
DÊNIS DE MORAES
Dênis de Moraes é jornalista, professor do departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pós-doutor em Comunicação pelo Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales.
Malu Muniz – Vamos começar pela literatura. Você cita Muniz Sodré, que diz: "jornalismo não se reduz à exposição de fatos". Tendo em vista a exigência da entidade "mercado", o que afasta e o que aproxima o jornalismo da literatura?
Eu acho que um certo jornalismo está na fronteira com uma certa literatura e nós podemos visualizar essa área fronteiriça em gêneros como crônica e a biografia. A partir dos anos 80 alguns jornalistas, já experientes, migraram para o livro, tentando explorar, de forma mais abrangente, temas e personagens da história recente do Brasil, que o jornalismo tradicional não dava conta ou não tinha interesse. Dessa safra, tivemos biografias de Assis Chateaubriand, de Nelson Rodrigues, de Henfil, de Vinícius de Moraes e tantos outros. Esse fenômeno me parece casual. Eu acho que a chamada grande imprensa, com o passar dos anos, se mercantilizou de tal maneira que reservou seus espaços para os acontecimentos triviais e banais, ou então para aquele conjunto de temas relacionados com os interesses do capital, do mercado capitalista, dos seus próprios interesses enquanto empresa capitalista. Então, eu acho que esse fenômeno talvez seja, do ponto de vista da visibilidade, a mais recente demonstração dos vínculos entre jornalismo e literatura no nosso país. É claro que outros espaços também permitem um exercício de pára-jornalismo e pára-literatura. Algumas colunas da grande imprensa abrem uma possibilidade para esse gênero misto, para tirar do jornalismo a camisa de força de uma linguagem cifrada, formatada, limitadora.
Marcelo Salles – Mas essas colunas são rotuladas como "opinião" e não possuem a aura de verdade da reportagem, né?
De fato, as colunas são essencialmente de opinião, um espaço para uma certa autoridade jornalística, o jornalista como autoridade cultural. É o caso de Carlos Heitor Cony, de Jânio de Freitas, de Elio Gaspari. E, de fato, não resolve um problema que se aprofunda, que é a falta de espaço na grande imprensa para a investigação, para a reflexão crítica, para um aprofundamento de temas, que tiveram a oportunidade de serem apreciados pelo leitor em décadas passadas. Bastaria lembrar o caso da revista Realidade, que foi um marco nesse tipo de jornalismo. Eu acho que também há um problema relacionado com os jornalistas. Uma canalização cada vez maior das novas gerações dos jornalistas para o jornalismo da grande imprensa, uma espécie de afunilamento do processo expressivo, de busca pela celebridade, de busca pelo triunfo, pela carreira, que são, sobretudo a carreira, atitudes legítimas - eu não quero menosprezar os que têm a carreira, o sucesso e a celebridade como metas. Agora, isso implica também um processo de "opização" [de ópio] do jornalismo, sobretudo das reportagens. Quer dizer, uma tendência para o jornalista yuppie, em busca da fama, seduzido pela idéia da exposição televisual. Isso traz, a meu juízo, uma neutralização do pensamento crítico, da autonomia criativa, do senso de inconformismo, que eu acho que são características fundamentais dos verdadeiros jornalistas, daquelas pessoas que têm a alma de jornalista na sua característica mais pura, que é a aproximação com a condição humana, uma idéia de que o jornalismo é uma profissão muito relacionada com o contato com os outros, com o diferente, com a variedade, buscando retratar, também, aqueles que lutam para mudar essa sociedade que aí está e que, na minha opinião, não presta. É uma sociedade mercantilizada, reificada, em que a cultura se transformou em mercadoria e as mercadorias passaram a fazer parte de uma cultura mais abrangente, em que só o valor de troca prevalece, em que só a busca da rentabilidade e do lucro prevalece.
Malu Muniz – Milton Santos fala de uma tirania da informação e de uma tirania do dinheiro. Você fez a biografia do Henfil e ele, de um jeito irreverente, combateu uma outra tirania, um regime duro, enfim... Eu queria que você comparasse essas tiranias: a do dinheiro, da informação e a dos regimes políticos.
Nós vivemos num tempo no Brasil em que essas três tiranias eram irmãs siamesas. O Henfil tinha uma visão crítica da grande mídia impecável. E, como tudo que ele fazia, era de uma radicalidade impressionante, no sentido mais belo da palavra "radical", de raiz. De modo que a figura do Henfil é emblemática no sentido de que nós temos que resistir às tiranias que não foram vencidas, a do dinheiro e da informação, que são duas tiranias muito poderosas, muito insidiosas. Mas eu também vejo, orgulhoso, que o jornalismo brasileiro, apesar de suas mazelas, ainda é capaz de produzir um Jânio de Freitas, ainda é capaz de despertar nas pessoas que o exercem esse sentimento de solidariedade, de indignação, de inconformismo.
Marcelo Salles – Você acha que essas tiranias encontram algum respaldo nas várias esferas da sociedade?
