
MÍDIA GRANDE NÃO VÊ IRAQUIANOS MORTOS
por Victor Ribeiro
Não é interessante para as tropas que invadiram o Iraque terem repórteres por perto. Isso é fato. Vejamos, por exemplo, o enorme mal-estar causado na última semana de abril, quando a rede de televisão CBS, dos EUA, divulgou imagens de soldados da coalizão torturando e humilhando prisioneiros de guerra iraquianos indefesos.
Não me refiro àqueles que atiram bombas (porque estes dificilmente são pegos), mas às centenas de pessoas que têm suas casas invadidas e são levadas de lá para algum lugar ignorado por suas famílias. Lembro do que estudei sobre a fase da ditadura militar no Brasil, quando as pessoas simplesmente desapareciam. Isso acontece com – repito – centenas de iraquianos, que não têm preservada, sequer, a intimidade em suas próprias casas. Tal qual agentes da ditadura militar, a coalizão não precisa ter provas para prender, torturar e nem mesmo para matar um iraquiano. Caiu a ditadura de Saddam e surgiu uma bem mais forte, porém mais sutil: a dos Estados Unidos. E só é sutil porque a mídia não cobre, ou não pode cobrir.
Mês passado também circulou pela internet uma foto em que apareciam caixões cobertos pela bandeira dos EUA, onde estariam soldados da coalizão mortos na guerra. Havia soldados (estes ainda vivos) cobrindo os caixões que ainda estavam sem bandeira, dentro de um avião militar. Comprovada a autenticidade da imagem, a página misteriosamente saiu do ar. Vale lembrar que tudo o que circula pela internet, desde o conteúdo do fazendomedia.com até as fotografias de Marte, passa pelo controle de uma central que funciona no Vale do Silício, nos EUA.
Falando nessa guerra, vamos recordar dois números: o de jornalistas mortos e o de baixas do lado da coalizão. Os jornalistas eram 38 até o último dia 2, segundo a Anistia Internacional. Já os militares, somam 721 também até o dia 2. Destes, pelo menos 550 soldados morreram depois do presidente George W. Bush anunciar o “fim dos ataques pesados” ao Iraque, há um ano, também em 2 de maio. Faltou falar dos iraquianos. Vai continuar faltando, pois não há estatísticas, nem sobre a morte de civis, nem de militares. A falta de informação é mais um ingrediente deste sistema perverso, que simplesmente anula a existência de alguns grupos humanos. Nesta lógica, os iraquianos não morrem, simplesmente porque não existem.
Artigo publicado na edição # 14 do FM impresso

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