NA RODA COM EDUARDO GALEANO
por Malu Muniz

Quem chegasse desapercebido ao Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) no dia 4 de março por volta das dezessete horas poderia se perguntar como uma pessoa consegue atrair tantas outras, cerca de quatrocentas, para a simples leitura de alguns contos. Esta pergunta seria, no entanto descabida ao fim das duas horas de Roda de Leitura com o escritor, historiador e jornalista Eduardo Galeano.

As senhas foram distribuídas pontualmente às 18 horas. Não obstante o reduzido número de cadeiras disponíveis ao público ouvinte, ninguém ficou do lado de fora. Nos assentos, sentados no chão ou mesmo em pé todos puderam ouvir aquele senhor de 63 anos lançar alguns comentários bem humorados que arrancaram gargalhadas dos presentes, lamentar pelos fios de cabelo que caem, compensar tal perda com o fato de que suas idéias permanecem ilesas e fazer breves comentários sobre as feridas abertas da América Latina, em especial do Haiti.

Entre uma gargalhada descontraída aqui e um silêncio admirado ali, Galeano leu seus próprios contos, alguns em português e outros em espanhol, ressaltando, logo no início a relevância da língua em que são ditas as palavras para que estas mantenham sua força e sentido. Tratando da importância da língua Galeano afirma: “A língua não é depósito de lixo”.

O homem que não se reconhece como um intelectual, isolado, deixa no ar não só as respostas para as perguntas, mas principalmente as perguntas curiosamente sem respostas: “Quem vende as armas numa guerra? Quem está fazendo bom business?” Galeano, que afirma ser imprescindível escolher as palavras certas que merecerão substituir o silêncio, é bastante categórico ao reconhecer as falhas presentes nos meios de comunicação massiva. Dado o monopólio destacado pelo escritor, o caráter manipulador da grande mídia, guiada por interesses alheios aos do universo jornalístico de fato, é reconhecido e questionado pelo escritor.

Além de denunciar o “fatalismo de um sistema que se disfarça de destino” e que “empresta com uma mão o que rouba com a outra”, Galeano chama atenção para aqueles que, segundo ele, são responsáveis por propagar o medo, a desconfiança e a competitividade acirrada e desenfreada. Estes, os meios de comunicação massiva, em um dos contos narrados são representados pelo poeta da corte que tendo oferecido ao seu rei a berinjela como uma maravilha a ser degustada, imediatamente depois, maldiz a iguaria quando esta já não agrada o rei. Por fim, questionado quanto sua atitude volúvel o poeta se diz cortesão do rei e não da berinjela.

Notadamente, a descontração é uma marca do escritor uruguaio que tem em sua biografia um exílio de 12 anos e uma série de livros traduzidos em 20 línguas, assim como os prêmios atribuídos a estes. “As veias abertas da América Latina” (1971), certamente a obra mais conhecida do autor, é tida por admiradores e profissionais da área como uma leitura obrigatória àqueles que desejam conhecer profundamente a História da América Latina. Embora seja denso em seu conteúdo, a linguagem simples e não acadêmica, característica da obra de Galeano que atrai leitores de diversos países, torna as quase 300 páginas do livro um caminho fácil de ser percorrido rumo a compreensão do contexto omitido na cobertura da grande mídia ao estilo “time is money”.

O saldo da primeira Roda Leitura com um autor internacional começou com chave de ouro, abrindo portas para uma compreensão mais crítica e contextualizada de fatos como a crise política do Haiti, país que, segundo Galeano, tem por credores aqueles que nunca o perdoaram por ter sido o primeiro a conquistar uma ampla liberdade, tendo inclusive abolido a escravidão. Galeano, que defende o fortalecimento do Mercosul, recordou que os EUA ocuparam o Haiti por dezenove anos, tendo sido responsáveis por grande parte dos desastres subseqüentes, tanto na economia quanto nas áreas social e política.

Em abril de 2002, no jornal mexicano La Jornada, Galeano falou sobre o que ele denominou “a tecnologia da manipulação”, característica de uma “máquina” traidora das palavras. Demonstrando – se atento às questões que permeiam a conjuntura política da América Latina, Eduardo Galeano opinou nesta mesma ocasião sobre a interferência da mídia no cenário político da Venezuela. “Chavez tocou os intocáveis. E os intocáveis, donos dos meios de comunicação e de quase todo o resto, ficaram indignados. Com toda a liberdade, denunciaram o extermínio da liberdade. Dentro e fora de seu próprio país, a máquina converteu Chávez em um "tirano", um "autocrata delirante" e um "inimigo da democracia", afirmou Galeano no texto “A máquina”(fonte: www.jornada.unam.mx) ”.

Dessa forma, o mesmo homem autor de metafóricos textos também se propõe a esclarecer as médias que a mídia faz, quando se comporta como cortesã do poder. Por fim, o agradável encontro com um Eduardo Galeano bem humorado e informal, numa tarde de quinta-feira, certamente proporcionou um pouco mais de cultura aos presentes, já que, na concepção do escritor, culto não é quem retém conhecimentos, mas “aquele capaz de conhecer e compartilhar segredos com a natureza e com os outros".

Especial para o Fazendomedia.com

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