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MarceloRipper, eu queria que você contasse pra gente onde você trabalhou e quais movimentos você acha mais importantes, dentro dos trabalhos que você fez.
Eu comecei a trabalhar no Diário de Notícias , no Rio de Janeiro, e na Luta Democrática . Depois eu fui para o Última Hora . De lá eu trabalhei no Estadão carioca e fui para O Globo . Depois eu saí para a Agência F4, que foi um movimento importante para a fotografia brasileira. Depois eu saí para criar o “Imagens da Terra”. Era um projeto de colocar a fotografia a serviço dos direitos humanos. Esse projeto existiu por oito anos; depois a gente faliu e hoje eu estou com um projeto que é o “Imagens Humanas”. E, agora, estou realizando o “Imagens do Povo”, que é um banco de imagens do Observatório de Favelas do Complexo da Maré.

"Acho que nenhum veículo da grande mídia tem esse perfil de querer transformar a realidade"

MarceloDesses veículos que você falou, qual deles você acha que se aproxima mais do modelo de jornalismo que busca transformar a realidade e não, simplesmente, reproduzi-la?
Acho que nenhum dos veículos da grande mídia tem esse perfil. O que você tem, de tempos em tempos, são veículos onde você consegue - pelo esforço de jornalistas - algumas matérias melhores. A gente, os fotógrafos de modo geral, tinha uma simpatia maior com o Jornal do Brasil , com a Folha de São Paulo . Mas eu acho que tem uma alternância. Eu tenho o pensamento que, de modo geral, todos eles mantêm o sistema. Isso aí também é uma coisa que nós, jornalistas, somos responsáveis. Todas as campanhas que eu costumo ver dentro da imprensa são dentro de uma revolução burguesa, de manter privilégios mesmo.

Breno – Por que acontece isso?
Primeiro eu acho que é porque os jornais estão, de alguma forma, ligados a um poder dominante. A gente não tem uma grande tradição de jornal enquanto oposição. A formação dos jornalistas também é deficitária. Há pouco questionamento da competência do jornalista no conhecimento das temáticas sociais e acho que falta uma discussão mais a fundo do que é jornalismo. Por exemplo, eu sou um dos que encampa a campanha “Não leia a Veja ”. A Veja chegou a extrapolar, as matérias da revista têm um teor absolutamente reacionário. Os veículos estão se mantendo numa postura neoliberal mesmo e os temas em que você vai mais fundo, há um questionamento como se fosse algo extremamente radical. Acho que qualquer coisa que for mexer no cerne de uma mudança na estrutura do poder brasileiro, que vá questionar um pouco sobre quem detém esse poder, as posturas serão sempre conservadoras.

Breno – Você falou que os jornais tentam manter um status quo e falou da Veja numa espécie de patamar superior (ou inferior, depende do ponto de vista...) em relação aos outros jornais. Queria saber o porquê desse destaque da Veja.
Eu acho que a Veja, sistematicamente, tem assumido essa postura de matérias absolutamente contra os movimentos populares. Acho que os outros jornais temperam uma postura que, no geral, é de manutenção de uma economia, de um programa de governo vigente. Mas a Veja toma bandeiras da direita de uma forma muito pesada. Eu não confio. Eu tenho um medo muito maior de publicar um material meu na Veja do que nos outros veículos. É claro que se você pegar a Folha , O Globo , o JB , algumas vezes você vê matérias que são politicamente boas, que defendem algumas temáticas sociais, embora eu ache que no bojo eles continuem conservadores. E dentro desse conservadorismo, tem alguns veículos que estão mais à direita. Mas quem extrapolou foi a Veja . A Veja mentiu. Deu matéria que ela não tinha a apuração correta dos fatos. Ela fez denúncias graves contra o MST, que não foram comprovadas.

Marcelo – Só que ainda assim a Veja continua sendo uma das mais lidas. E, dessa forma, a que mais influencia a opinião pública. E se esses argumentos forem mostrados para esse público que lê a Veja , certamente eles serão imediatamente refutados. Como a gente faria para ganhar esse?
O que a gente tem que fazer é voltar a discutir muito a ética na profissão, a postura do jornalista. Acho que quando surge um movimento “Não leia a Veja ” é porque setores da categoria e da sociedade resolveram dar um grito. As campanhas valem independentemente do poder de contra quem você grita. É claro, essa campanha não vai fechar a Veja , mas acho que é um grito de alerta.

