"TENHO MAIS MEDO DA TV GLOBO DO QUE DOS TRAFICANTES", DIZ JORNALISTA
por Marcelo Salles

Se eu dissesse que ela estava nervosa, estaria mentindo. Aquilo era pânico, pavor.

Estávamos no décimo primeiro andar do prédio da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) para cobrir o lançamento do livro-reportagem “Dossiê Tim Lopes – Fantástico/Ibope”, do jornalista e escritor Mário Augusto Jakobskind. Enquanto posicionávamos a câmera para gravar uma entrevista com o autor, uma mulher veio em nossa direção e, agitada, pediu para não ser filmada. “Sou a Cristina Guimarães e vocês não podem me filmar”, disse.

Expliquei que nossa intenção não era essa, que ela poderia ficar tranqüila. Soou estranho. “Tranqüila” era uma palavra que já não existia no vocabulário daquela mulher. O medo acompanhava seu olhar onde quer que ele fosse. Pedimos uma entrevista. Concordou, desde que não fosse gravada. “Vamos lá pra fora”, ela disse. Fomos para a varanda. Cinco integrantes do Fazendo Media, além dos dois advogados dela. Em quinze minutos Cristina fumou um maço inteiro. Tremia e olhava para os lados freneticamente, como se alguém – ou alguma coisa – a observasse. Contou como os repórteres da TV Globo eram obrigados a voltar várias vezes a uma mesma favela para gravar imagens, mesmo tendo sido ameaçados de morte pelo tráfico, como era o seu caso e o de Tim Lopes. “O que muita gente não diz é que na semana do desaparecimento do Tim apareceu uma notinha num jornal que dizia que os funcionários da Globo não andavam mais com o crachá de identificação. Suas cabeças estavam a prêmio”, revelou.

Cristina Guimarães foi repórter da TV Globo por 12 anos. Recebeu o prêmio Esso de jornalismo, juntamente com Tim Lopes, pela matéria “Feira de Drogas”, veiculada pelo Jornal Nacional em 2001. Foi correspondente de guerra no Iraque e em Angola. Resolveu sair da emissora quando percebeu que seus chefes não estavam preocupados em garantir sua segurança.

Hoje a viúva de Tim Lopes, Alessandra Wagner, move uma ação contra a TV Globo para responsabilizar a emissora. Segundo o advogado de Alessandra, o empregador não garantiu a integridade física de seu funcionário durante o trabalho. “O Tim morreu porque foi obrigado a voltar tantas vezes à Vila Cruzeiro (uma das doze favelas do Complexo do Alemão)”, contou Cristina.

A jornalista sentiu-se obrigada a cair na clandestinidade. Jurada de morte pelo tráfico, não encontrou proteção no governo brasileiro e nem solidariedade entre seus colegas de trabalho. “Ninguém na Globo falava comigo. Temiam perder o emprego”. Pediu ajuda à Anistia Internacional e recebeu amparo do governo dos EUA. Foi considerada “maluca” pela Globo. Viajou por 28 países e viveu no interior do RJ durante um bom tempo. Tudo isso porque Cristina, ao contrário de Tim, recusou-se a voltar a um local onde foi jurada de morte para captar imagens que satisfizessem seus editores. Os pontos no IBOPE, era disso que se tratava. O sensacionalismo antes da vida. A vida está valendo pouco, muito pouco. Quase nada. Se existe sempre alguém disposto a se matar de trabalhar, por que não se livrar dos inconvenientes que trabalham para viver?

Hoje a jornalista Cristina Guimarães não tem endereço fixo. Além disso, vive com medo, estressada. Está pagando um preço gigantesco por ter rompido com o esquema. Como se tivesse quebrado o Omerta - pacto de silêncio da máfia. “Hoje não tenho medo só dos traficantes, tenho medo da TV Globo. Tenho até mais medo da TV Globo do que dos traficantes, porque eu sou a prova viva de que eles assassinaram o Tim”, diz Cristina.

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