
EDUCAÇÃO NÃO É PRIVILÉGIO
Carolina Rangel
Junho de 2005
Anísio Teixeira, autor do título acima, defendia na década de 20 uma educação pública, leiga e de qualidade. O fundador da Universidade do Brasil não era comunista, mas sim um liberal-democrata humanista adepto de uma metodologia dinâmica com o objetivo de deixar o aluno refletir. Passados 90 anos, estas necessidades são contemporâneas, porém com dois agravantes: a mídia como educadora ocupando o espaço da socialidade primária (família) e a ideologia neoliberal impondo a aplicação de um ensino universal na América Latina com regras ditadas pelo Banco Mundial.
"Quando sair daqui talvez trabalhe com meu pai na oficina". Esta é a realidade da maioria dos alunos de Ensino Médio de uma Escola Estadual em Santa Rosa - Niterói (RJ). Eles não possuem projetos de continuar os estudos, são incentivados a compor a parcela da população que trabalha para a manutenção dos intelectuais tradicionais. A infraestrutura da escola acima não é diferente das que aparecem na mídia. Quadra esportiva esburacada, biblioteca espremida num cubículo e um laboratório de informática não utilizável. A precariedade desses espaços não é novidade, passa no Fantástico, no Jornal Nacional e tantos outros jornais em tom calamitoso, emocionante e sensacional.
O relevante e não dito é que a situação da educação brasileira, seja de ensino fundamental, médio e superior, obedece às regras definidas pelo Banco Mundial na década de 90 para os países latino-americanos. O pressuposto fundamental desses homens de negócio é a educação como prioridade para se adaptar o trabalho e suas relações ao mercado global livre. Ou seja, a educação com o papel ideológico de operar as contradições da globalização e a exclusão estrutural desses países. Além de atenuar as explosões sociais mascarando uma política de aliviamento da pobreza e filantropia social.
Neste quadro, retornamos novamente à escola referida. Poucos alunos reconhecem o significado dos conceitos solidariedade e cidadania. No cotidiano são massacrados por idéias e produtos midiáticos. Na aula de história da 8ª série assistiram ao filme American Pie: o casamento. A professora de Prática de Ensino de História da UERJ, Helena Araújo, diz que a qualificação do profissional e a manutenção do prédio escolar aparecem em décimo lugar na lista do Banco Mundial. "Infelizmente, ainda lutamos pela bandeira levantada por Anísio Teixeira e Paulo Freire porque é algo que ainda não conseguimos alcançar".
E quanto ao elevado desemprego, Francis Fukuyama, economista e ex- integrante do governo estadunidense responde: "A rigor não existe desemprego estrutural, mas trabalhadores inadaptados culturalmente à globalização" (O fim da história: de Hegel a Fukuyama. Perry Anderson). Este pensamento é vendido diariamente na imprensa quando naturaliza e perpetua uma das maiores contradições nacionais: educação particular como passaporte para a universidade pública e educação pública para a exclusão econômica e social.
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