CHICO ALENCAR - Deputado Federal (PT-RJ)
Junho de 2004

"A grande luta
é pela democratização dos meios de comunicação"

Com estas palavras o deputado federal Chico Alencar (PT-RJ) comenta a proposta de se criar uma CPI na Mídia. Quando perguntado sobre o porquê de a TV Câmara e TV Senado não serem veiculadas em sinal aberto, ele revela que existe uma pressão dos representantes das TVs comerciais sobre o Congresso Nacional. Chico também critica a indução à despolitização e ao consumismo promovido pela mídia grande, além de reconhecer o poder do Jornal Nacional e da própria Rede Globo sobre a esfera política. "Ele sabe [o governo Lula] que ser sempre bem tratado pela Globo lhe dá condições de governabilidade bastante grandes".

MarceloChico, como é sua relação com a mídia grande?
Bom, para mim que sou o que chamam “parlamentar de opinião”, que constrói sua atuação pública a partir da ideologia, de correntes de pensamento, os meios de comunicação de massa são fundamentais. Sou um dos parlamentares – considerando os 46 deputados federais do Rio de Janeiro – que tem mais presença na mídia. Também não é nenhum favor não. Eu me dedico, tenho uma atuação forte.

Breno – E em relação às políticas que você defende?
É claro que as causas que a gente defende, as editorias, que são responsáveis pelas grandes linhas dos jornais ou dos telejornais, elas não aprovam. Claro que toda a grande imprensa apoiou a Reforma da Previdência, toda a grande imprensa também não tem a menor emoção em relação a um salário mínimo maior. Não há nenhuma simpatia com causas de transformação social, com o MST, por exemplo, que sofre de alguns jornais um combate sistemático, violento, de desqualificação desse movimento social. Os interesses da mídia aparecem na forma de você colocar as matérias, de dar o destaque, de fazer o lide, de enfocar determinados assuntos dentro daquela matéria geral... Tudo isso é muito bem urdido.

Breno – E que interesses são esses?
Olha, são os interesses dominantes; os interesses do grande capital, o interesse do empresariado, o interesse do chamado status quo, da manutenção e preservação dessa ordem estabelecida.

Breno – Mas, em linhas gerais, o que define as linhas editoriais são interesses ideológicos ou comerciais?
Ideológicos e comerciais. Claro que o objetivo de toda empresa jornalística, para além de informar, é se reproduzir como tal, como empresa jornalística. É ter lucro, é expandir, é ter mais leitores e anunciantes, mais financiamento para a sua produção, que é a produção desse bem material que é a notícia.

MarceloE o Pró-mídia? Você tem acompanhado?
Tenho acompanhado pouco, mas reconheço, primeiro, que a mídia tem um peso importante na vida nacional. Ela é um setor da produção nacional. Agora, é claro que um Banco de Desenvolvimento Econômico e Social devia ter atenção prioritária para aqueles meios de comunicação que promovem a integração entre as pessoas, que constroem redes de solidariedade, para rádios comunitárias, para pequenos jornais... O governo Lula, por uma questão de concepção, dá atenção especial aos grandes meios de comunicação já estabelecidos, com toda sua situação falimentar aí...

Breno – Por quê?
Porque ele sabe que ser sempre bem tratado pela Globo lhe dá condições de governabilidade bastante grandes. É bom lembrar: o que chega ao nosso povo, à grande massa popular do Brasil, não é o artigo do jornal, não; é a notícia, se reiterada, do Jornal Nacional. Nós temos que reconhecer: o nosso povo ainda é muito despolitizado e muito desinteressado, ele é muito induzido à apatia em relação a questões políticas.

Marcelo – E ele é induzido à apatia de que maneira?
Ele é induzido à apatia primeiro pela oferta de outras coisas que dão mais sabor e emoção à vida, a começar pelo mundo azulado das novelas, para onde você transfere suas emoções, suas possibilidades de realização, seu tesão, seu sonho... Em segundo lugar, no Brasil não há uma indução à politização. Pelo contrário, um conjunto de interes-ses opera no sentido de você considerar a política um assunto específico pelo qual você se interessa ou não, e não uma questão da constituição da sua cidadania, como protagonista histórico. Há uma indução ao consumo contínuo como sentido de vida e não ao pensamento. Penso, logo existo? Não. Compro, logo existo. Então, isso tudo faz parte da dinâmica capitalista, que não é só no Brasil, é no mundo inteiro. Há um processo chamado “despolitização da política”, pelo qual você delega voto e se esquece, vai cuidar da sua vida. Assim, os desinteressados são cada vez mais governados pelos poucos que se interessam.

Breno – Voltando um pouquinho, pode-se dizer que o Jornal Nacional é o principal meio de conscientização da população brasileira?
Eu diria que é o principal meio de informação genérica da população brasileira sobre os assuntos sócio-políticos do país. E ele tem grande audiência. Um jornal tem 300, 400 mil leitores num dia bom. O Jornal Nacional tem diante de si, toda noite, 30, 40 milhões de pessoas.

Breno – Que assistem a informações filtradas por interesses ideológicos e comerciais...
É... Não diria que é uma coisa maquiavélica assim, mas são informações que são decantadas a partir de interesses mais gerais...
Marcelo – ...e que se inserem dentro desse contexto que você citou anteriormente, a questão da despolitização, indução ao consumo...
Claro, as pessoas ficam torcendo pra acabar logo o Jornal Nacional e começar a emoção da novela, que lhes toca mais a alma.

Marcelo – E sobre a TV Câmara e TV Senado. Dois canais que mostram o que está sendo feito do destino do país. Por que não estão na TV aberta?
É a per- gunta que eu faço desde que eu tomei posse como deputado federal no dia 1º de fevereiro de 2003. Todos os deputados mais experientes e o próprio presidente da Câmara, João Paulo Cunha, ou dizem que é uma questão de sinal, de canal, de falta de espaço no plano dos canais abertos, ou que ficaria muito caro pra chegar lá.
Breno – Não tem dinheiro para esses canais, mas para dar R$ 4 bilhões pra empresas privadas tem...

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