BOB FERNANDES

Bob Fernandes tem 48 anos de idade e 25 de profissão. Já passou pela Rádio Jornal do Brasil, Veja, IstoÉ e Folha de S. Paulo. Se valeu a pena abdicar dos jornalões e revistões para fundar a CartaCapital? “Tenho um grau de liberdade muito maior”.

Ao longo da entrevista, que foi dividida em três partes, os principais temas abordados foram a questão do lide, a influência do poder nas redações, a relevância jornalística (esta, segundo Bob, virou "cascata"), o caso Carlos Costa, o Pró-mídia e o governo Chávez.

A primeira parte pode ser lida em nossa versão impressa (cuja assinatura é gratuita), edição número 14. As outras duas partes seguem abaixo.

2ª parte:

Eu paguei a conta pra escolher o caminho e ajudar a inventar uma revista que permita a gente fazer do jeito que a gente acha que tem que fazer.

Marcelo - E qual foi essa conta?
A conta? Eu não tenho uma vida ruim, eu não ganho mal. Porque eu, há muito tempo, como sócio também, tenho bons postos... Mas foi uma aposta extremamente arriscada, eu podia estar lá como podia ter ficado na Folha de S. Paulo onde estava como repórter especial. Eu podia ter ido para um grande jornalão, uma revista, etc. Isso era uma invenção do nada, isso era o nada e até hoje a gente todo mês tá ali. É muito mais fácil, às vezes, você estar no mainstream, no miolão. É sua conta. Você tá na revista que tem um milhão de leitores, na editora Globo. Agora, qual é a conta? O grau de liberdade, o grau de autonomia é absolutamente inferior. Qual é o grau de autonomia aqui? O repórter discute a pauta, tem que ter precisão e tal, mas escreve o que der na telha. Mas tem que ter bala na agulha pra escrever o que der na telha. Tem que estar bom. Se não estiver bom... O Mino tem 50 anos de profissão e eu tenho 25, então tem que... se estiver bom, vai. É isso. O que um jornalista pode querer mais? Ganhar um salário decente e escrever... Agora, se estão lendo 800 mil, aí é questão de optar, ou você quer ser ator ou atriz ou você quer ser jornalista.

Breno - Como é a relação dos outros veículos com você, com a CartaCapital?
Olha, eu pessoalmente me dou bem com um monte de gente. Também, ao mesmo tempo, ao longo de 10 anos, tem gente... outro dia um cara não me cumprimentou no Congresso. É um bunda-mole. Porque ele tomou pau do Mino Carta que citou ele num editorial. Só que o Mino é genovês e eu sou baiano, cara. Entendeu? Primeiro que ele me confunde com a instituição... E além do mais é frouxo. Porque, se eu tomo o pau de alguém eu respondo e assino embaixo, eu não deixo de falar, viro a cara... E não fui eu. Então uma bobagem, tem esse ônus. Tem gente que, ou porque a corporação apanha... Agora, tem sim, é verdade, uma certa ciumeira. Tem, cara. Tem, porque a gente tem um grau de autonomia tal, um grau de liberdade tal, um grau de crítica, inclusive aos demais, e tal. Que isso cria... Porque tem um monte de gente que infelizmente pensa que é patrão, cara. Não lembra que é jornalista, que é repórter, então se coloca no lugar do dono e se retrai. E tem gente que se coloca, até por falta de percepção do papel de cada um, de senso crítico, de autocrítica, então tem gente que mistura... Agora, meus amigos são meus amigos, meus colegas são meus colegas. Eu me dou bem com quase todo mundo. Mas tem gente que evidentemente não gosta de mim, e não é por causa de minha pessoa física, não gosta por conta disso. Porque você dá porrada.

