Continuação
FERNANDO SIQUEIRA - Diretor da AEPET (Associação dos Engenheiros da Petrobrás)

FM - Em que ano ocorreu essa ordem do governo?
Foi mais ou menos no início da década de 80.

FM - E por que isso?
Em primeiro lugar, as chamadas "Sete irmãs" têm um poderio muito grande e não querem concorrentes para o seu negócio.

Então, elas não têm nenhum interesse que o Brasil ou qualquer outro país desenvolva energia alternativa, principalmente biomassa (através da plantação de vegetais produtores de energia). Mas, a par disso, o Brasil é o país mais bem aquinhoado em energia solar. Com relação à energia eólica, o Brasil teria um potencial de mais ou menos 142 GW de energia aproveitável, que equivale a 10 usinas de Itaipu. E isso com a tecnologia incipiente que nós contamos. O fato é que nós temos um potencial enorme de desenvolvimento de energia e eu estou batalhando muito junto à direção da Petrobrás para isso.

E energia alternativa é aparentemente cara porque não se investe nada para melhorá-la. Você investe 10 bilhões pra desenvolver petróleo e zero bilhões para o desenvolvimento de energia alternativa, para melhorar a qualidade dos equipamentos, etc.

Então se você investir 10% do que se investe em petróleo em energia alternativa, em 10 anos ela vai estar baratíssima e muito mais rentável. Então, a energia alternativa é, estrategicamente, uma das coisas mais importantes para o país.

E o preocupante é que a Monsanto, uma das maiores empresas do mundo no ramo dos transgênicos, está firmemente determinada a ganhar o mercado de energia no Brasil e em todo o Terceiro Mundo. Essa questão de ela plantar a soja transgênica e criar uma discussão alimentar é um pano de fundo, que é ter a soja como geradora de energia e biogás e sobre o controle dela. Nós, inclusive, temos sugerido que se juntem a Petrobrás e a Eletrobrás e se crie uma empresa de energia ampla, de caráter nacional e estatal.

FM - Assim como hoje, na época da fundação da Petrobrás havia forças contrárias a ela, só que naquela ápoca havia um governo determinado a levar a Petrobrás à frente. Hoje em dia, o governo do PT tem se preocupado em desenvolver a tecnologia do país$$ O José Eduardo Dutra (presidente da Petrobrás), a Dilma Roussef (Ministra de Minas e Energia) estão preocupados?
Eu não vejo muito isso não, infelizmente, eu esperava que fosse mais. Por exemplo, a Petrobrás descobriu uma série de áreas possivelmente produtoras de petróleo e essas áreas estão sendo vendidas pela ANP a preços irrisórios e quem está comprando são empresas estrangeiras. Nós chegamos a conversar com a ministra tentando barrar a quinta licitação e não conseguimos. Ela disse que ia tentar barrar, mas não conseguiu. Mas nós pensávamos que ela fosse fazer alguma coisa contra a sexta licitação. E ela foi pro jornal dizer que tinha que fazer a sexta, a sétima, a oitava e colocar à venda áreas cada vez mais nobres para incentivar a vinda de empresas estrangeiras para cá. Foi uma mudança de postura, em menos de um ano, bastante preocupante.

FM - E como tem sido a relação da mídia brasileira com a Petrobrás?
A mídia brasileira é fundamentalmente financiada pelos anunciantes, que são predominantemente multinacionais. Quase 100% da principal mídia brasileira é sustentado por anúncios de multinacionais. Então, esses órgãos de comunicação fazem um trabalho de catequização do povo brasileiro a favor dessas empresas. Nós tivemos, principalmente de 1993 a 1995, quando se quebrou o monopólio do petróleo, uma campanha maciça na grande mídia contra a Petrobrás, contra as estatais. Chamaram os funcionários de marajás, enfim, criaram um rótulo pejorativo para jogar a opinião pública contra as estatais e a favor das privatizações. Então, em 1995, a Veja fez uma matéria de dez páginas batendo firmemente na Petrobrás. E nessas dez páginas ela entrevistou diretores, entrevistou a mim como atual presidente (da AEPET) na época para uma suposta matéria a favor da Petrobrás. E saíram dez páginas de cacete na Petrobrás com mentiras deslavadas. Para quem tinha o mínimo conhecimento da área, ficava flagrante que era tendenciosa.

A gente chama a Veja de primeira revista americana escrita em português.

Então, ela fez essa reportagem mentirosa e nós fizemos uma constetação, um direito de resposta. E a Petrobrás também fez dez páginas contestando ponto por ponto, mandamos para lá e ela não publicou. Aí a Petrobrás transformou aquela réplica em propaganda, reduzindo para quatro páginas e nem assim a Veja publicou, dizendo que não poderia se desmoralizar perante seu público. Então restou pra gente entrar na justiça e está até hoje lá o processo.

Aí tivemos o Estado de São Paulo. Um técnico americano, que escreveu um livro de mil páginas sobre petróleo esteve aqui no Rio e deu algumas entrevistas. E então saiu uma reportagem de um jornalista do Estadão, o José Casado, dizendo que ele tinha afirmado uma série de coisas, entre outras que enquanto o mundo produz 60 barris por empregado a Petrobrás produzia apenas 30, tentando mostrar que a Petrobrás era ineficiente. Era um argumento paupérrimo, que jamais um especialista em petróleo falaria. Então, nós mandamos essa reportagem pra ele, que fez uma carta para o jornal, dizendo que se não desmentissem, se não tirassem o nome dele da reportagem, ele processaria o Estadão. Mas o jornal não publicou essa carta. Nós recebemos porque nós entramos em contato com ele.

E teve muitos outros casos. Teve o Paulo Francis, por exemplo, que, embora no passado tivesse sido um nacionalista, de repente começou a ganhar 20 mil dólares por mês, trabalhando nos Estados Unidos naquele programa "Manhattan Connection". Ele fez uma série de reportagens no "Globo" atacando o pessoal da Petrobrás e nós entramos com uma ação na justiça contra isso após a terceira reportagem e o juiz ficou na dúvida se dava ganho de causa pra gente ou não. Foi quando surgiu a quarta reportagem, dizendo que a população brasileira devia comprar metralhadoras Uzi e sair metralhando todos os empregados da Petrobrás. Aí o juiz diante daquela quarta evidência deu o ganho de causa pra gente na primeira instância. Aí foi pra segunda instância e o Roberto Marinho jogou todo o peso do "Globo" em cima e arrumaram uma licença pro juíz e a substituta disse que nós não éramos a pessoa certa para reivindicar aquilo. Então, o Paulo Francis se sentiu impune e disse no Manhattan Connection que os diretores da Petrobrás eram todos ladrões e aí o presidente da Petrobrás entrou com um processo contra ele nos EUA. Como a justiça americana é um pouco mais séria que a nossa, ele teve que pagar uma indenização vultuosa.

Mas o fato é que houve uma orquestração na imprensa contra as estatais para jogar a opinião pública contra elas e aí você fica na estranha e absurda situação de que os estrangeiros só vem pra cá pra fazer o bem e que nós aqui somos incompetentes. Aí você vê os casos da Enron, a WorldCom e agora a Parmalat.

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