MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE UM NACIONALISTA
No elogio fúnebre de Brizola, a Globo dá uma versão imprecisa dos acontecimentos
por Malu Muniz
Junho de 2004

A manicure Ester Gomes não entendeu o porquê de tanta comoção em torno da morte do ex-governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola. Não foi a única, certamente. A amnésia e a deturpação assolam as páginas do jornalismo de mercado, distorcem a História e mantêm os leitores alheios aos fatos que marcaram épocas e gerações inteiras. A despeito dos erros, que não podem ser sobrepujados por um eufemismo fúnebre, Brizola é especialmente merecedor de reconhecimento em virtude da sua relação de cumplicidade e, ao mesmo tempo, de oposição com a mídia.

A “Cadeia da Legalidade”, movimento liderado por Brizola no Sul do país em 1961, constituiu-se na ocupação militar das rádios Guaíba e Farroupilha e no comando de 104 emissoras de rádios regionais em defesa da posse de João Goulart, vice de Jânio Quadros (fonte: FGV). Consideremos em paralelo que hoje em dia é escandalosamente abafado o uso dos meios de comunicação feito pelos políticos para a simples autopromoção. Assim, nesse e em outros episódios, Brizola utilizou-se do principal meio de comunicação da época para informar a população acerca de um golpe contra a legitimidade que anos depois tornou-se inevitável.

O jornalista Paulo Markun afirmou, em entrevista ao Uol News, que o segundo golpe evitado por Brizola se deu durante as eleições para governador do Rio, em 1982. “O jornal O Globo e a TV Globo faziam parte desse golpe. E, no elogio fúnebre de Brizola, a Globo dá uma versão imprecisa dos acontecimentos”, afirma o jornalista. Ele refere-se ao polêmico caso do Proconsult (ver “Leonel Brizola: alívio do Jornal Nacional”, na pág. 3).

Em outro episódio do embate Brizola x Globo, Cid Moreira leu no Jornal Nacional, em cumprimento a uma decisão judicial, a nota de resposta do político: “Não reconheço na Globo autoridade em matéria de liberdade de imprensa, e basta para isso olhar a sua longa e cordial convivência com os regimes autoritários e com a ditadura de 20 anos, que dominou o nosso país. (...) Todos sabem que critico há muito tempo a TV Globo, seu poder imperial e suas manipulações”.

Ao contrário do obituário publicado pela revista Veja, o nacionalismo que caracterizou a trajetória política de Brizola não é um conceito já sepultado. Aceitar essa versão significa invalidar toda uma trajetória em defesa da soberania nacional. A morte, entretanto, não deve inocentar o político de suas más escolhas e alianças, em especial nos anos que sucederam a anistia política. O apoio à permanência do general João Figueiredo no poder e - até o último instante - a oposição ao impeachment de Collor, é encarado pelos mais tolerantes como uma face conciliadora do Brizola pós-anistia. Errado. De fato, as ‘memórias póstumas’ desse personagem apresentam passagens que devem suscitar questionamentos, e outras tantas - a atuação junto à imprensa é uma delas - a serem ressaltadas para as novas gerações, mal informadas a respeito daqueles que verdadeiramente merecem destaque na grande mídia.

Matéria publicada na edição # 18 do FM impresso

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