
IGNACIO RAMONET
Diretor do Le Monde Diplomatique.
Manoela Cesar – Como o Le Monde Diplomatique consegue ser independente?
O trabalho no Le Monde Diplomatique é um fato particular. Quando comecei a trabalhar lá eu fazia doutorado. Passei muito tempo trabalhando na imprensa, no rádio... Quando entrei no jornal Le Monde Diplomatique ele era um jornal que pertencia ao Le Monde, que era diário. O Le Monde Diplomatique funcionava como suplemento do Le Monde, não tinha personalidade jurídica e nós éramos um grupo da redação do Le Monde. Começamos a tratar de desenvolver um jornal, e à medida que esse jornal se desenvolveu e começou a mostrar resultados positivos, começamos a pensar em como poderíamos criar uma filial independente. Então, para fazê-lo independente, tínhamos que ter um acordo com o Le Monde. O Le Monde é um jornal muito particular porque também os acionistas principais são redatores, não é um capital externo. Falamos com a direção do Le Monde e dissemos que queríamos 49% do Le Monde Diplomatique, mas não tínhamos dinheiro. Pedimos o dinheiro aos editores e eles mandaram. Com isso criamos uma sociedade de redatores e uma equipe que tinha 24% das ações. Os editores fizeram uma sociedade que tinha também 25%. Com essa estrutura, não há capital externo, não existe patrão de fora e o estatuto diz que o diretor do jornal deve ser eleito pela equipe do jornal, não pode ser diferente. Eu fui eleito por meus companheiros e assim conseguimos fazer um jornal independente economicamente em sua linha editorial.
Breno Costa – Na França existe uma população com um nível de instrução mais alto que no Brasil. Queria saber qual é a relação desse grau de instrução com a possibilidade que vocês tiveram no Le Monde Diplomatique de conseguir que os leitores contribuíssem com dinheiro e se isso seria possível no Brasil, que tem um nível de instrução mais baixo.
Eu acredito que sim, porque no Brasil existe uma população com um nível geral de educação inferior, mas é um país muito mais povoado que a França com 60 milhões de habitantes. O Brasil tem 110 ou 120 milhões. 180? Então, em 180 milhões existe muito mais gente culta do que na França, entende? O que nós fizemos foi explicar aos leitores que queríamos fazer um projeto de imprensa independente e nós dissemos que essa imprensa independente poderia desaparecer. Quando esse tipo de imprensa, indispensável no contexto atual, desaparece, fica difícil. Os leitores entenderam. Se você tem 20.000 leitores que te dão R$ 100,00, você já tem um capital.
Marcelo Salles – Você foi um dos primeiros jornalistas a receber a notícia de que o Chávez havia sofrido um golpe. Qual foi sua primeira atitude?
Eu recebi a notícia do interior do [Palácio] Mira Flores quando Chávez não tinha caído ainda, o que me lembro. Quando a situação já estava quase terminada eu consegui alguns conselheiros que ligassem para a Europa para saber o que estava acontecendo. Na Europa eram 3h, então meus amigos me ligaram às 4h e me disseram que o presidente era prisioneiro em um golpe, mas não se sabia se havia ou não resistência. A partir daí, nós começamos a mobilizar as pessoas. No dia seguinte escrevi para o jornal El País [diário espanhol, considerado um dos melhores do mundo] e para outros jornais. O que escrevemos é que evidentemente se tratava de um golpe de Estado e que Chávez não havia renunciado e que, se não o matassem, seria reclamado pelo povo. Dias depois, ele voltou.
Malu Muniz – A legislação na França é favorável aos meios alternativos de comunicação?
Sim. A França tem uma legislação que, por exemplo, garante que os meios que não têm publicidade não pagam imposto e ainda recebem benefícios do Estado. Existe uma política de ajuda a um tipo de empresa que garante uma pluralidade, porque se não há diversidade da natureza, tem-se que se preocupar com a diversidade midiática.
Bruno Zornitta – Hoje, a mídia não é mais o quarto poder, é o poder. Como disputar a hegemonia na sociedade através da comunicação, como estabelecer uma forma de contra-poder?
