
FERNANDO SIQUEIRA - Diretor da AEPET (Associação dos Engenheiros da Petrobrás)
Fazendo Media - Como foi a cobertura da mídia na época da campanha “O Petróleo é nosso”?
Na época havia uma corrente que queria que o petróleo fosse nacional, mas de empresas privadas. O projeto inicial era esse, mas depois derivou pra ser uma empresa estatal. Mas a Lei do Petróleo tem uma série de salvaguardas impedindo que o petróleo seja usado como garantia de dívida, etc, sabendo a pressão que teria.
Um mês depois que a lei tinha sido promulgada e a Petrobrás criada, Assis Chateaubriand, como senador, apresentou um projeto para derrubá-la. Então de lá pra cá foi o tempo todo essa tentativa.
Em 88, nós fizemos uma campanha muito boa lá. Na época, o presidente (da Petrobrás) era o Antônio Marciel, que hoje é presidente da Ford, e tivemos um apoio muito grande do Barbosa Lima Sobrinho, que abraçou essa campanha e nós conseguimos alçar o petróleo ao nível constitucional.
FM - A Petrobrás acabou de fazer 50 anos e tem uma história muito legal envolvendo a empresa, que mostra a superação do brasileiro que foi a descoberta do poço Lobato, na Bahia, quando diziam que não havia petróleo no Brasil e cimentaram o poço. Queria saber de quem partiu isso, tem algum nome específico?
O Oscar Cordeiro foi o principal mentor da produção. Ele batalhava pela existência do petróleo, ele investiu recursos próprios na questão, mas ele defendia o petróleo como privado. O próprio Monteiro Lobato defendia o petróleo para empresas privadas. mas os empresários privados esqueciam do fundamental: a produção de petróleo exige muito capital e a solução de ser uma empresa do governo, de economia mista, onde você consegue alavancar mais recursos, eu acho que foi fundamental, porque o empresário privado, na primeira dificuldade que tem, passa a firma para outro. E normalmente quem está de olho é o cartel internacional.
FM - E eles estão comprometidos com o lucro e não com o desenvolvimento do país, que é uma das causas principais da Petrobrás...
Exatamente.
FM - O Brasil está chegando perto de conseguir a auto-suficiência de petróleo?
Sim, está com 90% da produção em relação ao consumo. Particularmente eu não acho isso bom, vai ser um problema para nós. Estrategicamente, como o petróleo hoje está num preço relativamente baixo internacionalmente, o ideal seria a gente guardar essas reservas para um futuro não muito distante - em termos de 10 anos - quando os preços internacionais vão disparar. Estudiosos na questão do petróleo dizem que daqui a uns 10 anos a curva de produção vai passar por um pico e vai começar a cair e aí os preços vão disparar, podendo, inclusive, dobrar.
Existe uma suspeita de que a reserva mundial de petróleo esteja em torno de um trilhão de barris. Ocorre que no final da década de 80 essas reservas foram infladas de forma suspeita, por dois motivos: o país que tem petróleo tem crédito, tendo mais possibilidade de alavancar recursos a taxas de juros mais baixas. O segundo é que os membros da OPEP tinham direito a exportar petróleo numa quantidade proporcional a sua reserva. Como ninguém auditava essas reservas, todo mundo declarou as reservas que quis. Dentro de um horizonte de 1 trilhão de barris de reserva mundial, você teria a duração do petróleo pra 43 anos. Mas se esse valor não for real, aí o petróleo pode acabar bem antes.
FM - A Petrobrás já investe em modelos alternativos de energia, em termos de pesquisa?
A Petrobrás já teve uma divisão dentro do departamento industrial que pesquisava fontes alternativas de energia, mas foi obrigada pelo governo a fechar essa divisão e parou com a pesquisa. E durante um tempo, apesar de nossa campanha nesse sentido, isso não foi à frente.
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