
EM TORNO DE KYOTO, NEGÓCIOS
Gilka Resende
Março de 2005
Depois de oito anos de espera, o Protocolo de Kyoto entra em vigor na tentativa de reverter o quadro de superaquecimento global vivenciado em nossos dias. O tratado contou com a ratificação de 141 países e possui, como principal meta, a redução dos gases poluentes em pelo menos 5% em relação aos índices marcados no início dos anos 90.
A obrigatoriedade no cumprimento das metas fica restrita aos países desenvolvidos, porém a maioria dos países que assumiram o projeto são os ditos países "em desenvolvimento". Algumas contradições são encontradas neste Protocolo e, talvez, a maior delas seja a ausência do maior poluidor mundial, os Estados Unidos (27% da emissão total de gases poluentes).
Com relação a este assunto, alguns grandes veículos trouxeram reportagens com uma considerável explanação sobre detalhes do Protocolo, mas a cada dia que passa, a mídia grande cisma em descontextualizar os recentes acontecimentos de toda uma História Mundial. Por que chegamos a este estado de degradação ambiental?
Em conversa com o professor de Geografia, Vagner dos Santos Alves, ele explicou que sua abordagem em sala de aula explica como o aquecimento global está diretamente ligado ao sistema capitalista operante: "Mostro como a revolução industrial e as demais incorporações tecnológicas do sistema levaram ao caos que se anuncia. A questão do consumismo, depredação dos recursos naturais e alienação da sociedade são abordados com profundidade quando o assunto é destruição ambiental".
Outro ponto bastante preocupante é a mentalidade com que a mídia, os governantes e até alguns especialistas tem colocado "o porquê" em efetivar a entrada no Protocolo. O aspecto econômico é enaltecido pelos poderosos, enquanto a questão ambiental parece ser colocada em um plano secundário. Fala-se incessantemente dos créditos de carbono e, às vezes, lembram que milhares de pessoas morreram, literalmente, de calor em 2003, que animais entram em extinção, que florestas agonizam... A vida do planeta já não parece ser o principal motivo para a preservação ambiental, e sim os dólares, muitos dólares que esta empreitada pode trazer.
O Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), um dos elementos que compõe o acordo, seria uma espécie de comércio de carbono. Os países desenvolvidos que ajudarem a países subdesenvolvidos na geração de energia limpa, como a eólica, solar e biomassa ganham o direito de poluir. O país pobre que implementar projetos ambientais deste parâmetro, ganha créditos de carbono e pode vender esta nova moeda no mercado. Simplificando, o país desenvolvido que quer continuar poluindo, paga para que o país subdesenvolvido não polua. No final das contas, continua-se poluindo em algum lugar.
O debate, a conscientização, a importância da natureza já não são motivos consideráveis para a ação. Preservar e cuidar do planeta não traz lucro. Então, o negócio é relacionar esta questão à grana e futuramente, quem sabe, a cotação de "sacos de ar" na Bolsa de Valores será um negócio rentabilíssimo. E por aí vai... E esta, infelizmente, é a atual lógica. Quem disse que a mídia grande questiona isso? Muito pelo contrário, lota as reportagens de pessoas que enfatizam esta "vantagem".
Fica a questão: luta-se por um desenvolvimento ambiental sustentável ou por um desenvolvimento econômico sustentado?
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