
CHÁVEZ, MST E A SUBVERSÃO DA HISTÓRIA
Manoela Cesar e Gabriel Pillar
Fevereiro de 2005
A visita do presidente venezuelano Hugo Chávez ao assentamento Lagoa do Junco, em Tapes - município localizado a cerca de 120 Km de Porto Alegre (RS) - foi marcada por uma recepção calorosa por parte do movimento dos trabalhadores rurais sem-terra (MST).
Uma das personalidades mais esperadas desta quinta edição do Fórum Social Mundial, Chávez aproveitou a vinda ao Brasil para conhecer de perto as técnicas agrícolas desenvolvidas pelo MST e reiterar sua posição favorável à Reforma Agrária. A área de oitocentos hectares à beira da Lagoa dos Patos desapropriada em 1995 hoje abriga 35 famílias e virou modelo de agricultura sustentável no país.
Em um discurso informal, Chávez lembrou revolucionários americanos, como Símon Bolívar e José Francisco Abreu de Lima e deixou clara sua posição contrária ao agronegócio e aos transgênicos. Ressaltando a importância da união dos países latino-americanos frente à hegemonia dos Estados Unidos, disse que "ou nos unimos ou seremos liquidados".
Para Chávez, o Fórum Social Mundial é o evento político mais importante da atualidade, e acredita que a partir de agora deva assumir uma postura mais ofensiva. Sugeriu que as próximas edições do Fórum sejam acompanhadas de uma Agenda Social Mundial, apresentando estratégias de poder e contra-hegemonia. "É uma questão de escolhermos o projeto da morte, ou o projeto da vida", ressaltou.
Sobre a possibilidade de realizar o Fórum Social Mundial 2006 em Caracas, Venezuela, Chávez afirmou estar entusiasmado. "O Fórum Social é o maior evento de propagação do saber da atualidade e estaremos empenhados em fazer um encontro à altura do de Porto Alegre", adiantou.
Citando a desapropriação de cinco mil hectares de terras férteis para a Reforma Agrária na Venezuela, Chávez declarou guerra ao latifúndio e disse esperar que a experiência política de seu governo possa servir de modesto exemplo da transferência de poder ao povo. Segundo ele, o principal desses poderes é o conhecimento, e indicou como meta tornar a Venezuela zona livre de analfabetismo em pouco tempo. "Sem conhecimento não somos nada. Não adianta apenas saber ler e escrever. É preciso fazer a faculdade e aprender também sobre a História. A verdadeira História, não aquela que tentam nos fazer acreditar, mas a que nos fará enxergar que, na verdade, a História é subversiva em si mesma".
Ao final, Chávez assinou um acordo de intercâmbio de sementes nativas entre o Brasil e a Venezuela, e plantou a primeira árvore do Bosque Internacional da Solidariedade. O evento, que contou com um rito em homenagem à natureza e pedidos de proteção das águas, teve a participação de cerca de mil agricultores e simpatizantes do movimento sem-terra.
Também estiveram presentes o ministro da Reforma Agrária Miguel Rosseto, o coordenador nacional do MST, João Pedro Stédile, o governador do Paraná, Roberto Requião, além de Ignácio Ramonet, diretor do jornal francês Le Monde Diplomatique.
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