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Repórter fotográfico do grupo Imagens Humanas. Leia mais

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A MÍDIA GRANDE CONTRA CARLOS LESSA
por Carolina Rangel
Dezembro de 2004

Um homem utópico. Um homem com idéias distintas, denominadas "anormais". Um homem que desejava um projeto desenvolvimentista e nacional. Mas ele foi expulso e considerado louco por seus superiores. Afinal, era preciso adequar-se ao sistema. Com esta finalidade, um governo sofreu mutação, um partido perdeu sua identidade própria. A demissão de Carlos Lessa do BNDES desvendou a opção do atual governo: uma política econômica fiscal e monetária. Como cúmplice, a mídia grande, defensora do neoliberalismo, do poderio do mercado financeiro e de um crescimento econômico que não chegue às áreas sociais.

Para a legitimação desses valores, Carlos Lessa foi acusado pelo governo e imprensa de má gestão, sem a contextualização das tais medidas que teriam caracterizado a sua ineficiência. Porém, uma análise cuidadosa da atuação do ex-presidente do BNDES nesses dois anos mostra certos embates que explicam, em parte, esta visão negativa reproduzida pela mídia. Primeiramente, a não concordância com o método de juros altos para o controle da inflação. O economista e assessor da Presidência do BNDES, Maurício David, confirma: "Essa estratégia de combater a inflação através de taxas de juros muito elevadas pode dar certo. O que nós questionamos é o custo que ela significa para o país, e os resultados que nos parecem medíocres, depois de todo esse período de sacrifício do crescimento econômico brasileiro, desemprego altíssimo e a perda da esperança da população". Os beneficiários são os "rentistas", aqueles que vivem de renda e aplicações financeiras.

O segundo embate reflete diretamente na sua relação com a mídia grande, o Pró-mídia, programa de ajuda às empresas de mídia à beira do poço. Este foi idealizado a partir de um pedido pessoal do presidente Lula no começo do ano. O BNDES, então, elaborou um programa que exigia garantias de pagamento do em-préstimo. O Pró-mídia não vingou. Os grupos de comunicação não gostaram das exi-gências. "O que essas empresas querem, na verdade, é subsídio governamental" - disse Maurício David. Um caso mais sombrio é com relação à Vale do Rio Doce, quando Lessa comprou um lote de ações com direito a voto na Companhia para impedir que uma empresa japonesa tivesse o poder de veto. A presença de estrangeiros facilitaria o controle da Vale por parte da JP Morgan, empresa financeira que não pretende ser mineradora. Assim, Lessa tentou enfrentar o mercado financeiro nacional, a mídia grande e o capital internacional. E como desfecho, o "elemento estranho" foi eliminado do sistema.

Depois da demissão, os jornais não pouparam Lessa, condenando a sua postura crítica. "O ex-presidente do BNDES ainda criticava constantemente a política econômica adotada pelo governo. Além disso, ele apresentou um desem-penho considerado fraco no segundo ano de governo" (O Globo on-line, 18/11/04). O maniqueísmo expresso na definição do comunismo como o mal e o neoliberalismo como o bem impede que as mazelas deste último venham à tona e sejam passíveis de discussões. "A capacidade de se autogovernar está diminuindo. Tudo o que é estratégico é controlado de fora. É como se o país estivesse assistindo ao suicídio do país. Se essa situação continuar, o Brasil enfrentará uma crise de alto custo social". Profecias de Celso Furtado, há quatro anos, publicadas na CartaCapital (01/12/2004). Nunca é demais lembrar que se trata de um intelectual esquecido em vida e exaltado na morte pela mídia colombina.

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