ADMIRÁVEL MÍDIA NOVA
por Pedro Henrique Soares

Huxley, se escrevesse um ensaio sobre a televisão no Brasil, certamente incluiria em suas referências as datas "a.G." e "d.G.". A deusa seria "Vênus", platinada, impondo-se onipresente, juntamente com suas primas, seguidoras fiéis de seu receituário. Entra sem bater as portas dentro de todos os lares, insere-se em cada família, penetra nas conversas em todas as esquinas, molda o comportamento de cada ser pensante.

Assim como no mundo descrito por Huxley, a Admirável Mídia Nova tem como pressuposto o consumismo, não apenas de produtos, escancarados num camelódromo chamado comercial, mas, acima de tudo, de uma forma de vida.

Indústria televisiva é indústria dos sonhos. E, devido à sua monopoli-zação, o catálogo de sonhos não é nada vasto. Mesmo assim, consomem-se mais aparelhos de televisão que geladeiras. Enquanto estas se esvaziam, aqueles enchem o estômago do telespectador de futilidades, sensacionalismos, porno- grafias gratuitas, violência hollywoodiana, bizarrices. A indigestão se traduz em alienação. Contrariando teorias antropológicas, na televisão, a "cultura" é vendida como um elemento de cesta básica, indispensável à sobrevivência. Não há como escapar daquilo que se enraizou, como ervas daninhas, na cultura nacional.

O acesso a melhorias na qualidade da programação é estritamente segregacionista. Aos sem cacife, resta a programação aberta, guiada por um oráculo chamado Ibope. São canais paradoxalmente comerciais, que oferecem sua programação a todo custo, como pastores que vendem fé. É nessa corrida desenfreada que a "Vênus" corre soberana. Sempre à frente de suas "primas", não abre mão de sua tirania, mesmo com sérios problemas em seu império. Mas, independentemente das corrosões em sua estrutura, o império platinado tem seus créditos. Aliás, muitos créditos, conseguidos graças à sua excelente diplomacia, habilidade, astúcia e troca de favores (afagos) a outros tantos poderosos. Seu jornalismo se transforma em assessoria, sempre visando o "bem-estar social". Alia-se ao governo, escrevendo histórias trágicas na biografia da imprensa nacional e, se necessário, induz um incêndio visando apagar as suas páginas negras.

Os canais por assinatura não dependem incessantemente de audiência como os canais abertos. Suas faturas já são garantidas com as mensalidades de assinantes e anúncios publicitários. A programação demonstra que há profissionais qualificados, sobretudo os brasileiros – o que é importantíssimo enfatizar. A "Vênus", onipresente, detém a principal rede de canais a cabo, enfiando goela abaixo da classe média os costumes gringos. A segmentação da Admirável Mídia Nova atende a todas as classes proporcionalmente.

Dentro do universo midiático huxleyniano, há uma luz no fim do túnel. Como mostrado anteriormente, a programação feita por produtoras alternativas nacionais é de excelente qualidade e bom gosto. Televisão é consumo, e o dia em que o código de defesa do consumidor for acionado pela população, o circo dos horrores irá pegar fogo. Das cinzas renascerá não a "Vênus", mas uma fênix, proporcionadora de cultura, entretenimento, educação e satisfação. Ainda há tempo para tornar a mídia realmente admirável, sem o pessimismo huxleyniano.

Artigo publicado na edição # 15 do FM impresso

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