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UMA QUESTÃO DE PRIORIDADES
A falha cobertura da mídia grande sobre os históricos resultados eleitorais na Venezuela e no Uruguai
por Breno Costa
Dezembro de 2004

O último dia 31 de outubro, um domingo, foi de festa nas redações do Brasil. Se havia algo a se reclamar, não poderia ser em relação ao número de pautas. No Brasil, eleições municipais, com a disputa pelo poder entre PSDB e PT tornando-se cada vez mais cristalina, começando a desenhar o quadro da sucessão presidencial de 2006. Nos Estados Unidos, milhões de eleitores indo às urnas com a árdua tarefa de decidir o voto ou em Bush ou no mais novo salvador da pátria, John Kerry.

Mas ainda havia mais pautas - e essas não ficaram tão evidentes para o leitor comum. Enquanto Raul Pont (PT) e José Fogaça (PPS) disputavam voto a voto a prefeitura de Porto Alegre (RS), poucos quilômetros ao sul, uma eleição fazia história. No Uruguai, após 168 anos de domínio de dois partidos conservadores-liberais, um partido de esquerda chegava à presidência da República, através do médico Tabaré Vázquez. E não foi só. A vitoriosa Frente Ampla ainda conseguiu maioria no Senado e na Câmara dos Deputados e, além disso, a população uruguaia aprovou, em plebiscito oficial, a não privatização do sistema de abastecimento d'água.

Na outra ponta do continente, na Venezuela, o governo de Hugo Chávez fortaleceu-se significativamente. Diversos momentos de tensão entre governo e oposição culminaram em um fracassado golpe de Estado em abril de 2002 (com apoio da grande mídia e do governo dos EUA) e no referendo revogatório em agosto deste ano. Após isso tudo, o partido do presidente conseguiu, no domingo dia 31 de outubro, conquistar nas urnas cinco dos oito estados, além de tomar 75% das prefeituras antes controladas pela oposição, incluindo a estratégica Caracas, capital do país e antigo foco dos conservadores alinhados com os interesses os Estados Unidos.

Entretanto, mesmo com a importância mais que simbólica dos resultados na Venezuela e no Uruguai, a grande mídia se comportou timidamente diante do tema. A alegação de que estas eleições aconteceram ao mesmo tempo em que o pleito estadunidense se realizava deixa ainda mais claro uma questão fundamental na cobertura midiática: as prioridades. A América Latina, continente em que se inclui um país chamado Brasil, não possui correspondentes fixos. Apenas Buenos Aires é contemplada com um ou outro repórter da mídia brasileira. Enquanto isso, além de seus tradicionais correspondentes, a Globo manda até a âncora Fátima Bernardes para os EUA, de maneira a cobrir in loco e em clima de festa a eleição do mundo.

Além disso, quaisquer políticas, movimentos e/ou governos que, de uma maneira ou de outra, se posicionem contra a agenda conservadora seguida fielmente pela grande mídia são imediatamente ignorados ou difamados. E isso é verificável nas eleições uruguaias e venezuelanas. Enquanto o pleito uruguaio ainda recebeu um certo espaço nos grandes jornais brasileiros (foram consultados a FSP e o JB), o resultado venezuelano não saiu em nenhum dos jornais. Nas revistas semanais, à exceção de um bom espaço na CartaCapital para as duas eleições, nenhuma das publicações reservou uma única linha para os significativos resultados dos nossos países vizinhos.

Especial para o www.fazendomedia.com

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