Marcelo - Como você falou aí que a mídia parece que se prende a seus furos...
Cada jornal, cada revista, trata de seus furos como se fosse propriedade privada. Nessa edição aqui (número 288), na entrevista com os delegados, nós nos referimos à matéria da semana passada da revista Istoé. Mesmo que a IstoÉ não mencione a CartaCapital, que publicou 4 capas sobre o assunto, quando vai fazer uma matéria que nós antecipamos há 4 anos. Mas é uma obrigação nossa, dentro da CartaCapital, citar outras publicações que tenham abordado o mesmo assunto. Que é uma maneira de você dizer pros caras: “Cara, é assim”.

Marcelo - Chega a ser humilhante, né...
Mas esse chegar a ser humilhante, eventualmente, pode provocar...

Marcelo - Pode não, provoca...
Provoca um incômodo em relação a você, cara, pq você tá dizendo: “Não é desse jeito, é desse”. Agora, se é esse o tipo de desconforto que você pode ter numa relação humana por causa disso, esse preço eu pago tranqüilamente. Porque as pessoas que eu respeito e que me respeitam jamais vão deixar de me respeitar por causa disso. Agora, quem é bunda mole, quem é frouxo, vai pra outro lado. Isso é Darwin, é a seleção natural da espécie. Só queria lembrar o seguinte: o pessoal da IstoÉ, por exemplo, eu me dou muito bem com eles. Só acho que eles erram quando deixam de citar qualquer outro órgão.

Marcelo - Você não acha incoerente quando a maioria dos editores diz que só publicam o que há de mais relevante...
Isso virou cascata... Infelizmente virou cascata...

Marcelo - William Bonner nos disse que o Jornal Nacional só publica o que acontece de mais relevante...
Então, quando vocês estiverem com o William Bonner de novo, que é um cara que até acho que na eleição presidencial conduziu o debate com muito talento; quando vocês estiverem com ele de novo, perguntem o seguinte: Como é possível a Globo não ter dado – a TV Globo, porque a Globonews deu – uma linha sequer sobre a questão dos franceses no Brasil, sendo que foi capa do Le Monde durante 10 dias? Saiu em 130 países do mundo e o chanceler da França, pela primeira vez na história das relações externas entre Brasil e França, pediu desculpas por telefone e por escrito ao Estado brasileiro. Como é possível não achar isso importante sob o ponto de vista jornalístico? Eu não consigo sob nenhum parâmetro jornalístico entender isso. Como é possível que o cara que chefiou o FBI durante 4 anos no Brasil diga o que disse e eles não considerem importante? Eu tenho certeza que se a Época tivesse dito eles considerariam importante.

Marcelo - O Carlos Costa [ex-chefe do FBI no Brasil] falou que a embaixada dos EUA compra nossa imprensa...
Não é só isso. O Carlos denunciou fatos gravíssimos. Grampo, eu que falo, mas, grampo no Palácio. Como é possível que a Globo, não só ela, mas todos seus órgãos de comunicação não tenham entrado nesse assunto? Salvo, posso não estar lendo direito, o Veríssimo em sua coluna, a Tereza Cruvinel e a CBN. Como é possível que a televisão não entre? “Ah, tá falando assim porque a matéria é sua”. Não é, cara. Tá aí a prova, provada, agora, com os dois delegados, documentada. Então, como não se considera importante? Então, desculpe, você tem que perguntar a William Bonner isso: qual o critério que ele usa para definir o que é importante. Aliás, um amigo meu que trabalha no Jornal Nacional disse que o JN agora é o jornal do grampo.

Breno - Mas quando a Veja ou a IstoÉ publica uma matéria a Globo repercute. Será que é por causa de veículo mesmo?
Claro que é.

Breno - Não é por ter rabo preso?
Por que você acha que o caso Waldomiro repercutiu na Globo? Porque quem fez foi a Época.

Marcelo - Mas espera aí... Isso tá escrito na CartaCapital, na entrevista que eu li com o Carlos Costa. Ele diz lá que a embaixada dos EUA compra a imprensa brasileira.
Eles compram sim, rapaz. Mas isso é tática comum, absolutamente comum. Todas as redações ao longo dos anos, a vida inteira recebem convites do Departamento de Estado. Isso é uma tática eficiente...

