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DEZ ANOS DE REAL: O ELOGIO DA LOUCURA
Ignorando a realidade, O Globo mostra apenas um lado do Plano
por Marcelo Salles
Julho de 2004

Clique para ver a imagem ampliadaPara comemorar os 10 anos de Plano Real, a mídia colombina não economizou espaço. O Globo, por exemplo, reservou 40% de sua primeira página do dia 27/6 ao tema, incluindo aqui uma foto de alunos definidos pelo jornal como “uma geração de brasileiros que sabe o valor exato do dinheiro”.

Mas a manchete era apenas um aperitivo. O elogio da loucura começaria mesmo no caderno de Economia. A repórter Flávia Oliveira assina, à página 35, uma matéria daquelas de fazer inveja à revista Veja. Título: “Os filhos da estabilidade”; subtítulo: “Geração que cresceu nesta primeira década do Real dá aula sobre vida sem inflação”. Fica fácil perceber a opção da jornalista em retratar apenas um lado da realidade.

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Todo o alto da página e parte abaixo da dobra são dedicados a enaltecer o Plano que “pôs no mundo uma geração de crianças imunes ao vírus da inflação”. Ou seja, um remédio que elimina esta doença tão grave pode ter qualquer efeito colateral. A foto que ilustra a matéria mostra crianças de 12 a 15 anos exibindo, sorridentes, notas de R$ 1. Aliás, essas crianças foram usadas ao longo de todo o texto para embasar o “realismo” da jornalista. Uma infantilidade, diga-se. É possível ler aspas do tipo “cruzeiro é coisa da época da minha avó”, ou “a gente não podia economizar dinheiro, porque ninguém podia saber o preço”. Declarações vazias, óbvio. Mas que estão de acordo com a idéia defendida por Oliveira.

A propósito, eufórica com a possibilidade de substituir Miriam Leitão como porta-voz velada do FMI na mídia colombina brasileira, Flávia Oliveira deposita suas esperanças ao final da primeira parte, quando abre espaço para uma aluna de 13 anos: “Se isso [inflação] voltasse a acontecer hoje seria um choque muito grande”. Ou seja, se está ruim, pode ficar pior. Basta não seguir as regras do senhor mercado. Não é coincidência alguma a comparação com declarações de representantes do FMI, como por exemplo: “O Brasil avançou muito, mas ainda precisa manter o esforço”.

Num tempo em que um em cada cinco brasileiros está desempregado, os juros pagos aos especuladores alcançam níveis estratosféricos e a economia do país apenas patina, bem que a Flávia poderia nos mostrar onde fica esse Brasil que ela enxerga. Talvez assim as filas (do INSS, do emprego, da loteria, da depressão, etc.) que a gente vê quando anda pelo centro da cidade se diluíssem um pouco.

“Não privemos o ser humano daquilo que lhe dá maior prazer: seu infinito poder de se tornar ridículo”
Erasmo de Roterdã, comentando sua obra “O Elogio da Loucura”

Artigo publicado na edição # 19 do FM impresso

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