
RUBENS VALENTE - Repórter investigativo da Folha de S. Paulo
Marcelo - Você começou aonde?
Comecei em 1989, com 19 anos, em Campo Grande, num jornal chamado "Diário da Serra", que era da rede Diários Associados, do Chateubriand. Em 89, era o Cid Varela o responsável, braço-direito do Chateaubriand. Comecei na Economia, onde fiquei um mês, depois na Polícia, onde fiquei 2 anos, como repórter e editor. E lá não tinha muita margem de atuação, como na imprensa de todo o Brasil.

"Com exceção do eixo Rio-São Paulo, a censura é muito grande. Quando se fala que a censura acabou no Brasil eu dou muita risada. A censura existe em todo o Brasil, é presente todo dia, econômica e política."
Na imprensa nacional há um outro tipo de censura que nós podemos debater aqui. Trabalhei no Globo, na Folha, no JB e na Veja. Posso dizer que eu fui censurado assim: "Ó, não vai sair isso aqui...". Ocorreu uma vez num desses veículo aí e envolvia o presidente Fernando Henrique. Isso foi em 2000. De qualquer forma, acabou saindo a matéria, mesmo depois desse “não”, 9 meses após. No mesmo veículo, na página 32. Não era a matéria que eu tinha feito. Eu tinha feito 6 matérias sobre o tema e essas 6 viraram duas. Fizeram uma maçaroca.
Breno - E a matéria envolvia o FHC em quê?
O FH tinha usado dinheiro do SESI para reformar o hospital de Ibiúna, que é a cidade dele, por R$ 2 milhões. O SESI nunca reformou hospital na história. Eu tinha gravado com o prefeito, com o secretário de Saúde, com o SESI. Todos admitiram: "Fernando Henrique fez uma ligação para o SESI pedindo que ele arrumasse o hospital". Não é uma matéria bombástica, mas mostra o tráfico de influência e a mulher que comanda o SESI é esposa do Albano Franco, que estava articulando toda a rede de governadores de apoio ao FHC. Mas tirando esse episódio a gente pode discutir outras formas de censura, como a autocensura, censura econômica...
M - Mas como é que funciona esse negócio de autocensura?
No meu caso a autocensura ocorre por falta de recursos financeiros, tempo... Você sabe que existe algo e decide se dedicar a isso durante dois meses. Eu penso, eu analiso as condições. Será que eu vou conseguir documentar isso? Aí eu avalio: não, não vou. Então eu nem vou. É uma autocensura.
M - O primeiro veículo grande em que você trabalhou foi a...
A Folha, a Agência Folha. Eu entrei em 97 lá em Cuiabá, onde eu pude desenvolver umas coisas. Foi bem interessante. Entrei convidado. Aí eu pedi demissão porque o Jornal do Brasil me convidou e fui pra lá, trabalhando em São Paulo. Aí aqui o Globo me convidou. Trabalhei dois anos. Aí saí do Globo e fui pra Veja. Fiquei um mês e meio.
M - Gostou?
[Risos] Fui bem tratado. Mas como eles tratam a apuração, eu nunca ia me adaptar a isso.
B - Como é que é?
A apuração deles é assim: na verdade, tem várias pessoas trabalhando em cima de um tema. Aí eles reúnem isso, alguém escreve. No meu caso, não era eu quem escrevia.
B - A matéria final? Não era ninguém que apurava?!
No meu caso, não.
M - Como leitor, de que maneira você vê essa cobertura da Venezuela pela Folha?
Não tenho elementos para avaliar, cara. Acho que, como tudo no Brasil, tá faltando gente pra cobrir no exterior, não só na Venezuela, mas em toda a América Latina. Hoje nós temos um correspondente em Buenos Aires. Só, pra toda a América Latina. Os jornais estão enxugando, eles não têm condições de acompanharem in loco essas crises, o andamento de cada país. Essa questão do crime organizado, por exemplo. Fala-se muito da violência em São Paulo, nos morros do Rio, mas não tem ninguém cobrindo o crime organizado na Colômbia, que é o grande financiador do crime organizado no Brasil. Eu entrevistei um delegado da Polícia Federal na região e ele disse que há vinte brasileiros hoje baseados na Colômbia, com exército particular, vendendo coca para os morros do Rio de Janeiro. Eles não têm o nome do Fernandinho Beira-Mar, não são midiáticos. Mas estão lá, produzindo e estabelecendo essa ponte. Então, como é que você vai conseguir discutir o crime organizado no Brasil se você não entende a Colômbia? E nenhum jornal brasileiro tem alguém na Colômbia. Pra mim é um escândalo. As informações que a gente consome são as das agências internacionais, que têm um viés político-ideológico americano. Hoje, o governo colombiano está afinado com o governo americano. O ideal é um observador brasileiro. Então, a imprensa se queixa da falta de recursos. Não consegue ter alguém lá pra cobrir essa realidade. Então, eu sempre leio as notícias com um pé atrás, né? Para fazer um bom jornalismo, você precisa de muito dinheiro.
B - Mas os jornais não correm o
risco de cair num círculo vicioso? Porque tem essa queixa da falta de recursos e a gente sabe que a maior parte dos recursos dos jornais vem dos anunciantes. Isso não pode acabar afetando a apuração, contrariar interesses?
Eu acho que, sem dúvida, há influência. Isso aí é negar o óbvio. Mas, agora, eu, pessoalmente, nunca recebi ordens de “não escreva isso, não faça isso”. Agora, o que eu percebo é que temas que deveriam ser melhores destrinchados, que envolvem grandes corporações, não o são.
B - No seu caso, você sabe de algum caso envolvendo grandes corporações e que não pôde ser publicado? De alguém ter tentado e recebido um “não”?
Não, não. O que eu percebo é que há uma pouca atenção à cobertura das grandes corporações. Você pega aí o escândalo do Banestado, por exemplo. As operações que o Banestado realizou por contas CC-5 são mínimas perto do que o Banco do Brasil, Itaú e Bradesco fizeram. Há relatórios e relatórios sobre isso.
B - O Banestado é considerado o maior roubo da história do Brasil... Dinheiro mandado ilegalmente para fora do país, né...
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