Breno - Isso não gera rabo preso?
Aí que tá. Pra empresa não, mas se você pega 30 caras e manda pra lá (EUA). Se você ganhar 3 nessa parada, você já ganhou 3, cara. É isso que ele fala influenciar. Agora independente daqui ele fala claramente que tem gente que eles compram mesmo...

Breno - Da imprensa?
É.

Breno - E é gente do alto escalão?
Ah, não sei, cara. A compra não é uma coisa só pecuniária. A compra é o seguinte: você leva o cara pra lá, passeia de carro, viagem, o cara se encanta, estabelece uma relação...

Breno - Pois é, teve até o caso da Monsanto que pagou a viagem dos deputados.
Então, a compra é isso, cara. Não é necessariamente você usar dinheiro. Eu conheço jornalista que é apaixonado pelo Estado americano. E você tem uma paixão pelo Estado americano como?

Marcelo - O Sebastião Nery disse que a Miriam Leitão não tem contatos, mas contratos.
Aí eu não vou dizer porque não tenho informação. O que eu sei é que a Miriam é inacreditável, porque as posições que ela defendia levaram à queda das ações da GloboPar. Ela defendia a posição do Gustavo Franco. Então eu não entendo isso, quanto mais você erra, mais você é. Porque é óbvio que as posições que ela defendeu durante o governo passado em relação ao câmbio estavam equivocadas. Aquilo era insustentável. E as emissoras todas se endividaram em dólar e arrebentaram a cara e estão agora na porta do BNDES.

Breno - Outra coisa, essa questão do dólar, do endividamento em dólar por parte das empresas de mídia. No caso a Globo, que é a maior devedora, os juros altos são benéficos pra ela, porque o dólar não dispara. Como é essa relação aí...

Marcelo - Interfere na linha editorial da empresa?
Ahhhhhh, ninguém deve 1,7 bilhão de dólares e não joga o jogo. Isso não tem erro. Ninguém deve 1,7 bilhão e não joga o jogo. O destino ajuda que nesse momento não seja um governo do Collor, ainda que tenha gente que queira fazer parecer...

Breno - E no caso Waldomiro, não teve demonstração de poder de fogo?
Tem isso, e esse caso é gravíssimo. Mas a reverberação desse caso foi como foi porque é um caso de empresas das organizações Globo. Senão não teria toda a cobertura que teve, Jornal Nacional, de forma nenhuma.

Breno - Aí que tá. A Época divulgou a notícia do Waldomiro uma semana depois de terem pedido a falência da Globo em Nova York. O governo estava embromando em liberar o dinheiro do BNDES...
Mas o dinheiro nem saiu ainda. Nem saiu nem começou o processo ainda. Não é tão simples assim.

Breno - Em todo caso, botou lá, Waldomiro. E foi a grande porrada da Globo no governo... Atingiu o José Dirceu, que é do núcleo duro lá...
Mas o seguinte, você não briga com os fatos....

Breno - Mas você divulga! Você pode divulgar ou não divulgar.
Eu acho até que a Globo ali até ajudou, de certa forma. Acho que não tenha sido...

Breno - Aí que tá, ajudou agora quando divulgou a segunda fita (caso Santoro).
Mas aí não ajudou. Pegou a fita e meteu no ar. O que eu questiono aí é que, quando saiu a capa do Waldomiro, a capa da CartaCapital da zebra contava que o Santoro estava na jogada, contava tudo aquilo que depois de 2 meses eles levaram ao ar. Mas sem citar a antecipação da Carta. Porque virou jornalismo de compartimento, cada um jogando seu jogo. E quando tem interesse econômico grande, como a Globo, joga junto. É isso. Infelizmente é assim. Eles não têm liberdade suficiente para olhar o panorama todo. Cada um fala do seu.

