
MÍDIA GRANDE NÃO EXPLICA SEQÜESTRO
O mundo segue sem saber as razões que levaram Antauro Humala a seqüestrar uma delegacia na cidade peruana de Andahuaylas
por Camila Teicher, de Lima (Peru)
Janeiro de 2005
O Peru ainda é um país estranho para mim. Tento olhar e entender o que acontece agora como moradora, como a mais nova peça desse maquinário. A operação da tomada de uma delegacia em Andahuaylas, uma cidade ao sul do país, tornou internacionalmente conhecido um novo personagem: Antauro Humala. Líder do movimento rebelde responsável pelo acontecido, ele foi classificado como terrorista pelo presidente peruano, Alejandro Toledo. A morte de quatro membros da Polícia Nacional e os tiroteios em plena via pública deram o tom de terror. A mídia peruana, declaradamente contra a ação de Humala, deixa no ar a impressão de que ele perdeu o rumo, escapou de suas mãos o controle.
Em Lima, onde estou instalada, a notícia ecoou muito pouco. Fiquei sabendo de história através de mensagens de amigos vindas do Brasil, porque entre os limenhos (ou ao menos entre aqueles com quem convivo) não se ouvia qualquer comentário. Quando trouxe o assunto à conversa, a reação de todos foi mais ou menos a mesma: a presunção quase óbvia de que cedo ou tarde ("talvez hoje à noite") Humala se entregaria. Era impossível não me tranqüilizar com toda aquela segurança. Ainda assim, fui procurar saber mais detalhes, em jornais impressos, canais de tv, rádios. Foi unânime a rejeição a Antauro Humala e seus seguidores. As imagens e narrativas tinham sempre um enquadramento sensacionalista, explorando pessoas ensangüentadas e o pavor da população.
O que pouco se disse dessa história é que Humala chegou a Andahuaylas com cerca de cinqüenta seguidores, discursando contra o governo de Alejandro Toledo e pedindo sua renúncia. Numa cidade pequena e negligenciada, ele conquistou o apoio de parte da população. O que poderia ser algo positivo para Humala, foi exatamente o que desorganizou e dispersou a ação de seus objetivos fundamentais. Para se ter uma idéia, depois de estar rendido, seus seguidores ainda ocupavam a delegacia de Anadahuaylas e mantinham os reféns, provando que a liderança não era tão forte.
Agora, com a situação controlada, já se ouve piadas sobre humalistas nos programas de rádio, as caricaturas nos jornais também exploram o fato, mas alguns dos responsáveis pelas mortes e pelo pavor da população ainda tentam tirar o corpo fora. Os ministros do Interior, Javier Reátegui, da Defesa, Roberto Chiabra, e o presidente do Conselho de Ministros, Carlos Ferrero, receberam diversos relatórios indicando os planos de Humala meses atrás, mas não fizeram nada. Além disso, segundo investigações, nenhum dos oficiais que trabalhavam em Andahuaylas foi avisado ou posto em alerta e, após a tomada da delegacia, houve uma demora na ação dos superiores, incluindo os ministros Chiabra e Reátegui. Existe um movimento por parte da mídia e de alguns membros do governo pedindo a renúncia desses ministros. Mas, se no Brasil tudo acaba em pizza, aqui se brinda com chicha morada, e o assunto já está diluindo, pouco a pouco, até cair no esquecimento.
Especial para o www.fazendomedia.com
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