CRISTIANA MESQUISA - Chefe de produção da Associated Press

Mais de 20 anos cobrindo guerra. No currículo, Sarajevo, Nicarágua, El Salvador, Kosovo, Bósnia, Afeganistão e Iraque. Conversamos com Cristiana Mesquita, chefe de produção da agência de notícias Associated Press Television News na América Latina.

Victor Ribeiro - Por que cobrir guerra?
Por que não cobrir, deveria ser a resposta. É um evento jornalístico importante e não é para qualquer pessoa, porque envolve interesses, tem um preparo, mas que certamente todo o jornalista deve ter, pelo menos, curiosidade de cobrir. É notícia. É primeira página. É da maior importância que exista esta cobertura para as pessoas saberem o que está acontecendo.

Kellen Julio - Qual a sua opinião sobre a dificuldade na operação da notícia quando existe uma situação como a do Marcos Uchôa [correspondente da "TV Globo"], que cobriu a guerra do Iraque estando no Kuait?
Eu sei que foi muito frustrante, porque, por acaso, eu estava com o Uchôa na mesma época, no Kuait. Ele sozinho, com um cinegrafista no Kuait, ficou completamente à mercê das informações que recebia de segunda mão, ou seja: o que ele via na CNN ou recebia através das agências [de notícias].

Não vejo muito mérito em você cobrir a guerra no Iraque e ficar três ou quatro dias para passar no "Jornal Nacional". Ou você vai para fazer um grande especial, ou você mantém regularmente um sistema em que você esteja regularmente lá.

Um lugar como o Iraque tem notícia todo dia. Se você quer fazer uma cobertura internacional séria, você não pode deixar de ter uma pessoa regularmente no Iraque. De um tempo para cá a televisão brasileira deixou de fazer cobertura internacional. As televisões têm contratos com as agências, recebem todas as imagens e aquelas que têm correspondente, saem e fazem uma passagem [trecho da matéria de TV em que o repórter aparece] por lá. Outro dia, assistindo ao "Jornal Nacional", eu vi três matérias internacionais importantes, cobertas assim: a Patrícia Poeta falando sobre o Iraque, de Nova Iorque; o Luiz Fernando Silva Pinto, também sobre o Iraque, de Washington; depois vem o [Luiz Carlos] Azenha, também de Nova Iorque. Eu acho isso um recurso muito pobre. Não vejo razão para isso, porque quando você aparece é como se estivesse assinando a matéria. É como pegar o "Jornal do Brasil" ou "O Globo", que publicam matérias da Reuters e da AP e, ao invés de colocar o nome da agência em cima, como eles fazem, um jornalista qualquer assumisse o crédito. Para cobrir uma guerra, você precisa ter uma estrutura que as televisões brasileiras nunca se prepararam para ter. Você tem todo um equipamento próprio, treinamentos especiais. Não sei qual é o esquema deles [os repórteres brasileiros], mas alguns editores argumentam que não há interesse em notícia internacional. Eu acho isso meio bobo. Não há interesse porque é malfeito. Se fosse bem feito, as pessoas se interessariam.

Victor - Não cobrem nem a Venezuela.
A América Latina, então, nem se fala... É uma vergonha total que a gente cubra tão mal a América Latina. Mesmo porque é a minha área, a minha paixão, apesar de eu viajar o mundo inteiro. Eu tenho que sair e comprar o "El País" [jornal espanhol], o "Clarín" [jornal argentino], se eu quiser saber o que está acontecendo na Venezuela ou na Bolívia, que está prestes a explodir de novo, porque aqui não tem nada. Na televisão, então, nem se fala.

Victor - Seria falta de interesse de quem?

continua >>


Veja a capa ampliada

Clique aqui para assinar gratuitamente o nosso jornal impresso


Este site é melhor visualizado na resolução de 800 x 600 pixels.
© 2004 Fazendo Media - por Kzal Design