
A INDÚSTRIA DOS SONHOS - 3
por Marcelo Salles
Um certo padrão é imposto. Ele representa apenas uma minoria. E para se adequar ao modelo, a grande maioria gasta, gasta e gasta.
Como? Por quê?
Não dá mais para ficar na ingenuidade de uns e outros estudantes e até mesmo profissionais de publicidade que dizem que a propaganda existe única e exclusivamente para informar ao público suas opções de compras. Desses, ouço coisas do tipo: “A função da propaganda é dizer ao consumidor que dentro de um supermercado existem esse e aquele produto, para que ele possa fazer sua escolha”.
Pensar assim, hoje em dia, é de uma tolice assustadora. É incrível que um individuo termine seu curso de comunicação sem saber que a propaganda vende, muito mais que um produto, uma ideologia, um modo de vida, um contexto sócio-político. Pior que isso, o sujeito sai da Academia sem nunca ter ouvido falar de Joseph Goebbels.
A corrupção moral do ser humano frente ao vil metal parece alcançar níveis mais elevados a cada dia que passa. Dinheiro. No final das contas, tudo se trata de dinheiro. Quanto mais você tem, mais você é respeitado. O inverso também vale. Se estudarmos um pouco de Freud e Sócrates iremos entender muito bem onde isso tudo está nos levando: propaganda, sexo, dinheiro, guerras. Satisfação, destruição, depressão. Psique. Para o filósofo grego, “as guerras são feitas para satisfazer os desejos do corpo”.
Enquanto meia dúzia de grupos assassinos fomentam guerras, morte e todo tipo de crueldade, dividindo entre si os espólios de guerras, a grande maioria das populações vive suas vidinhas miseráveis todos os dias tentando alcançar aquilo que é imposto diariamente pela dupla infalível televisão-propaganda. A mulher mais desejada tem “x” metros de altura, “y” de cintura e pesa “z”. Repare que não é “x” + 1 centímetro. É “x” e ponto final. Exibindo-se essa ditadura a todo instante, acostuma-se o olhar de quem assiste. Nem cachorro é tão bem adestrado. É como se tivéssemos uma arma apontada para nossa cabeça e uma voz: “Odeie tudo aquilo que for diferente”. Aliás, é pior que isso. Porque em vez de uma arma, tem-se uma caixa luminosa que mais parece nossa melhor amiga, que nos faz companhia, que conversa conosco. Não por outra razão mencionei Goebbels: “A propaganda eficiente deve convencer o público sem que ele perceba que alguém está tentando convencê-lo de alguma coisa”.
Multidões assistem a este lixo chamado “Big Brother”. Torcem, choram, participam(?) de um programa que sutilmente legitima o processo de exclusão do outro. Além, é claro, de vender a burrice como algo valioso e a desonestidade como maneira aceitável de se vencer na vida.
Não dá mais para ignorar. A dupla dinâmica televisão-publicidade que impera nos dias de hoje – a mesma que dizem ser a melhor do mundo – gera violência à medida que exibe produtos que não podem ser adquiridos por todos. Por isso um garoto mata outro para roubar-lhe o tênis de marca. Por isso uma menina enfia o dedo na goela e vomita tudo que come. Por isso uma mulher pobre se endivida para implantar silicone.
E a minoria que impõe toda essa sacanagem segue vivendo nababescamente, canalizando para seus bancos, cofres e veias toda a energia dessas multidões. Digo energia, como poderia dizer força de trabalho ou dinheiro. Mas prefiro ficar com energia, pois o dinheiro nada mais é do que a representação da capacidade de produção de um indivíduo. Aliás, acho que seria interessante se começássemos a pensar mais nisso.
Especial para o Fazendomedia.com

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