
MÁRIO AUGUSTO JAKOBSKIND
Fazendo Media - O que te levou a escrever o livro Dossiê Tim Lopes – Fantástico/Ibope?
Quem acompanhou o caso Tim Lopes pôde verificar perfeitamente como funciona o mecanismo do pensamento único. Vendeu-se uma verdade oficial, a do empregador do jornalista assassinado, que ficou sendo a absoluta. A mídia de um modo geral, com raras e honrosas exceções, aceitou passivamente essa “verdade”. Depois de pesquisar, checar informações e entrevistar pessoas que estavam a par dos acontecimentos achei que deveria divulgar esse material custasse o que custasse.
Não daria em um espaço de jornal ou revista. Nasceu este Dossiê, que poderia ter sido feito há mais tempo, se, por exemplo, um sindicato da categoria dos jornalistas entrasse no circuito. Não houve interesse político nesse sentido, porque tanto o sindicato do Rio como a da Federação Nacional dos Jornalistas preferiram ficar com a “verdade global”. Em suma: se omitisse o que apurei não estaria em paz com a minha consciência. O leitor agora, creio, conhecendo algumas verdades que não foram divulgadas, terá melhores condições de formar um juízo sobre o caso Tim Lopes.
FM - Seu livro traz alguma novidade em relação ao assassinato do jornalista Tim Lopes? Pergunto porque a versão consensual foi a de que Tim, um apaixonado pelo jornalismo investigativo teria ido fazer uma reportagem sobre um baile Funk. Essa versão procede?
Veja bem. Nunca houve dúvidas sobre os autores do assassinato propriamente dito. O que não foi divulgado pela mídia, por exemplo, é que Tim Lopes não pautou o tal baile Funk. O repórter estava de férias e foi obrigado a cumprir uma pauta perigosa e que não deveria ser entregue a ele, que já se tornara uma figura pública depois de aparecer em vários noticiários da Vênus Platinada (nome pela qual a Globo também é conhecida).
A Globo usou o argumento segundo a qual ele teria ido filmar o baile. O livro questiona esta verdade oficial. Mostra também que as versões apresentadas pela Rede Globo não resistem a menor análise.
Há muitas contradições nos depoimentos do pessoal da Globo. A existência do próprio baile é colocado em questão pelo inspetor Daniel Gomes, o técnico (policial) autor do relatório sobre o caso, aceito pelo Ministério Público, mas que desagradou à direção da emissora. O livro mostra tudo isso e muito mais contradições que deveriam levar as autoridades a analisar o caso com mais profundidade. Acho que se houver interesse isto é ainda possível de ser feito.
FM - A grande mídia deu espaço para divulgação deste livro? Por quê?
Até agora, salvo a divulgação da data do lançamento propriamente dito em colunas de poucos jornais, o silêncio tem sido absoluto. Mesmo estando o livro colocado nas vitrines de algumas importantes livrarias do Rio, junto com autores famosos, possivelmente pelo interesse do tema, os segundos cadernos da grande imprensa carioca ainda não deram o ar de sua graça. Não falam nem bem, nem mal, ou mesmo muito pelo contrário... Qual o motivo? Melhor seria perguntar aos editores dos cadernos culturais. Ou será que polêmicas desta natureza incomodam?
FM - Parece que o monopólio dos meios de comunicação está atrapalhando até mesmo a distribuição do livro. Pode falar sobre isso?
Uma das grandes distribuidoras de livros achou por bem que só poderia confirmar se distribuiria ou não o Dossiê depois de uma leitura da extensa reportagem. Parece no mínimo meio estranho esse procedimento. Acho que isso é censura. Prefiro não divulgar o nome da distribuidora, pelo menos por enquanto, para evitar eventuais boicotes até mesmo em livrarias, o que, diga-se de passagem, não está acontecendo.
Será que o poder midiático contrariado tem força a ponto de levar ao boicote uma reportagem na pura acepção da palavra, ou seja, um gênero de jornalismo que não pode aceitar apenas versões oficiais que isentam de responsabilidade quem as tem?
FM - A jornalista Cristina Guimarães, ex-repórter da TV Globo foi ameaçada de morte pelo tráfico de drogas. Na entrevista concedida a você ela chega a dizer que tem mais medo da TV Globo que do tráfico. Você acha que ela tem motivos para isso? Quais seriam?
O tráfico, ou seja, o esquema da bandidagem é explícito. Diz que vai fazer e acontecer. Você toma as providências necessárias para se proteger. No caso, a repórter decidiu “cair na clandestinidade” para preservar a vida. Se não fizesse isso possivelmente teria o mesmo destino de Tim. A TV Globo no caso da Cristina fez o possível e o impossível para desqualificá-la, decretando a sua morte profissional. Como já foi dito, até as representações sindicais dos jornalistas(o sindicato carioca e a Fenaj) aceitaram a versão oficial, praticamente deixando uma profissional de imprensa sozinha e desprotegida. Cristina está até hoje fora do mercado, passando necessidades e ainda sem condições de retornar. Então você não acha que isso não é motivo para ter medo? Como enfrentar essa situação? Acho que o tema deve ser debatido a exaustão pelos profissionais de imprensa que estão no mercado ou pelos estudantes que pretendem ingressar nele. Tudo isso remete à questão do pensamento único e à corrida desenfreada em busca da audiência. Será que um país pode ficar ao sabor de um gigante da mídia que decreta as suas verdades e está acabado? Será justo aceitar “verdades” que interessam apenas a um determinado setor?

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