Hoje, os meios não são o poder. Eu diria que os meios de comunicação são o segundo poder. O primeiro poder é o econômico, é o poder que mais influencia. Os meios são o segundo poder à medida que são um poder ideológico, os que finalmente determinam se as pessoas serão passivas ao que está acontecendo. Como se pode lutar contra essa situação? Pode-se lutar de muitas maneiras: favorecendo os meios alternativos, favorecendo o observatório internacional, facilitando a denúncia da concentração dos meios e também todas as manipulações em torno dos meios.
Mariana Antoun – O Brasil é um caso radical de concentração de meios de comunicação. Aqui, televisão, jornal e rádio pertencem ao mesmo dono, e são seis famílias que dominam tudo. Temos também uma população sem cultura, com milhões de analfa-betos. Como a gente consegue passar por cima disso, como superar a concentração da mídia?
O que ocorre no Brasil não é excepcional. Hoje em dia essa situação é desgraçadamente geral. À medida que você percorre outros países você encontra uma situação semelhante, em que há dois ou três grupos midíáticos que dominam o contexto.
Acontece o mesmo em escala internacional, tem alguns grupos midiáticos que dominam os meios internacionais, e não só os meios. Tenho explicado nos seminários do Fórum que os mesmos grupos dominam os meios de comunicação, a publicidade, a cultura de massa, o setor de informática, o setor de internet, as editoras, os grupos multimídias. Hoje, são grupos gigantescos que nunca tiveram tanta força. Por isso, o que nós devemos fazer é denunciar toda essa concentração de meios.
A concentração se faz essencialmente pelo fato de que a informação já é uma mercadoria. Há grupos que se interessam por qualquer produto, esse grupo se interessa pela informação que circula seguindo as leis do mercado, da oferta e demanda e não segundo as leis da informação.
Breno Costa – Gostaria de saber sua opinião sobre a venda do Liberación [jornal idealizado por Jean Paul Sartre].
Não é exatamente uma venda. O que acontece é que vai permitir que um acionista estrangeiro compre 37% das ações e se torne o acionista principal. Eu trabalhei no Liberación. Quando ele foi criado era uma espécie de movimento que tinha um pensamento alternativo e o fato de que hoje o acionista principal seja o Grupo Rotshchild é um testemunho da situação decadente que existe na imprensa. Essa compra foi feita com a aprovação da maioria dos membros da equipe do jornal, que deve ter pensado: "Ou ferramos o jornal ou vendemos ao Rotshchild". Se quer uma resposta realista, não quero culpar ninguém, nem mesmo o Rotshchild, de comprar parte do jornal, nem aos jornalistas de vendê-la, o que quero é mostrar a situação da imprensa escrita.
Manoela Cesar – A gente sabe que nenhum jornal é imparcial, porque o Le Monde Diplomatique seria. Eu só queria que falasse da melhor forma de a gente redigir uma matéria que seja o mais isenta possível.
Hoje em dia é complicado ser jornalista porque tem que conhecer muito, tem que saber muitas coisas, porque poderíamos dizer: "Bem, você trata só de cobrir os fatos". Os próprios fatos cobram uma significação diferente por manter uma relação com os outros fatos. Se não se tem uma visão geral do problema, não se pode falar nem sobre um detalhe. Na imprensa existem jornais que privilegiam um tipo de visão sobre outro tipo, tem jornais que fazem só análises, como as revistas, e outros que só fazem reportagens. Eu acho que tem que se fazer os dois. Eu escrevi um livro A tirania da comunicação onde eu falava sobre a "Síndrome de Fabrício". Fabrício estava no campo em uma batalha e no final não sabia quem tinha ganhado a batalha. Às vezes, você está em determinado lugar mas não conhece o problema. Para ver o problema necessita do que chamo de "Visão do Estado Maior". O Estado Maior sabe o que está acontecendo e, por outro lado, o soldado no campo não sabe. Mas ele está no campo vivendo coisas muito importantes, o sofrimento, a morte, o medo... Ele está vendo tudo. Então, para fazer um jornal completo, você tem que dar o sentimento do soldado e por outro lado, a visão do Estado Maior. E está complicado ter essa visão hoje.
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