
Continuação
FRITZ UTZERI
Hoje eu estava vendo o imbecil do Palocci na televisão dizendo: "Temos mesmo que fazer isso, rigor fiscal, baixo investimento...". Tudo bem, rigor fiscal eu não tenho nada contra, mas baixo investimento? E guardar dinheiro para pagar rigorosamente os agiotas internacionais; uma dívida que a gente já pagou várias vezes? E historicamente ninguém nunca pagou essas dívidas. A Alemanha não pagou a dívida da reparação na Segunda Guerra Mundial e veja a merda que a Alemanha fez. Nós não fizemos merda alguma internacional e hoje nos tornamos exportadores de divisas. Estamos exportando sangue, aquilo que seria necessário para que o país crescesse. O resultado: o país tem crescido que nem rabo de cavalo, pra baixo.
Marcelo - Os meios de comunicação de massa não vêem que um dia esse mercado interno nosso vai explodir, esse desemprego vai explodir?
Uma das características do capitalismo é que amanhã estaremos todos mortos. É só você pensar um pouco para ver que esse negócio não tem saída . Vai-se empurrando com a barriga até o dia em que realmente vai acontecer alguma coisa qualquer.
Precisamos hoje ganhar eficiência, e ganhar eficiência significa o quê? Se vocês quatro fazem esse jornal aqui e eu pago R$100 a cada um, mais o custo do jornal, mais uma série de outras coisas, para aumentar meu lucro eu tenho que botar dois de vocês na rua, continuar pagando os R$ 100 para os outros dois que vão trabalhar o dobro e continuar fazendo o mesmo volume de material. Obviamente a qualidade vai piorar. É o que está acontecendo com o JB. E a minha margem de lucro aumenta. Mas eu estou cortando 50% dos consumidores porque eu estou botando as pessoas na rua, o índice de desemprego aumenta e essas pessoas estão excluídas da sociedade. E até que limite você vai levar isso? É a proposta que o JB me faz: trabalhar a mesma coisa para ganhar 25% do que eu ganhava. Eles têm a coragem de fazer uma proposta dessas.
Marcelo - Quem está tendo mais apoio da mídia, o FH ou o Lula?
Acho que o FH era mais bem tratado, se segurava mais que o Lula. O Lula é o rei das metáforas, aquelas besteiras. Mas ele teve muita oportunidade, o problema é que Lula e livro... Infelizmente eu tenho que confessar que eu estava errado quando antes da eleição eu dizia que ele estava preparado para governar. O exemplo desse jornalista americano é flagrante. Ele transformou uma besteira num caso de Estado. De irresponsável a matéria só tinha um dado: o de que o país estava preocupado com isso. Quanto à questão de o Lula beber, ele bebe pra cacete, enche os cornos. E não tem a inteligência do Jânio Quadros, que era outro presidente bêbado que a gente tinha. Quando era governador de São Paulo, Jânio foi perguntado por uma repórter: "Governador, o senhor não está preocupado, dizem por aí que o senhor é alcoólatra?" Ele disse: "Não, minha filha, estão enganados, eu não sou alcoólatra, eu sou bêbado". O FH jamais passou recibo e, na época, eu era diretor de redação do JB e fui entrevistar o FH e disse a ele na lata: "O senhor não gosta de trabalhar, custa a decidir e quem manda no governo é ACM". Ele respondeu tranqüilo, porque político é isso, tem que estar disposto a ouvir certas coisas.
Júlio - Mas assusta o fato de ele ter tentado expulsar esse jornalista do país, além de ter sido divulgado os hábitos desse jornalista aqui no Rio, dizendo que ele ia para a praia, que também bebia...
Esse jornalista não é uma pessoa pública, ele não está governando o Brasil. O escritório dele é em Ipanema; eu adoraria ser correspondente estrangeiro no Brasil. O escritório dele era pra ser em São Paulo ou em Brasília. Mas, mesmo assim, dizer que o cara vai à praia e bebe cerveja no Rio... Ele seria idiota se não fizesse isso. Essa de expulsar o correspondente do Brasil deve ter sido tomada depois de uma noite de porre, quando ele mesmo disse que acordou invocado.
Júlio - Hoje em dia, qual é o perfil do jornalista que consegue sobreviver nessas condições, com esse jornalismo que é feito hoje?
Ainda tem gente boa no jornalismo. Você pega a Folha e vê que tem bons profissionais. Mesmo no JB ainda tem bons profissionais, mas está cada vez mais difícil você permanecer vivo se você for independente, se você for crítico.
Marcelo - Você diria que o (Nelson) Tanure, depois que comprou o JB, conseguiu piorar o jornal?
Eu diria que não piorou muito mais do que já estava no sentido econômico porque é um desastre, mas eu acho que é um outro tipo de jornal, um outro conceito que não foi nem o Tanure quem criou, porque o Tanure não entende muito de jornal. Já era uma coisa que me foi proposta quando eu era diretor de redação do jornal e eu não aceitei. Era fazer um jornal com o mínimo de pessoas, comprando material de agências, chupando matéria da Internet.
Marcelo - Você acha que o Jornal do Brasil ainda tem jeito?
Eu acho que não, quer dizer, pode se arrastar por aí, etc. Mas como jornal não. Não é mais o Jornal do Brasil, é outra coisa.

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