
NAS ONDAS DO ANTI-PETISMO
por Carolina Rangel
Janeiro de 2005
Nas ondas do "antipetismo". Definição para mais uma edição (17 de dezembro de 2004) de Veja. Em suas páginas maremoto e suas causas, conseqüências, mortes e infinitas demonstrações de solidariedade e humanismo globalizado para com os países pobres atingidos. (Aliás, porque esses países pobres são subdesenvolvidos?). No restante da revista, críticas ao governo, estendidas à questão tributária, às dívidas deixadas por Marta Suplicy na prefeitura de São Paulo, à disputa entre petistas para a presidência da Câmara dos Deputados, ao novo avião de Lula e às estripulias de seu filho com amigos na Granja do Torto.
Depois de dois anos escrevendo sobre Veja, confesso, é difícil entender ou acreditar em determinadas afirmações contidas neste manual do neoliberalismo. A solidariedade da comunidade internacional às vítimas do maremoto se auto-explicaria pela causa "natural" e imprevisível da catástrofe, caracterizada como atitude apolítica. A mesma humanização não se aplicaria ao problema da fome mundial, originária de ondas gigantes de desnutridos afetados pela inanição ou morte precoce. A fome faz parte do pacote desenvolvimentista e, portanto, estamos falando de política. Talvez por isso Programas como Fome Zero façam tanto sucesso, apesar de não serem muito prováveis. Projetos badalados desde a Antiguidade e que só trazem de novo o nome. E se esses países atingidos pelo maremoto sofreram maiores danos por serem subdesenvolvidos, de quem é a culpa? Com certeza, de seus governos incompetentes e corruptos como afirma a referida revista. "A ineficiência dos programas de desenvolvimento internacionais reforça a idéia de que a solidariedade só tem efeito quando a pessoa ou o país que precisa ser socorrido também se empenha em ajudar a si próprio". Isso mesmo, esta forma de caridade subvencionada pelo ideal de perpetuação da pobreza e da publicidade internacional aparece como solidariedade, termo de apelo emocional inexorável. Afinal, "O que há no mundo rico, neste momento, é uma genuína disposição para ajudar os mais pobres".
E como entender que uma publicação "antipartidária" defenda os interesses tucanos? As PPPs (Parcerias Públicos Privadas) foram elogiadas na edição de 10 de janeiro como um belo exemplo de parceria tucana com o PT. A desqualificação total da ex-prefeita Marta Suplicy vem acompanhada de uma exemplar imagem de José Serra, seu substituto. Sob as metamorfoses ambulantes, como diria Raul Seixas, da indispensável revista mais vendida do país, eleva-se a ideologia de que os dominadores precisam continuamente alienar e reconstruir sob seus moldes os dominados.
Especial para o www.fazendomedia.com
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