
Continuação
RUBENS VALENTE - Repórter investigativo da Folha de S. Paulo
O banco existia pra remessa de recursos pro exterior, por meio de laranjas ou fantasmas. Mas o Banestado ganhou essa dimensão porque a fraude no caso era grosseira. Só que existem outras remessas feitas nos canais oficiais, milhões e milhões de dólares, que também demandariam uma investigação. Grandes empresas que operaram em grandes bancos: Bradesco, Itaú, BB... Nada disso está sendo questionado pela CPI. Nada. Ela está se concentrando no Banestado e ponto. Mas a CPI é sobre o esquema de evasão de divisas do Brasil. Nessa área [das garndes corporações], o que eu cheguei a fazer, junto com o Jairo, que trabalha comigo, e outros colegas, foi um estudo. Nós pegamos as 500 declarações de contribuições de campanha de todos os deputados federais. Nós separamos por doadores e depois por setores. Setor de papel, de alumínio... E aí a gente tentou entender os interesses deles. Por que determinado setor investia em tal deputado? E achamos vários casos de pessoas citadas em CPI, como a dos Medicamentos, que doaram para o deputado que era o relator da matéria. “Agora vamos ver se essas empresas que doaram tinham matéria de interesse dela em tramitação na Casa e se esses deputados votaram com essa empresa”. Votaram. E pior, apresentaram projetos que interessavam a elas. Um caso que eu me lembro bem foi o que a gente chamou de “lobby da arma”. Existia um projeto de lei que combatia o desarmamento. E havia o projeto de lei do desarmamento, cujo relator era o dep. Alberto Fraga. O maior doador do Fraga foi a Companhia Brasileira de Cartucho. E uma lobista chamada Estela nos ajudou. Ela explicou pra mim que metade do dinheiro vinha direto das empresas de armamento. A outra metade vinha de uma empresa de geração de energia, chamada Enguia. “A Enguia tem capital de uma holding italiana, que investe nas empresas de armamento e na geração de energia”. Ou seja, é a mesma holding. “Na reunião que teve, foi decidido: ah, vamos dar um pouquinho pela indústria de armamento e um pouquinho pela energia”. E uma das que recebeu, pela Enguia, foi a Denise Frossard. Pagou R$ 80 mil. Ela é a musa do desarmamento, a musa da segurança pública. E recebeu dinheiro do armamento, embora disfarçadamente.
“Na reunião que teve, foi decidido: ah, vamos dar um pouquinho pela indústria de armamento e um pouquinho pela energia”.
M - Lá nos Estados Unidos as linhas editoriais dos jornais ficam claras para o público e aqui no Brasil existe o tal mito da imparcialidade. Aí as grandes corporações anunciam adoidadas e acaba caindo nisso que você falou, eles não vão investigar. Vai investigar quem está anunciando?
É difícil eu avaliar a política do jornal. Eu não tenho elemento pra isso... Eu tenho elemento como leitor. Eu nunca ocupei um cargo de chefia, de destaque, que eu possa revelar o que está acontecendo. Eu posso imaginar que existam pressões, há pouco interesse em relação às grandes corporações. Já ouvi casos assim, de colegas que tiveram matérias censuradas.
B - Pode citar um exemplo?
Não me recordo em detalhes, sinceramente. Sei que era algo envolvendo a vida pessoal de um banqueiro e o jornal não deu. Mas isso aí vocês vão ouvir mil histórias.
B- Isso meio que já prova essa tese de que o anunciante exerce pressão direta... Bom, você falou do Banestado, mas a gente lendo os jornalões, é raro a gente ouvir falar do caso, e está tendo uma CPI, ou seja, é um assunto “oficial”, não é um boato. Por que ninguém fala?
Ah, esse tema é bom. Tenho um razoável conhecimento do tema, porque eu fiz várias matérias. O Palácio do Planalto exigiu que essa CPI não desse em nada. Reza pra que não dê em nada. O Planalto, desde o começo, foi contrário à CPI e moveu os céus para que não saísse e colocou uma pessoa pra relatá-la chamada José Mentor, que é um homem afinadíssimo com o José Dirceu.
M - Mas por que o Palácio do Planalto teria interesse em impedir a CPI?
O Palácio tinha medo que essa CPI chegasse a um terremoto econômico no Brasil, pois ela mexe com uma coisa muito complicada, que é o total descontrole do fluxo de capitais. A coisa é tão escandalosa que existem pessoas que mandaram milhões de dólares pra fora que não declaravam imposto de renda. Outras pessoas não tinham capacidade pra movimentar dinheiro. Essas operações eram e ainda são comunicadas on-line ao Banco Central. O BC sabia que aquele cara, naquela cidade, estava movimentando X. Só que o BC não comunicava à Receita. Então, o que ocorre? O total descontrole do fluxo de dinheiro. Essa CPI vai caminhar, se chegar a algum lugar, para isso. É preciso saber quem está operando os canais oficiais do banco.
M - Por que o Banco Central não comunicava à Receita?
Boa pergunta. Não comunicava, não informava. O BC dizia que não era obrigado a comunicar à Receita. Não há lei que obrigue. Eu entrevistei o delegado Queiróz, que cuidou de toda a primeira fase da investigação, trabalhou dois anos em Foz do Iguaçu. Ele disse: “Rubens, não são só 30, são 120 bilhões de reais. Hoje eu tenho certeza e, desse valor, 90% é corrupção, não é tráfico”. Quer dizer, o problema todo em volta da CPI é que, aparentemente, havia operações que envolviam petistas, compras ligadas ao PT. Então, o PT tinha medo até onde isso podia caminhar.
B - E pode caminhar ainda?
Pode não... A CPI está morta. Eles colocaram esse sujeito chamado José Mentor, que está abafando a CPI inteira. Não deixa rolar, ele tumultua, não deixa quebrar sigilos... Eu não cubro a CPI dia a dia. Por aqui, em São Paulo, eu tento fazer algo e eu acho que a gente deu muito pouco em relação ao que merecia. A cobertura da CPI do Banestado é insuficiente, é ridícula. O tema merece muito mais.
M - E essa lei da mordaça que o governo do PT está queremos implantar no Ministério Público? Vai ser aprovada?
Acredito que ele não vá conseguir. É uma briga terrível. O MP, com a Constituição de 88, conseguiu uma grande autonomia, é respeitado pela sociedade. A imprensa também não vai relaxar sobre isso.
M - Cita um caso em que o repórter desconfiou de determinada coisa e fez a matéria, sem se prender ao MP.
Há grandes repórteres que estão na linha de frente da cobertura, são grandes trabalhos que eles fazem. Amaury Ribeiro Jr., da Istoé, um dos grandes repórteres investigativos, levantou muita coisa. Tem o Chico Otávio, do Globo, com quem eu trabalhei dois anos. Grande cara. Investiga, procura trazer à tona as coisas. Ele retomou a questão do Riocentro, fez uma matéria longa sobre os números da LBV, do Paiva Netto, desvio de dinheiro. Foi um trabalho nosso, de investigação. Tem o Frederico Vasconcelos, na Folha. Ele, em 1999, questionou o patrimônio de dois desembargadores do Tribunal Regional Eleitoral. É um tabu ainda no Brasil mexer com o Judiciário, porque ele tem a força da caneta pra condenar. E o Frederico fez esse trabalho que culminou na Operação Anaconda. Então, nesse tipo de cobertura, a responsabilidade do jornalista triplica. Porque o que! eu estou escrevendo não há ninguém que vá sustentar. É um trabalho difícil, mas esse tem que ser o futuro da imprensa.

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