Continuação
RICARDO BOECHAT - Diretor de jornalismo da Band-Rio

Claro que se desenvolve com o tempo uma relação de confiança na fonte, tanto da fonte com o jornalista. Talvez a mais emblemática cobertura política do mundo ocidental tenha acontecido no caso Watergate, no qual o Washington Post produziu uma cobertura que culminou com a renúncia do presidente [Richard] Nixon. O Garganta Profunda, cuja identidade jamais foi revelada, só falava com os repórteres porque eles desenvolveram com essa figura uma relação de confiança.

Algumas fontes, que são pouquíssimas, podem me telefonar e dizer que o Lula vai demitir o ministro da Saúde amanhã. E eu publicarei sem checar. Posso me ferrar? Claro que posso me ferrar.

E como é que a fonte pode te usar? Vamos ver o seguinte: vira pra mim um banqueiro X e dá uma notícia que o seu concorrente cometeu tal erro ou fez tal cagada. Um banco sendo multado pelo BC porque fez mau uso do balanço. Ora, quem está te passando isso é um adversário desse personagem que fica mal na notícia. Sabe o que eu faço? Eu publico. Eu verifico, evidentemente, e publico. Porque eu tô cagando pra notícia representar a defesa de determinado interesse. Todas representam.

Breno - Mas há interesses e interesses...
Aí você quer fazer uma análise. Eu não sou analista. Então vamos lá. Qual o interesse mais espúrio que você pode imaginar? Alguém querer ganhar dinheiro?

Breno - As grandes corporações...
Ah, f...-se! Cita um exemplo, formule um interesse peçonhento, bem peçonhento.

Breno - O Carlos Costa, ex-chefe do FBI no Brasil, denunciou a entrada de dinheiro de órgãos de inteligência dos EUA na Polícia Federal brasileira. Por que isso não repercutiu?
Não, peraí. Primeiro você construiu uma idéia: há interesses e interesses. Vamos recapitular... Toda notícia defende um interesse. A Associação das Velhinhas Virgens do Bairro de Piedade quando divulga alguma coisa das suas feirinhas de caridade, está defendendo o seu interesse. Interesse ideológico, político, material, sei lá o quê. Interesse é interesse! Do ponto de vista do jornalista, o único problema é que a notícia das velhinhas virgens reflita um fato. Mas como você disse que há interesses e interesses, eu estou pedindo que você formule um interesse que pareça muito, muito espúrio.

Breno - Vou citar um exemplo mais próximo. A Camargo Corrêa, que controla a Ponte Rio-Niterói, foi acusada pelo Ministério Público de ter participado de um desvio de 10 milhões de dólares. Nesse caso, se um adversário da Camargo Corrêa liga pra você e diz que há suspeita de desvio, você vai publicar?
Claro, se eu conseguir confirmar que esse fato existe. Até a Odebrecht...

Breno - Mesmo que a Camargo Corrêa ou a Odebrecht seja anunciante do jornal?
Caguei por ela ser anunciante ou não. Não sei nem quem anuncia no jornal, não leio anúncio. Eu mal leio o jornal.

Breno - Como é que funciona? Você redige a coluna e acabou? Não tem nenhuma influência da direção do jornal, veto...
Não... Que veto... Eu vou trabalhar com veto, pô?!

Breno - Agora o Jornal da Band. Como é o critério de seleção de notícia?
Na televisão, meu foco é nas notícias de interesse mais geral. Então, por exemplo, há um determinado tipo de notícia que é perfeitamente aproveitável na coluna impressa do JB, mas não tem nenhum interesse para o telejornal da Band. A notícia na televisão precisa ser uma notícia que interesse a muita gente. Quer pela forma como será apresentada, quer pelo fato que está revelando. Se eu entrar no ar fantasiado de jequitibá pra dar uma notícia banal sobre desmatamento, o fato de eu estar fantasiado vai chamar a atenção e despertar o interesse da audiência em torno do que você está falando. Se você não tem uma notícia que tem esse alcance, mas de uma taxa qualquer de interesse abaixo da qual não vale a pena levar para a TV, você pode dar na coluna.

Breno - Voltando ao caso do Carlos Costa, especificamente, envolvendo a Polícia Federal, que foi denunciado no meio impresso pela CartaCapital, mas que, dentro desse critério que você falou de relevância, por si só já seria relevante. Por que a Globo, a maior emissora do país, não deu?
Eu não sei... Você poderia perguntar à Globo, senão vira especulação da minha parte. Mas pode ser porque a Globo tenha um volume de notícias exclusivas todo dia, porque o Estado brasileiro trabalha muito em função dela. Os agentes do Estado envolvidos em investigações, em decisões de maior impacto jornalístico, ficam muito excitados com a possibilidade de estabelecer relações de intimidade com um veículo daquela visibilidade.

A possibilidade de eu conseguir aqui que um promotor me antecipe um relatório e a Globo conseguir é muito mais favorável à Globo, porque ela dá a esse promotor um retorno de audiência que eu não posso dar.

Então, os agentes do Estado entregam para a Globo quantidades e quantidades de produtos jornalísticos de excelente qualidade, aos quais os outros veículos não têm acesso. Eu lido com isso aqui dezenas de vezes por mês. Coisas que a polícia do Rio arma para a Globo cobrir e ninguém mais. Ela tem tantas notícias impactantes que ela pode prescindir de uma que ela não tenha sido a pioneira a dar. Essa é uma hipótese, meu filho. Se você tem outras e elas são conspiratórias, publique um livro.

Breno - E quanto ao Pró-mídia? Qual sua opinião?
Isso é escandaloso. Escandaloso. Acho que nem vai sair de tão escandaloso que é. Não tenho nada contra o financiamento de empresas privadas pelo BNDES. Acho que é válido você dar crédito para empresas nacionais, da área que forem. Agora, a Globo quebrou sozinha. E agora vem pedir dinheiro para cobrir o buraco? É um absurdo!

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