Marcelo – No Fazendo Media, a gente assume uma linha editorial muito clara, que é questionar a mídia colombina, por essa ideologia de reprodução do sistema. Muita gente diz que a gente critica todo mundo e, portanto, não vamos ter onde trabalhar. Então, o segredo seria ficar quieto para poder sobreviver?
Isso reforça um discussão: “Bom, e aí? O que tem no mercado serve para eu trabalhar e ficar em paz com a minha consciência, me achar feliz?” Essa que eu acho que é a grande coisa. A gente trabalha porque acredita no ideal, porque gosta do trabalho. E o trabalho do jornalista tem que ser transformador e a gente vai ter que buscar isso, cada um dentro do seu grau de consciência, sem medo de se vai conseguir estar empregado ou não. Eu acho que as pessoas devem trabalhar em qualquer veículo de comunicação e devem tentar ter uma postura absolutamente íntegra lá dentro e nunca fazer uma fotografia contra a sua consciência. Agora, eu acho que o jornalista vai ter que caminhar para uma discussão onde ele busque alternativas, ou vai continuar num processo muito subserviente.

Breno Na época da campanha das Diretas Já , quando você trabalhava no Globo , houve uma certa polêmica. Explica aí pra gente...
O que acontecia é que a gente via o aproveitamento do nosso material de uma forma muito reacionária. As pessoas na rua questionavam o fotógrafo, o jornalista do Globo, e a gente se reuniu e decidiu usar a teleobjetiva nas manifestações e não usar a grande angular, para que as imagens viessem mais compactadas, pudessem mostrar força e tivesse um cuidado de não sobrar espaço para outras imagens serem utilizadas. E a gente logrou um êxito grande na passeata dos Cem Mil, na avenida Rio Branco. E é claro que a partir daí o jornal tomou alguns cuidados para em outras manifestações, inclusive na grande manifestação na Presidente Vargas, fazer com que os fotógrafos mostrassem, desde o início, como estava a avenida, mesmo antes do ápice da manifestação. Esse foi um dos movimentos que rolou e se conseguiu fazer mudanças lá dentro. Eu acho que o que está faltando é uma retomada de movimento.

Breno – Pois é, no Globo vocês conseguiram mudar a situação através da união dos jornalistas. Nas grandes redações, hoje em dia ainda existe essa manifestação de união em torno dessas questões, de tentar fazer o jornalismo de uma maneira mais ética?
Acho que esfriou muito. Você teve alguns movimentos isolados. No grosso da categoria, principalmente entre os fotógrafos, acho que a coisa está muito morna, não tem nenhum movimento ativo fervendo hoje.

Breno – Vocês estão desenvolvendo um projeto de fotojornalismo na favela da Maré. Exatamente por estar na favela, tão em voga na mídia hoje em dia, associada à violência, à marginalidade, o que você vê lá e que a mídia não mostra?
A inclusão. O enorme esforço que ONG's fazem para criar alternativas de educação, como pré-vestibulares. Uma luta muito grande por parte daquelas pessoas por criar o que o Estado não coloca lá dentro. E, também, um caráter solidário muito grande, que você não vê na cidade formal, a solidariedade, o companheirismo. É uma força de trabalho muito grande, de reagir, de estar fazendo, batalhando para estudar. Você hoje anda por dentro da favela e vê as pessoas todas participando, querendo fazer coisas, trabalhar, buscar empregos, fazer cursos, se engajar em projetos... A vida ferve e eu não vejo isso sendo mostrado. E também se circula por dentro da favela sem o medo que se implantou de uma forma tão forte através da mídia. Há o abuso quando o Estado está presente negativamente, como é o caso da polícia. A polícia hoje faz absurdos que, se ela agisse assim dentro da cidade formal, talvez a nossa sociedade virasse até uma sociedade revolucionária. A polícia chega a vender pessoas. Chega a caçar, literalmente, alguns rapazes, baleá-los, colocá-los dentro do carro e levar a setores que têm outros comandos e vender. Esse clima de pressão e de desrespeito com as pessoas que ocorre por parte da polícia dentro das favelas é uma presença abusiva do Estado, é errado...

Breno – Os moradores das favelas têm consciência dessa pressão sofrida pelo Estado através da PM. Mas eles têm consciência da discriminação que eles sofrem da mídia?
Eu acho que grande parte deles têm. Eu não tenho uma pesquisa sobre isso, mas com os alunos, a gente tem certeza de que há um questionamento da forma como é feito. E o nosso curso mostra como tem saído as imagens de favela por aí afora. Toda informação que chega pra eles é essa informação já filtrada, que leva para dentro da favela um discurso de exclusão. É terrível porque você vê que esse tipo de informação tende a fazer a cabeça dentro de qualquer comunidade, embora você tenha muita gente que questione essa forma.


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