Breno - Mas se o BNDES tivesse liberado o dinheiro e logo em seguida chegasse essa fita na Globo...
Eu acho que o governo está errando na questão do BNDES. As empresas de comunicação têm direito a financiamento como qualquer outra, desde que pague depois. O que eu acho que é o erro, é que tinha que ter no Congresso, como contrapartida, tirar da gaveta, a Lei de comunicação eletrônica de massa. Porque aí qualquer governo deixa de ser refém dos meios de comunicação. Aí o governo, qualquer que seja ele, não vai mais depender do Jornal Nacional, cara. E não é cortar nada de ninguém. É apenas dividir esse bolo. Não pode ter: Aloísio Alves dono da Globo, no RGN. Collor dono da Globo no Alagoas. Sarney dono da Globo no Maranhão. João Alves dono da Globo e do SBT no Sergipe. Tasso Jereissati, a mulher dona da Globo e ele da Bandeirantes. Isso tem capilaridades nos municípios onde cada chefe político é dono de uma emissora local de rádio... Isso é uma máquina de poder extraordinária que tem que ser contrabalançada de uma outra forma, porque tem gente que monta o grosso da opinião pública. O que nós fazemos, de uma outra forma, na guerrilha, vamos tentando... Nós que eu digo é um monte de gente, não é só a CartaCapital. Um monte de jornalistas em diversos lugares, vocês, o Mídia, Fazendo Media que é a média que a mídia faz, em todos os lugares, uma guerra de guerrilha. Você não precisa tirar nada de ninguém, mas você pode, ao abrir os cofres do BNDES, pensar em fortalecer empresas de comunicação popular, de rádio comunitária, média que faz a mídia. Não precisa tirar nada de ninguém porque isso é insustentável do ponto de vista político. O Chávez, por muito menos, tá lá com os caras no calcanhar dele.

Breno - Mas como faz pra sair da inércia?
Porrada.

Breno - Mas aí o governo começa a tirar isso do papel... os meios de comunicação vão lá e vão bater no governo...
Amigo, tem cinco anos que a gente tá falando da CIA e da DEA no Brasil. Só agora o trem tá andando, véio... 500 Fazendo Media no país, se tiver um Fazendo Media em cada estado a pressão sobre o governo aumenta pela democratização dos meios de comunicação. Isso é democracia, organização, pressão e barulho. Se os jornais se dispusessem a escrever durante uma semana, se alguém tem um ataque esquizofrênico na Globo e resolve dizer durante 3 dias que tem que ter um código de comunicação... Aí a coisa saía. Então é isso. A ausência está ligada ao excesso e vice-versa. É só você ver onde está faltando notícia que você vai ver o que tá faltando e porquê.

Marcelo - Você prefere revista ou jornal?
Revista. Até quando eu estava em jornal meu texto já era de revista. Se eu pegar minhas matérias, já é uma busca de... acho que meu temperamento, meu jeito, acho que sempre estive meio na contramão...

Breno: Pois é, aí que tá. O que há muito na imprensa brasileira, ou como um todo no mundo, é a auto-censura mesmo, né...
É o conformismo, cara. Nego joga o jogo da corporação pra se dar bem ali, vê onde tá chuva, onde tá sol e vai...

Breno: Nem tenta nada?
Nem tenta. Eu sempre tentei, às vezes quebrei a cara, e aí...

Marcelo: Isso começa na faculdade?
Isso continua na faculdade, vem antes. Isso é da criação, pai, mãe, escola, a casa, o jeito, estilo. A formação do jornalista é a formação do cidadão, quer dizer, às vezes você é muito tímido. O jornalista é a conseqüência do que você conhece também. Então, eu, desde moleque estava na contramão.

Breno: Esclarece uma coisa pra mim: a mídia brasileira, ela busca talento ou capacho?

continua >>


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