A DESCARACTERIZAÇÃO DO JORNALISMO BRASILEIRO
por Carolina Rangel

Lead, copy desk, press release. Conceitos e criações do fazer jornalístico estadunidense incorporado ao brasileiro através de um processo de adaptação e naturalização. Esta intervenção, intensificada a partir da década de 50, foi responsável pela criação de manuais de redação, dos mitos de objetividade e imparcialidade, além da ampla utilização de agências internacionais de notícia. O jornalismo político-literário tornou-se empresarial.

“Vivíamos no tempo em que a imprensa carioca era uma das mais dinâmicas e originais, não só no Brasil, mas em toda a América Latina”, disse o jornalista Stefan Baciou sobre a imprensa da primeira década do século XX.

Naquele tempo, não havia uma ética formal nem cursos universitários de jornalismo. O profissional apreendia a técnica de reportagem no dia–a–dia da redação. A apuração dos fatos era feita no local e no exato momento em que aconteciam, na maioria das vezes, o que conferia ao repórter confiabilidade perante o leitor. Hoje, com as agências de notícia e os release, na maioria das vezes o jornalista escreve algo que não viu, apenas tecendo uma narrativa sobre a reprodução de textos enviados para a redação. A conseqüência se faz observar no cotidiano: os jornais publicam diariamente as mesmas notícias sob a mesma ótica, com o estabelecimento de uma certa cumplicidade.

A uniformidade que controla

Esta uniformidade é também garantida pelo surgimento dos manuais de redação, inaugurados no Brasil em 1950 pelo Diário Carioca. Estes moldam a atuação do profissional segundo a proposta da empresa. Podemos identificá-los como um poder disciplinar, referencial da sociedade moderna descrita por Michel Foucault como um mundo panóptico, ou seja, regido pelo constante exame, controle e vigilância.

“A penalidade perpétua que atravessa todos os pontos e controla todos os instantes das instituições disciplinares compara, diferencia, hierarquiza, homogeneíza e exclui, em uma palavra, ela normaliza”, diz Foucault na página 153 de seu livro “Vigiar e Punir”.

Destarte, os jornais eram expressões de luta política e ideologias e, portanto, essencialmente de opinião. Somente no Rio de Janeiro coexistiam 30, entre matutinos e vespertinos, com posições partidárias e governamentais diversas. Durante a Campanha “O Petróleo é nosso”, realizada entre 1947 e 1953, estes se dividiram em duas correntes. Um grupo apoiava o monopólio estatal (Diário de Notícias e O Radical). O outro, composto por O Jornal, O Globo e Jornal do Brasil, defendia a livre iniciativa no setor, com a participação de capital estrangeiro, e tinham como anunciante a Standard Oil, indústria multinacional de petróleo pertencente ao magnata John Rockefeller. O resultado é que, dos jornais de cunho nacionalista, nenhum vigorou até o presente. Todos acabaram por falir ou se unir aos grandes conglomerados. Os dependentes de financiamento “alienígena” estão, atualmente, entre os principais jornais cariocas.

Para estabelecer uma comparação entre as mudanças da linha editorial dos jornais e seus anunciantes, foram analisados os Anuários de Publicidade. O de 1953-1954 cita como principal anunciante a Companhia Antártica Paulista. Já no de 1959–1960 verifica-se uma mudança substancial; as maiores patrocinadoras são a Lever, Nestlé e Gessy. Numa lista de 10 nomes, não aparece nenhuma indústria nacional.

É natural, portanto, que, para atender a toda esta demanda publicitária, as empresas comunicacionais adotem o modelo dominante. Deste modo, chegamos ao nosso jornalismo atual, representado por uma Grande Mídia que, mascarada pelos ideais de imparcialidade e objetividade, colabora para a alienação do povo brasileiro. E quem, hoje, assumiria sua subjetividade publicamente como Nelson Rodrigues? “Falo muito no idiota da objetividade. Ele é justamente quem vive dos fatos, depende dos fatos, morreria afogado sem os fatos. E, se alguém me diz que os fatos não são bem assim como eu conto, respondo: pior para os fatos”.

Matéria de capa da edição # 9 do FM impresso

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