
MENINOS INTELIGENTES, RECURSOS MALUQUINHOS...
por Manoela Cesar
Julho de 2004
Imagine um jornal onde você possa ler entrevistas como quem participa de um bate-papo de bar, onde sentados estão os maiores pensadores do país, discutindo questões sociais, políticas e paixões, como quem desabafa com um amigo... Imagine que neste jornal suas páginas não tragam fotografias, mas a criatividade dos desenhos e caricaturas de um famoso escritor e desenhista infantil, coisa do tipo “padrão Ziraldo de qualidade”. E que você ainda tenha espaço para publicar suas charges e textos, recebendo o mesmo respeito destinado aos “feras” que assinam as colunas do veículo.
Agora pare de imaginar, porque cabeças pensantes como você já sacaram que esta seria uma idéia genial para democratizar a informação no país e fizeram um jornal assim! Mas, imagine só, se o Brasil não desse valor a esta iniciativa e o jornal tivesse que acabar por falta de recursos, em menos de dois anos de existência? Pode parar de imaginar, de novo... Porque, por mais absurdo que nos possa parecer, foi exatamente isso o que aconteceu!
Na última edição do Pasquim 21 - projeto de Ziraldo, liderado pelo irmão e jornalista, Zélio – uma carta que trazia a mesma tristeza de quem reconhece que, por melhores que sejam as intenções, é impossível realizá-las sem apoio, Zélio anunciou o fim do “Pasca21”. A aventura precisou ser interrompida. “No início dela, projetei nossa empreitada para uma jornada de pelo menos cem anos, mas não deu, tivemos que nos contentar com cento e tantas semanas [117 edições], tais foram as pedras, tropeços e inesperados nesta longa manhã ensolarada”, escreveu Zélio.
Os motivos para que mais uma mídia alternativa tenha chegado ao fim? Os mesmos que já estamos acostumados a ouvir. “Não tínhamos como continuar, o mercado nos engoliu”, explica ele, em meio a um balançar de cabeças, seguido de um desabafo: “Infelizmente, o Brasil não comporta um Pasquim”. Triste? Muito, mas longe de desanimar esta equipe que mira alto e que não se acomoda diante das dificuldades impostas pela falta de um governo que enxergue nos meios de comunicação de qualidade - isto é, onde notícia não é mercadoria – um meio de produzir cultura e tecnologia, “os únicos bens que fazem um país se desenvolver”, como afirmou um outro mochileiro dos sonhos, o cineasta Walter Salles Jr.; ao contrário, para esta equipe, o fim da linha é visto como um estímulo para a invenção de outro caminho, quem sabe até mais interessante. O anúncio já foi feito, dois almanaques até agosto e uma nova revista, com o inusitado título ABZ. “Está em nossos sonhos uma revista para balançar. Pra muito breve, se as coisas correrem como devem”, adiantou.
Enquanto aguardamos, podemos usar o tempo para refletir. Por que um país que tanto precisa de cultura não apóia uma publicação que fervilha criatividade e questionamento? O que acontece com o governo de esquerda que financia crédito para as mídias grandes, fábricas de bestialização, e não concede patrocínio aos que ainda se dispõem a trabalhar, muitas vezes de graça, por uma mídia democrática?
Mais uma vez, o mercado engoliu a qualidade na informação. Mais uma vez, pessoas que lutavam por uma comunicação democrática desmontam a barraca, sacodem a poeira e buscam uma nova trilha. O lado bom desta história é que estes meninos são maluquinhos o suficiente para recomeçarem tudo de novo! E nós, inteligentes o suficiente para apoiarmos esta idéia... Ou não?
Matéria publicada na edição # 19 do FM impresso

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