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TARIQ ALI

Tariq Ali tem 62 anos e é escritor. Cresceu no Paquistão e, por se opor ao regime ditatorial em seu país, foi exilado na Inglaterra. Nessa entrevista, concedida ao Fazendo Media em Porto Alegre durante o Fórum Social Mundial, em janeiro, Tariq Ali explica o papel da grande mídia na dominação dos EUA sobre o mundo.

Marcelo Salles Você disse que os EUA querem derrubar Hugo Chávez para que a Venezuela não sirva de exemplo para os demais países da América Latina. Poderia explicar melhor?
Atualmente o mundo é muito influenciado pelas decisões do presidente dos Estados Unidos, inclusive as relações que existem entre as nações da América Latina.

Marcelo SallesO que você acha que estes países devem fazer para mudar esta situação?
Bem, é verdade que a América Latina tem hoje os melhores governos que já se viu e é natural que essa situação incomode. Estes países sofrem a dominação internacional, seja pelo exército, o capital e a tecnologia estadunidense, seja pelo Consenso de Washington. O sistema, o establishment, é um monstro que anda sobre duas pernas: uma econômica, representada por instituições como o FMI (Fundo Monetário Internacional), e a outra perna é a militar. As duas pernas andam juntas, sustentando uma "besta". O objetivo é sair deste sistema e a Venezuela é o primeiro exemplo, porque se virou para a América Latina e disse "não" aos EUA. Esta é uma nova experiência na América Latina. O governo de Chávez é uma democracia popular, porque é volta-do para o povo da Venezuela. O povo o quer, porque ele olha para os pobres. É um exemplo que o Brasil deve seguir.

Breno Costa – Tem uma coisa que ficou clara na Venezuela, em 2002, quando Chávez sofreu o golpe de Estado: houve participação da mídia. Para pessoas como você, que vivem no Oriente Médio, qual o papel da mídia hoje?
A mídia se tornou uma questão central no Consenso de Washington. Sabe-se como os jornalis-tas têm apurado as notícias. Se você prestar atenção em como Chávez tem sido coberto, não apenas pela mídia da Venezuela, que é contra ele, mas também no "New York Times", no "Financial Times", no "Monde"... Todos ten-dem para o ponto de vista do Consenso de Washington e os jornalistas, na maioria dos jornais e nas televisões, acompanham esse pensamento, impedindo uma visão mais clara sobre determinados assuntos. Você não pode esquecer que a maior parte dos jornalistas do mainstream são jornalistas embeded [ou anexados: termo usado em guerras, quando os jornalistas acompanham as tropas de um país, fazendo parte do exército e assumindo uma postura bastante parcial], que não permitem que a população tenha acesso à informação. Em tempos de paz, os velhos jornalistas embeded continuam existindo e isso é fundamental para manter no poder os regimes que já existem.

Marcelo Salles Embeded nas empresas também...
Claro. As empresas são grande parte da mídia. Seis grandes empresas controlam quase toda a mídia mundial e os jornalistas trabalham para elas. Por isso os jornalis-tas evitam investigar crimes, escândalos e corrupções nestas empresas. As pessoas só ficam sabendo de uma pequena parcela desses escândalos. Então, devemos perceber que nos últimos vinte anos a independência da imprensa vem diminuindo e Bush fez os jornalistas se levantarem. Veja só, quando Michael Moore fez "Fahreinheit 9/11", todos foram vê-lo, mas há 25 anos atrás, você não poderia assistir nem pela televisão. Isso mostra uma mudança no mundo. Mostra que é necessário lutar contra, combater, criar alternativas, porque não temos poder para mudar de uma hora para a outra esta grande mídia, nem interferir diretamente no que eles falam, no que eles dizem ser a verdade, mas é preciso criar mecanismos para isso.

Malu Muniz – Sobre a cobertura do Oriente Médio, a mídia brasileira costuma generalizar e considerar os árabes e palestinos terroristas. Isso faz com que muitas pessoas por aqui pensem errado sobre o povo do Oriente Médio. O que você diria aos brasileiros?
Essa é a versão oficial dos EUA, completa-mente falsa e que engana pessoas no mundo inteiro. Há emissoras de televisão estaduni-denses no Iraque, mas eles também têm "al-Jazeera" e "al-Arabia", que são grandes estações de TV do mundo árabe e oferecem um conteúdo muito completo. Os iraquia-nos dão preferência às emissoras árabes quando querem se informar. A mídia brasileira deveria mostrar as imagens dessas TVs também, para ter uma cobertura melhor do Oriente Médio.

Breno Costa Você assiste às imagens da "CNN"?
Sim. São imagens desenhadas de acordo com o pensamento ocidental. Você pode assistir à "CNN" e à "BBC World", que verá as mesmas imagens. E são estas imagens que chegam aos Estados Unidos, à Europa, ao Brasil, à grande parte dos países. A quantidade de imagens que eles fazem são suficientes apenas para mostrar que o Oriente Médio é um lugar parecido com aqueles que assistimos nos filmes de Hollywood. As imagens alternativas estão na "al-Jazeera" e na "al-Arabia" e não sei por que as emissoras brasileiras não exibem estas imagens.

Marcelo Salles Existe, então, alguma saída para driblar a imprensa que recebe o apoio das grandes corporações?
É necessário que ocorra a democratização das informações. Atualmente a forma de promover isso é através de páginas na internet e de veículos alternativos, que se disponham a mostrar uma outra visão sobre os assuntos abordados pela grande mídia. É claro que o alcance destes meios alternativos é muito menor do que aqueles grandes, que atingem dezenas, centenas de milhões de pessoas, mas são os veículos peque-nos que estão fazendo a diferença hoje.

Breno Costa Você concorda com a proposta de boicote à economia estadunidense apresentada na edição deste ano do Fórum Social Mundial?
Sim. Um boicote à economia dos Estados Unidos seria capaz de conscientizar as pessoas para a realidade em que vivemos. É uma idéia interessante, mas um pouco arriscada, porque a economia estadunidense tem aspectos únicos e poderia prejudicar outros países. Mas é uma boa idéia. Porque é o capital das empresas dos Estados Unidos que financia os grupos de comunicação. Além disso, uma atitude como esta seria fundamental para libertar os países da América Latina.

Marcelo Salles E sobre o conflito entre a Índia e o Paquistão? Por aqui a grande mídia não informa muito sobre o assunto. O que realmente está acontecendo entre estes dois países?
Isso é um assunto muito extenso. Em resumo, os dois países disputam a região da Caxemira, desde 1947. A população local quer a Caxemira independente, mas o Paquistão quer a Caxemira e a Índia também, sendo que os indianos querem a melhor parte da Caxemira. Na minha opinião, este assunto não será resolvido facilmente. Eu afirmo em meus livros e artigos que só haverá saída se houver união no local. Algo como a União Européia. Para mim, quando os países se unirem, haverá solução para a Caxemira, para o Sri Lanka e talvez até para o Nepal.

Marcelo Salles O que os paquistaneses pensam sobre estas questões relativas aos EUA, à Inglaterra, às informações e aos veículos alternativos?
Há muitos canais de televisão no Paquistão. Além do canal estatal, as emissoras não se limitam a mostrar apenas as imagens da "CNN". Então, o povo do Paquistão é mais informado que o da Europa e, provavel-mente, mais informado até do que vocês.


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