
RENAN ANTUNES DE OLIVEIRA
Vencedor do prêmio Esso de Reportagem.
Breno Costa – Você trabalhou na Veja, na Istoé, no Estadão. Você sempre teve essa postura combativa?
A postura combativa é até um elogio desnecessário a essa altura do campeonato. Não é isso. É crítica o que eu quero dizer. Por exemplo, eu fui trabalhar na Veja na época em que se fez aquela campanha do Collor. Então, eu entrei para cobrir aquela campanha, era um dos repórteres de Política...
Mariana Vidal – Quanto tempo você trabalhou lá?
Eu tinha 40 anos quando eu estava na Veja. Aí eu cheguei e fui trabalhar lá e vi todo mundo, gente como vocês, novos, recém-formados e entrando, trabalhando, tal... E a empresa mesmo trabalhando a favor do Collor.
Breno Costa – E a Redação era contrária a Collor?
Os jornalistas sempre têm esse discurso de esquerda. No discurso. Na prática, todo mundo quer viver bem. Os jornalistas têm esse discurso crítico, mas quando ganham bem, eles dão o discurso no bar, mas chega na redação, na hora de escrever, se o patrão mandar mudar eles mudam. Aí vem a coluna vertebral dessa profissão. "É como dupla caipira: se você pagar eles tocam", frase do Ricardo Kotscho. Se você pagar um jornalista e disser para ele: "Olha, me escreve aqui a história do Che Guevara". Se te pagar, tu vai lá e escreve. Aí você volta dizendo que o Che era um revolucionário, etc. Mas o patrão: "Não gostei. O Che era veado". Aí você vai lá: "O Che, com suas relações homossexuais....". A Veja faz assim, entendeu? O cara escreve e prova a tese de que o Che era veado, se eles quiserem!
Breno Costa – Funciona assim desde quando?
Sempre funcionou assim. Toda a grande imprensa funciona desse jeito. Quem paga manda os outros dançarem. Às vezes, o sujeito faz um jornal independente, paga uma equipe brilhante e se os caras forem para a direita demais, o cara diz: "Eu era de esquerda, paguei esses caras, eles foram para a direita, fecha o jornal!". Tem isso! Eles têm talento pra escrever e, com isso, a cultura da classe dominada, gente, é a cultura que vem da classe dominante. Isso é uma coisa que o Marx disse. É só você sair na rua e ver uma expressão cultural: "O povo corre e vai ver a São Paulo Fashion Week na Globo porque a Gisele Bündchen, que é namorada do Leonardo DiCaprio, estava ali". O que é que isso acrescenta naquele pé-de-chinelo, naquele catador de papel que está empurrando seu carrinho aqui na rua, que tem uma revista Caras que ele achou no lixo? É a cultura da classe dominante! Como é que tu vai escapar dela se ela está aqui, onipresente?
E eu vinha tentando obter fama e sucesso. Para agradar minha mulher, que gosta de mordomias, porque o marido tem que... sabe? Tenho que satisfazer o ego da minha mãe. Eu tenho filhos do meu primeiro casamento que são grandes já, 28, 27 anos, e eu perguntei pra eles: "Quem é o melhor jornalista do Brasil?" E eles me responderam: "Pedro Bial". Claro! Olha quem é Pedro Bial, é quem você vê apresentando o Big Brother, que escreveu um livro sobre Roberto Marinho e que teve a audácia de escrever que ele era bom de cama. Um velho que morreu com 90 e poucos anos, que era um grande amante e que grandes mulheres correram atrás dele no Rio de Janeiro. É um absurdo! Pode ter certeza que o único que ele cravou foi em nós, com essa televisão de merda que ele fez!
Breno Costa – Voltando à Veja, ela tem uma diferença marcante em relação a outras revistas semanais. Inclusive, no meio jornalístico, ela é bastante criticada. Eu queria saber qual é essa diferença e como isso se dá.
Gente, se vocês querem ser jornalistas na vida, esqueçam qualquer modelo já visto e olhado. A gente, quando está na faculdade, quer visitar tal jornal e tem gente que vai lá e faz um estagiozinho. Claro que a gente tem que ver, tem que saber, mas leiam os jornais velhos, peguem uma Veja velha e dêem uma lida e tirem suas conclusões. Então, eu não queria trabalhar, o troço não funcionava e eu comecei a mandar um freela para revista, pro Estadão... E aí fiz tudo sozinho! Aí me dirão: talvez por isso sua carreira tenha sido um fracasso, que tu tenha chegado aos 55 pra ganhar um miserável Prêmio Esso, enquanto qualquer outro recém-saído da faculdade, trabalha 20 anos na Folha, no Globo e ficam ricos. Os caras ficam ricos! Ricos! Ganham muito dinheiro. O salário de editor dá 10, 12, 15 paus. A única coisa que ele tem que fazer é não apertar muito, se não estraga as bolas do Dr. Roberto e ele não pode ser mais o garanhão que ele é! Quando eu trabalhei na Veja eu tive que dizer para o Dr. Roberto [Civita], a um palmo de distância, o que eu achava disso e daquilo.
Marcelo Salles – Você o encontrou?