Eu diria que a tirania do dinheiro e da informação geram uma terceira tirania, que é a tirania da alienação. Essa tirania, também muito poderosa, muito persistente, é uma tirania que se infiltrou nos diferentes setores e segmentos da sociedade brasileira. E não é à toa que nós temos uma banalização dessas duas tiranias, do dinheiro e da informação, como se fossem componentes estruturais da vida brasileira. Não são. Ou seja, a luta pela democratização da Comunicação nesse país é uma luta tão importante quanto a luta contra a política econômica neoliberal que aí está. Eu acho que a luta contra a financeirização da vida é uma luta fundamental. Os valores humanos não podem ser submetidos aos valores mercantis. A vida humana é muito mais importante que as cifras, que o valor de troca. Agora, acho que são lutas para as quais devemos estar muito preparados, devemos estar munidos de algumas palavras nem sempre fáceis de se assimilar, como paciência e perseverança. Um outro biografado meu, Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, dizia: "Uma derrota não significa a falência de nossas convicções. Uma derrota significa, antes, a necessidade de aprimorarmos nossos planos de ataque". Isso, para mim, é uma espécie de mandamento bíblico. Eu não acredito mais, por exemplo, que esses objetivos sejam alcançados em lutas explosivas, em insurreições, acho que serão construídos através de lutas gradativas, de acumulação de forças, de debilitamento dos adversários, da exploração de contradições e brechas, por exemplo, da mídia.
Malu Muniz – Sobre a questão da pirataria, não fica muito fácil condenar essa prática sem discutir a concentração de capital na mídia?
Eu acho que o processo de concentração dos meios de comunicação é um fenômeno internacional. O caso brasileiro é apenas um reflexo de uma situação globalizada em que os impérios de mídia circulam livremente sem se submeter a nenhum tipo de exigência dos países, dos continentes, só prestando contas a seus acionistas. Hoje em dia, 20 conglomerados transnacionais de mídia controlam cerca de 3/4 de toda produção simbólica no planeta, o que traz problemas gravíssimos para a diversidade informativa e para a pluralidade cultural. Eu acho que há uma relação evidente entre essa oligopolização cultural e o fenômeno da pirataria. A relação é: determinados produtos que se prestam à pirataria têm um grau de valorização das indústrias culturais muito acima do poder aquisitivo da maioria das pessoas. Há um oceano de diferença entre custo/produção e o preço final de CDs e DVDs, por exemplo. Por outro lado, o que foi que possibilitou a pirataria? O desenvolvimento tecnológico. Foram as indústrias eletro-eletrônicas que, ao criarem gravadores de CD, colocaram uma espécie de cavalo de Tróia dentro da indústria cultural, porque permitiram a reprodução em série, sem nenhuma controle. Este é um fenômeno que mostra muito bem o caráter contraditório desse modo de produção capitalista.
Marcelo Salles – O Milton Santos dizia que a revolução no Brasil viria de baixo. Eu queria saber se você tem a mesma visão no tocante à democratização a comunicação.
Essa luta é dramática. Ela envolve atores com larga influência junto ao poder político nesse país, com um poderio econômico e ideológico brutal, de modo que se trata de enfrentar um inimigo não imbatível, mas muito forte, muito articulado, com um poder de irradiação na sociedade brasileira completamente desproporcional e absurda. Também acho que nós sofremos com os vínculos entre os concessionários de rádio e televisão e os governos no Brasil. São quase 300 os parlamentares, neste momento, que, de algum modo, têm vínculos com concessões de rádio e televisão, o que dificulta muito a atuação do Congresso Nacional nesse campo. De todo modo, eu acho que as entidades que lutam pela democratização da comunicação, de modo sincero, ainda se ressentem de uma maior articulação interna. Mas há espaços possíveis sim, do ponto de vista da regulamentação, que podem ser atingidos no curso de uma luta prolongada que realmente seja capaz de mobilizar setores influentes da sociedade civil. Hoje, nós podemos ter uma lei de comunicação que inclua a televisão digital via satélite, que regulamente essa área que está aí sem regulamentação. Nós podemos ter formas de pressão sistemáticas, organizadas, para que as rádios comunitárias desse país não continuem sendo perseguidas da forma bárbara que vêm sendo perseguidas pela Polícia Federal, a mando do Poder Executivo. Nós podemos ter uma série de pequenos avanços, mas que sejam conquistas nesse campo. Mas eu não acredito que nós vamos ter o dia D, que vai ser o ano zero do Eldorado, da redenção final. Portanto, eu acho que, realmente, temos que aumentar a nossa capacidade de articulação, de mobilização, de pressão. Nós temos que aprender, também, a não confiar mais nos parlamentares que se comprometem com a luta pela democratização da comunicação no Brasil e que depois que se tornam governo, somem, não prestam mais conta de nada. É curioso como que os grupos econômicos que têm emissoras de rádio são protegidos pelas elites dirigentes do país e as rádios comunitárias são escorraçadas por essas mesmas elites. O que as rádios estabelecidas têm de tão bom assim e de tão benéfico para o país, e que tenham a vida calma, enquanto as rádios alternativas têm que ter registros, que prestar contas, que se submeter a fiscalizações de órgãos executivos?
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