PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DO GOLPE
por Penélope Toledo

Durante o segundo ano da Guerra de Tróia, brilhantemente narrada por Homero em seu livro "Ilíada", há um episódio em que um pai suplica ao assassino o corpo de seu filho, para que possa sepultá-lo. Trata-se do corpo de Heitor, príncipe troiano, assassinado por Aquiles em vingança à morte de seu amigo Pátroclo. O pai de Heitor, Príamo, consegue que Aquiles estabeleça trégua e lhe permita realizar o funeral do filho. É, desde a Mitologia Grega, o conforto de um pai que tem seu filho assassinado é poder ao menos realizar-lhe um enterro. Simples, modesto, mas simbolicamente o momento da despedida. Se é só o que resta...

Testemunhar a cobertura de parte considerável da chamada "grande mídia" aos quarenta anos do golpe militar, inevitavelmente nos faz recorrer ao episódio de "Ilíada". Por quê? Simples, porque tudo o que um pai (ou uma mãe, ou irmão, irmã, marido, mulher...) de um "desaparecido político" quer é encará-lo pela última vez. Para repreendê-lo ("viu só, falei pra você que esse papo de comunismo ia acabar mal...") ou para apoiá-lo ("você morreu lutando por um sonho, está mais vivo do que muitos de nós"), o fato é que só há a aceitação da morte quando ela é evidente e inquestionável. Quando é morte mesmo, e não "desaparecimento". E, por mais duvidoso que possa parecer, ainda existem pais implorando trégua e permissão para esse último momento.

Nos últimos dias, "todo mundo" tem falado no golpe. Alguns dão informações históricas, do tipo: "apesar da versão oficial negar, houve assassinatos no primeiro dia de governo militar". Outros recorrem a depoimentos, mais ou menos assim: "naquele primeiro de abril, a cidade estava tomada por tanques. Não sabíamos se era um golpe de direita ou de esquerda, porque foi um período de grande agitação política..." (como se vê, nada de novo). Alguns depoimentos até mesmo chegam a ser comoventes: "perdi muitos de meus melhores amigos durante os vinte e um anos de terror que se seguiram...". Sem falar nas imagens em preto-e-branco de estudantes apanhando e correndo da polícia. Ou seja, o que se deu é tudo o que não podia acontecer: a espetacularização.

Nada contra as homenagens. Ao contrário, pessoas que entregam a própria vida em nome da liberdade devem ser celebradas como verdadeiras heroínas nacionais. Mas toda espetacularização contribui para o esvaziamento do essencial: a causa. É necessário que se discuta a razão pela qual essas pessoas, sabidamente mais frágeis do que tanques e canhões, decidiram enfrentá-los. É necessário que se discuta, que se tente compreender o grau de desespero que leva seres humanos a abandonarem tudo – faculdade, família, nome, cidadania – e entrarem na clandestinidade. Que sonho é esse, afinal, que é mais forte do que o medo da morte?! Isso é o que eu queria ver a "grande mídia" discutir.

Sem a pretensão de obter uma resposta específica, deveria ser regra na imprensa nacional a tríade: fato, causa e possível solução. Ou que seja só um binômio, mas que se mencione junto ao episódio, o seu motivo. Sempre. Porque falar de torturas sem se questionar como uma sociedade pôde permitir – e legitimar – a tortura como instrumento de ação do Estado, não muda nada. Falar de contexto internacional e de Guerra Fria, sem ressaltar que quase toda a América Latina passou por ditaduras no mesmo período – e pelos processos de abertura ao neoliberalismo, privatização... tudo junto também – reduz a compreensão dos fatos. E aceitar o eufemismo "desaparecidos", sem que ao menos se pergunte: "por que(m) desapareceram?", não dá.

As homenagens se estenderão por todo o mês de abril. Talvez maio, junho... Depois param. A vida seguirá o seu rumo: a de uns, com pena dos que morreram ou sequer se lembrando deles. A de outros, incessantemente pedindo trégua e direito de reverenciar seus mortos. Pouca "gente" falou, mas até hoje muitas famílias de "desaparecidos" não receberam indenização do Estado. Pocos veículos mencionaram, mas o movimento "Tortura nunca mais" tenta, em vão, punir os torturadores (afinal, nossa sociedade é assim: não evita, ma pune os criminosos). Poucos jornais dão a devida importância, mas o deputado federal Fernando Gabeira lidera uma comissão de familiares dos ex-guerrilheiros do Araguaia (guerrilha rural no sul do Pará, entre 1967-1974). Só querem o laudo das mortes, saber como e em que condições aconteceram as mortes e onde estão os corpos. Ou, de repente, se ainda restam sobreviventes. Afinal, sempre resta uma esperança...

Taí, fiz este texto só para não dizerem que eu não falei do golpe (não podia ficar deslocada do centro dos debates, né). Só espero ter falado diferente. Acrescentado algo além. Se não foi possível, aconselho que leiam Homero. Ele sim soube ilustrar o quão importante é, para alguém que chora a perda de um outro alguém, dar-lhe uma despedida digna. Homero e a mitologia grega saberão falar destas questões com autoridade. E, por falar em Homero, leiam também "Odisséia", que narra a volta de Ulysses, príncipe de Ítaca, aos braços de sua amada Penélope...

Artigo publicado na edição # 12 do FM impresso

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