Claro. É que eu fui eleito dentro da Veja para representar os coleguinhas. Depois que eu conversei com ele e disse isto e aquilo, aí veio a polícia, me arrancou de dentro da Veja e me jogou fora. Mas o jornalismo é assim. Cada jornal tem seu patrão. No Brasil, são famílias. Um dos Mesquita, do Estadão, diz a lenda, tomava seu banhozinho, peladão, às 6 horas da manhã, com um charutão na boca, lendo o jornal, dizendo: "Não gostei disso, gostei daquilo, não gostei daquilo outro...". Syrotski, aqui, é piada a maneira como administra o Zero Hora. O único jornal de Curitiba, o "Gazeta do Povo", todas as páginas vão pro dono lá na beira da praia, para ele ler o jornal de domingo, que é o único jornal lido no país. E aí você vai trabalhar nesses jornais. E tu chega e bota a matéria que está no site do Já (www.jornalja.com.br), do menino que foi queimado por PMs. Eu estava em Curitiba de passagem e tinha uma matéria de meia página de desmentido da Polícia Militar, dizendo que não foram eles que queimaram um menino de rua. Aí eu estava visitando o jornal e, conversando com os editores e repórteres: "Cadê a matéria do menino queimado, que foi desmentida hoje?". Ninguém sabia onde estava a matéria. Ué, a PM está dizendo que não queimaram o cara. Que cara é esse que está queimado? "Ah, mas isso foi em janeiro, e nós não fizemos porque na época ninguém ficou sabendo". Ou seja, saiu só o desmentido no jornal, sem ter o "mentido", entenderam? Aí eu falei que queria fazer essa matéria, me ofereci pra fazer um free-lance e vender pro próprio jornal publicar. Aí eles disseram que o menino estava internado num hospital de queimados e que ninguém entrava nessa unidade enquanto ele estivesse lá dentro. Consegui entrevistar o menino, que afirmou ter sido queimado pelos PMs. Voltei no jornal e mostrei: "Tá aqui. Esse menino me contou como foi queimado. Entrevista com o menino queimado pela polícia". Eles não quiseram publicar. Eles querem defender o interesse da classe. O jornalista tem que ter essa capacidade de se indignar e, quando ele enxerga uma coisa, ele tem que ir atrás dessa coisa até o fim.
Breno Costa – E uma das justificativas que as redações apresentam pra não fazer esse tipo de reportagem é o custo dessas matérias...
Gastei R$ 140,00 para fazer a matéria do Esso. A de Curitiba, estava no caminho, gastei só a passagem. Aí com o dinheiro do Prêmio Esso [R$ 10 mil], gastei quase R$ 7 mil para ir a Paris investigar um caso que aconteceu com um carioca.
Breno Costa – É sobre o quê?
É a história de um trem, chamado Justiça, que atropelou um cara. Cometeu um erro judiciário vergonhoso. Manteve o cara 15 anos processado, botou ele quatro anos na cadeia, tudo com base numa folha de papel. Era uma mentira. Eu investi nisso aí contra a vontade da minha mulher, mas eu fui porque foi uma grande injustiça que fizeram com um único cara. Isso aí é a capacidade de se indignar, de correr atrás de uma história. Eu a persigo há cinco anos. O cara foi pra cadeia, esperei ele sair. Quando ganhei o Esso, eu nunca mais tinha falado com ele, voltei lá, bati na porta dele. "Escuta, como é que está teu caso?" "Ainda na Justiça". Aí eu disse: "Me dá aqui. Isso aí é Prêmio Esso ano que vem".
Marcelo Salles – A matéria do Felipe Klein [vencedora do prêmio Esso], você tentou vender pra revista Época, né?
É, eu liguei pro pessoal e disse: "Olha, eu tenho essa matéria, tô te mandando". Porque eu queria voltar pra grande imprensa, ninguém quer ficar no gueto, num jornalzinho no Bom Fim [Bairro de Porto Alegre], embora ali seja onde eu posso escrever com independência. Não há pressão sobre um jornal pequeno, embora haja pressão dos grandes, que nos tiram das bancas. Ou vocês acham que isso não acontece? Se você botar um jornal pequeno nas bancas do Rio de Janeiro, alternativo, combativo, crítico e independente, O Globo vai lá, passa e diz: "O senhor está vendendo quanto desse jornal aí?" "Dez" "Pô, então faz o seguinte: não vou ocupar espaço na tua banca, me dá O Globo aqui". Tira 200 Globos dele. Aí o cara: "Não, não!" "Então, ou tu vende o meu ou tu vende o dele. Escolhe". É assim que funciona. Aí fica aquele monopólio da informação. A grande imprensa se especializou em "quem, onde, quando, como". "O João matou o Juca no dia 25, exatamente às 13h47". Eles dão aquela coisa certinho. "O governador disse isso". Aí abre aspas e põe uma frase. Agora, o porquê é que ninguém quer explicar. E eles [os grande jornais] sempre cospem para baixo. Eles não atacam em cima. É uma das primeiras coisas que um jornal te diz: "Olha, nós respeitamos as instituições, nós respeitamos as autoridades". Aí nesse caso das bancas, você vai no CADE [Conselho Administrativo de Defesa Econômica] se queixar. No outro dia, sai uma matéria no Globo, primeira página: "Corrupção no CADE. Cinco conselheiros estão sendo investigados". Aí já tira o caso, entendeu? Eles fazem isso. Tu não tem jornal pra publicar isso. A gente fala entre nós, você publica em um panfletinho, mas a grande mídia silencia sobre isso, fica quieta.
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