Continuação
CHICO ALENCAR - Deputado Federal (PT-RJ)

Junho de 2004

Pois é. Outros, com mais sinceridade dizem que, na verdade, é pressão dos próprios canais de TV aberta, que até ameaçam dizendo o seguinte: “Tudo bem, se vocês entrarem no nosso espaço aqui, para ser concorrente, ainda que a gente não tenha dúvida que a audiência não vai ser grande, mas é uma opção a mais, a gente simplesmente não noticia mais o que rola no Senado e na Câmara nos nossos jornais”.

MarceloQuem disse isso?
Foram os representantes das emissoras de TV aberta. Haveria - eu não posso afirmar isso porque nunca ninguém me disse isso – também esse tipo de pressão sub-reptícia, sutil, nesse sentido. Não querem concorrência, mesmo a gente sabendo que não terá uma grande audiência. Ainda assim, tudo que é canal novo é uma certa ameaça.

Breno – Na nossa página na Internet a gente faz uma campanha pela “CPI da Mídia – A caixa-preta das caixas-pretas”. Então, eu queria saber qual a viabilidade de algo desse tipo, considerando os interesses envolvidos...
A viabilidade é pequena porque, lá no Parlamento, ninguém quer ficar mal com a mídia. Mas a idéia é muito interessante, porque você vai começar a pesquisar até a constituição de algumas grandes empresas de mídia aqui, que têm vários pecados originais aí na sua gênese. A grande luta – e eu imagino que uma CPI dessa fosse um instrumento poderoso e positivo nesse sentido – é pela democratização dos meios de comunicação. Sem isso não vai ter democracia no Brasil. Antigamente se dizia o seguinte: quem manda na região manda na religião. Hoje dá pra dizer: quem manda nos meios de comuniicação manda na nação.

Breno – Pois é, você disse que os parlamentares não querem ficar contra a mídia, não querem criar problemas com ela. Mas eles são eleitos pelo povo e, pelo menos teoricamente, eles têm que representar os interesses da população, do povo de uma forma geral. E acredito que seja interesse do povo – posso estar generalizando – saber o que acontece na mídia, nos seus bastidores. Então, os parlamentares não querem ficar contra a mídia, mas acabam ficando contra o povo. Não é um contra-senso?
É, hoje em dia, numa sociedade de massas, se você tem uma má imagem na mídia isso te desgasta. Os meios de comunicação precisam ser democratizados. O meu amigo Frei Betto disse que domingo é o “Dia Nacional da Imbecilização via TV”, por causa daqueles programas todos.

Breno – Mas, essa luta pela democratização dos meios de comunicação não deveria ser uma luta vital do Congresso Nacional?
Claro que sim, mas aí você tem que obter esse compromisso do parlamentar antes de ser parlamentar, ou seja, dos candidatos. Saber deles como vêem a mídia, que papel enxergam para ela, como eles a concebem.

Porque a maioria não tem nenhuma reflexão sobre isso, não tem a menor visão crítica sobre os meios de comunicação.

Marcelo – Tem os que são donos também...
Isso é uma coisa importantíssima. Os grandes caciques da política brasileira, e eu me refiro a ACM, a Sarney, só pra citar dois famosos, também controlam televisões - em geral repetidoras de emissoras nacionais de grande peso, como a Globo - jornais e rádios nos seus estados.

Marcelo – A grande pergunta que se faz hoje em dia é essa: o Lula, nesse go-verno de conci-liação, está fazendo uma administração tendo em vista se consolidar no poder pra depois fazer valer a sua história, ou você acha que não, que ele realmente já teria sido cooptado pelas nossas classes dominantes?
Como temos 1/3 da caminhada até agora, nós do PT ainda temos esperança de que essa disputa dentro do governo possa nos indicar o caminho de uma política radicalmente democrática, com distribuição de riqueza e renda, reduzindo a exclusão, a violência. E assim termos uma nova postura em relação aos organismos financeiros internacionais. E se isso não der certo a frustração vai ser muito grande. Não teremos como sucedâneo um governo efetivamente de esquerda, mas um desencantamento enorme e, provavelmente, a velha direita de volta. Essa situação vai chegar a um ponto de conflito, de definição total do governo. Ou ele vai ser uma continuação do governo Fernando Henrique ou vai ser um governo de alteração do quadro. Agora, isso não depende só do governo. Isso depende também dos movimentos sociais, das lutas... Temos é que estar em marcha.

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