BEATRIZ BISSIO - editora da revista "Cadernos do Terceiro Mundo"

Fazendo Media - A idéia que temos dos conflitos na África é a que a mídia passa, de que esses conflitos são gerados por guerras civis entre tribos. Eu queria saber se é só isso, se a coisa toda se restringe a isso. O que você viu lá que a mídia não nos disse?
Olha, a mídia em geral trabalha, lamentavelmente, com simplificações e estereótipos. Uma simplificação que normalmente acontece na cobertura das agências a partir das quais se pautam tanto os jornais quanto a televisão. Fundamentalmente, é uma simplificação no sentido de descontextualizar.

O fato é apresentado como começado e terminado em si mesmo. Então você vê essa tribo que se enfrentou com essa outra. Seria o caso de se perguntar se é correto se falar em "tribo"? O que significa isso? Ou são culturas... porque "tribo" para nós já tem uma conotação pejorativa. No momento em que você descontextualiza o problema, você tira a capacidade do leitor ou do telespectador a possibilidade de entender a saída. E ai você então passa a achar que são culturas sem valores, primitivas, que a única coisa que sabem é ficar em guerra umas com as outras, não sabem nem bem por quê.

FM - E para você, como jornalista que já esteve lá, que conhece a região, quais são as raízes desses conflitos?
Há dois problemas sérios na África. Existem "n" derivações, mas a gente poderia colocar esses dois como âmago da maior parte dos problemas. Um é que os Estados que atualmente existem na África tiveram suas fronteiras definidas pelo colonialismo europeu.

FM - Na conferência de Berlim...
Na conferência de Berlim e em seus desdobramentos. Então são criações que desrespeitaram na sua origem as verdadeiras culturas e as limitações que historicamente existiam na África. Vieram os colonizadores, ignoraram, imaginaram eles que era uma terra de ninguém, criaram uma superposição com uma cultura trazida de fora, muitas vezes imposta. E disso aí saiu uma aberração, como não poderia deixar de ser, como é a maior parte dos países africanos hoje. Não têm unidade lingüística, não têm unidade cultural, não têm unidade religiosa e não têm o sentimento de pertencer a uma nação. E o segundo grande problema é a questão de, por ser um continente rico, existirem grandes interesses internacionais que estão interferindo diretamente na problemática local com aquele velho ditado de: "divide e vencerás, divide e reinarás". Então, muitos dos conflitos que acreditamos ter raízes internas na verdade não as têm. São fruto da cobiça internacional. É mais fácil explorar o petróleo, o diamante, o urânio, ou o que seja, dentro de um contexto de luta. Há um ditado de pescador que diz: "A río revuelto, ganância de pescador". Quando as águas estão turbulentas, quem ganha é o pescador. Ganha quem vai explorar. Com esses dois ingredientes, e mais a herança colonialista do subdesenvolvimento, você tem a explicação de grande parte dos conflitos que estão acontecendo na África.

FM - A gente vê muito pouco na grande midia a América Latina. A gente sabe muito de Nova lorque, de Milão, mas a gente não sabe nada da Bolívia, do Chile... O que acontece na midia? Isso é preconceito, é pelo patrocinio? Por que não temos informação do que somos?
É uma pergunta ótima e ao mesmo tempo complexa. Para a parte internacional, o jornal assina determinadas agências de noticias e com esse material de base, o jornalista arma a página. Então o que acontece? Essas agências ou são de origem européia ou são agências de origem estadunidense. Quem chefia essas agências e pauta essas agências são pessoas do primeiro mundo. Nesse contexto, mesmo as pessoas que tenham mais consciência de seu dever de cidadãos do mundo a respeito do que significa informar no mundo globalizado de hoje, vão priorizar sempre a informação do mundo desenvolvido, porque é o que eles melhor conhecem. Por outro lado, existem preconceitos muito grandes sim, em relação ao mundo subdesenvolvido. Para esse nível de regionalismo de grandes agências, a escolha do que seja uma noticia é uma escolha totalmente pautada pelos valores, pela noção que eles têm de sociedade. Qual é hoje o segmento que está absolutamente supervalorizado? É a Economia. E dentro da Economia, o que está super-super-super-valorizado? É a área financeira. Então passa a ser notícia somente aquilo que diz respeito a finanças.

FM - O que tem a ver com o individualismo a que você se referiu anteriormente.
Tudo tem a ver, no fundo, com uma proposta de sociedade a que a gente está submetido. E então você vai ali percebendo que existe todo um pressuposto que está permeando escolhas do que seja noticia, quais são os países que realmente interessam no mundo e ai por diante. Não são escolhas nossas, não são prioridades nossas. São pacotes que já chegam prontos. E quando assinamos essas agências isso já está tudo embutido. Quantas coisas acontecem no Brasil e não são notícia para nossa mídia? Ou que, se são notícia, são apresentadas com um viés... Por exemplo, o que está acontecendo com o MST. Qual é o viés que nos é apresentado? É o viés da violência, o viés de que estão sendo um acinte à propriedade privada... Em vez do mostrar o que há no outro lado da moeda, toda a ênfase em alfabetizar os acampados, de oferecer-lhes as noções de cidadania, de dar-lhes auto-estima, fazer dessas pessoas, que são excluídos, brasileiros com vontade de fazer parte da sociedade. Então essa sua pergunta teria que ser feita também nos cursos de comunicação. Porque o tipo de jornalista que está sendo produzido, na maior parte, com dignas exceções, é o jornalista para atuar em conformidade com esta estrutura, para não questionar, para não pensar criticamente e, portanto, para se amoldar confortavelmente nessa estrutura que está funcionando sem tentar enxergar um pouco mais longe.

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