A BANALIZAÇÃO DA VIOLÊNCIA NOS "CIDADES"
por Paulo Henrique Brazão

“Cidade de Deus” estreou em agosto de 2002 como a grande promessa do cinema brasileiro para trazer finalmente a estatueta do Oscar. Porém, na mesma ocasião, Eduardo Simões, jornalista de O Globo e crítico de cinema do caderno Rio Show, surpreendeu ao definir para o filme o tão famoso Bonequinho com a pior cotação de todas, saindo do cinema. Exagero? Certamente. Mas o argumento de Eduardo foi a melhor definição do que seria o filme: uma chacina fashion em um espoucar de pipocas e tiros, a classe média saindo do cinema e se dirigindo a um barzinho para tomar sua cerveja e, voltando para sua casa como se nada tivesse acontecido.

Um colega aqui da faculdade considera o melhor filme que já assistiu até hoje. Mas assisti-lo não é um dever cívico, como definiu Zuenir Ventura. Em “Cidade de Deus”, tudo passa aos olhos do espectador como algo mágico, existente apenas naquela projeção, quando, na verdade, alguns dos seus 3,5 milhões de espectadores provavelmente não voltaram vivos para casa.

Outro ponto que o filme toca é no maniqueísmo dentro do maniqueísmo. Primeiro, Fernando Meirelles define quem é bandido e quem é mocinho. Depois, define quem é bandido mau e quem é bandido bonzinho. Mas o diretor não se lembra que bandido é bandido, criminoso como outro qualquer. Longe de mim soar como nosso Secretário Estadual de Segurança Pública, um molequinho que parecia ter bigodinho e carregar uma suástica quando afirmou, sobre as mortes em tiroteio na Ilha do Governador, que “não eram doze pessoas, eram doze traficantes”. Mas é algo muito sério demonstrar ao público que Cenoura e cia. eram bonzinhos e fazer com que torçamos por eles.

A publicidade fica ainda mais evidente quando a favela é trazida para a telinha com a série “Cidade dos Homens”, da Rede Globo. Historicamente, a sociedade brasileira costuma satirizar tudo com o que não sabe lidar, como os retirantes e os homossexuais, até hoje figuras que, estereotipadas como caipiras e bichinhas, nos fazem rir nas noites de sábado. E agora é a vez dos cítricos Laranjinha e Acerola. Suas expressões tomam as ruas. A linguagem falada nos morros, especialmente no tocante aos erros de português, pela falta de uma educação que deveria ser universal, arrancam risos em praças e bares. Dia desses, um colega de Publicidade da UFF me contou que virou fã da série, principalmente quando, no episódio anterior, um personagem se referiu a outro como “norótico”, fazendo esse colega levantar do sofá e aplaudir de pé. Só que, na mesma cena, um homem estava ajoelhado com uma arma na cabeça. E é isso que assusta: será que este colega não se tocou porque não viu ou porque já se tornou tão banal e televisivo que não merece mais atenção?

Enquanto Laranjinha e Acerola divertem e vão até Brasília levar uma carta para o presidente, Douglas Silva e Darlan Cunha, seus intérpretes, reclamam no Segundo Caderno de O Globo que, mesmo após o sucesso, ao andarem pelas ruas, algumas senhoras ainda seguram suas bolsas junto ao corpo com medo de eles serem assaltantes. É esse preconceito o mesmo que faz rir. Por serem meninos negros não têm identidade: esta é o que nossa sociedade construiu para eles com seu descaso. Mas pior ainda seria se as senhoras, ao reconhecerem Laranjinha e Acerola, ficassem aliviadas e pensassem: “Ah, esses não tem problema não... São aqueles meninos da televisão...”.

Artigo publicado na edição # 9 do FM impresso

Todos os artigos


Veja a capa ampliada

Clique aqui para assinar gratuitamente o nosso jornal impresso



Este site é melhor visualizado na resolução de 800 x 600 pixels.
© 2004 Fazendo Media - por Kzal Design