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