
Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com

Isso é notícia?
30.07.2007 | 21h53 |
Ouço no duopólio radiofônico: "Os EUA vão investir 20 bilhões de dólares na Arábia Saudita para que ela se proteja de eventuais ataques do Irã. Um alto funcionário dos EUA, que confirmou a informação, disse que esse montante ainda pode aumentar".
Na boa, isso é notícia? Com todo o respeito à coleguinha que leu essa besteira, temos aí pelo menos três mentiras embutidas nesse discurso que vai servir para enganar boa parte dos ouvintes. 1) A idéia não é se defender do Irã, mas atacá-lo para roubar seu petróleo, assim como fizeram com Iraque e Afeganistão; 2) A Arábia Saudita é uma ditadura sanguinária, mas a repórter não diz isso porque trata-se de uma ditadura aliada dos EUA; 3) Pelo amor de Deus, é óbvio que o "alto funcionário" dos EUA vai confirmar a informação, querida colega. Como você acha que ela foi parar na sua mão? Acha que foi um esforço de reportagem da sua rádio? Tenha a santa paciência!
Outras informações sobre o assunto no Blog do Bourdoukan.
É lamentável o nível do jornalismo brasileiro. E o povo não tem nem mesmo um Conselho para denunciar esses abusos. No Brasil, as corporações de mídia podem apoiar invasões, torturas, seqüestros e assassinatos em nome da ganância e fica por isso mesmo.
Publicidade
Na seqüência, ouço um publicitário se locupletando com uma campanha que ele mesmo fez para o Bradesco. Diz que foi a "melhor de todos os tempos" e que está gerando uma "taxa fantástica de wareness", seja lá o que isso queira dizer. Sobre as novas técnicas de propaganda, diz o publicitário: "Hoje o seu público é o cara que de manhã bota o tênis nike, vai fazer seu esporte, depois veste um terno sério e de noite joga uma tinta vermelha no cabelo, bota um piercing de fora e vai pra balada. O publicitário precisa entender que esse é o seu público, hoje".
Aí vem o Oliviero Toscani, fotógrafo italiano que esteve à frente da campanha United Colors of Beneton, e fala: "Vocês, publicitários, geram delinqüência. Porque ao enfiar na cabeça das pessoas que elas precisam ter determinada marca para ser alguém, as pessoas vão fazer de tudo para possuir essas mercadorias. Inclusive matar e morrer". Mas os publicitários capitalistas não estão preocupados com isso. Sua medida de sucesso é a taxa de vendas do anunciante e o resto que se exploda.
Mas não deixou de ser engraçado ouvir o publicitário, no embalo de sua auto-promoção: "A campanha do Bradesco foi um exemplo de que conseguimos criar algo novo". Sim, sim... Criar algo novo é algo da mais elevada importância! Entretanto, cabe a objeção: seria possível criar algo velho, subir para baixo ou entrar para fora?
Latuff é censurado na Espanha
30.07.2007 | 04h44 |

Intimado pela polícia no Rio de Janeiro, censurado em Salamanca. Uma ilustração de Carlos Latuff foi impedida de circular numa galeria de arte por ser considerada "de mau gosto e anti-amerciana". A história é a seguinte: Robert Vandenbego, designer que distribui gratuitamente seus fanzines em cidades européias, teve a edição intitulada "Begó!madrid" censurada em virtude da ilustração da capa, desenhada por Latuff (imagem acima). Leia mais, em espanhol, aqui.
Novo filme de Michael Moore
30.07.2007 | 04h10 |

Acabo de assistir a um trecho do novo filme de Michael Moore. "Sicko" é uma crítica ao sistema de saúde estadunidense, mercantilizado até a alma e que, na prática, garante o direito à vida a quem tem dinheiro e abandona os pobres à própria sorte. Moore vai a Cuba com alguns bombeiros e voluntários que adoeceram por trabalhar nos escombros das torres gêmeas, em Nova York, e descobre um tratamento médico pautado pelo humanismo. Em Havana, eles se surpreendem ao encontrar o mesmo remédio que custa 120 dólares nos EUA por 5 centavos de dólar. "É como um insulto", diz uma das visitantes.
Veja aqui um trecho de Sicko, novo filme de Michael Moore.
Enquanto a câmera caminha pelo Hospital de Havana, Moore narra: "O índice de mortalidade infantil cubano é menor que o dos EUA; aqui em Cuba a expectativa de vida é maior do que nos EUA. Aqui não nos pediram dinheiro ou convênio médico. Pediram apenas nome e data de nascimento". E pra quem esperava um hospital velho, com falta de equipamentos, surpresa: o Hospital de Havana é moderno e o equipamento, novo em folha. Às lágrimas, uma mulher que não conseguiu tratamento nos EUA, seu país de origem, diz para o médico cubano: "É muito difícil escutar que tudo isso é de graça. Nos últimos 20 anos da minha vida gastei muito dinheiro em tratamentos médicos".
Por isso Cuba é considerada uma ditadura pelas corporações de mídia. E o pior é que muitas pessoas assumem este discurso e o repetem indiscriminadamente. Ontem mesmo um grande amigo meu disse, com todas as letras: "Fidel é um ditador". A existência de Cuba será sempre inaceitável para o governo dos EUA por uma razão muito simples: trata-se da negação da mercantilização da vida, eixo principal do lucro do sistema capitalista. Cuba prova que, mesmo com todas as dificuldades e carências de recursos naturais, é possível construir uma sociedade sem analfabetos, sem miseráveis e sem pessoas doentes. Prova ainda que para ter acesso a comida, medicamentos e educação não é preciso ter dinheiro. Por isso as corporações de mídia, servis ao governo Bush, repetem feito papagaios: "Fidel é um ditador; Cuba é uma ditadura selvagem". Seu lucro advém da exploração do ser humano.
Contra a criminalização da pobreza
30.07.2007 | 01h07 |

A partir do estudo crítico da criminologia e da experiência prática, o delegado da Polícia Civil do RJ Orlando Zaccone desconstrói a idéia do traficante perigoso, violento, considerado o inimigo público número 1 da sociedade. Em livro a ser lançado em agosto ou setembro, ele mostra que existe uma seletividade na pena: os bandidos pobres são presos e estigmatizados, enquanto os bandidos de classe média ou ricos são autuados como consumidores e não ficam detidos. Assim, o estudo de Zaccone contribui para derrubar o mito de que o problema da criminalidade seria resolvido com a redução da maoiridade penal ou a partir da existência de penas mais duras.
No livro, que provavelmente vai se chamar "Acionistas do nada - quem são os traficantes de drogas", Zaccone também chama a atenção para os verdadeiros traficantes, que operam internacionalmente e não vivem em favelas; não combatem a polícia de chinelos, bermudas e sem camisa. Para tanto, ele cita um trecho do livro "O século do crime", de José Arbex Jr. e Cláudio Júlio Tognolli: "O banqueiro saudita Gaith Pharaon, à época um dos quinze homens mais ricos do mundo, declarou, em Buenos Aires, que todos os grandes bancos lavam dinheiro do narcotráfico, incluindo instituições como o First Bank of Boston e o Crédit Suisse. Pharaon se ressentia do fato de que apenas o seu Bank of Credit and Commerce International, estopim de um grande escândalo financeiro em 1992, fosse citado com freqüência por suas vinculações com o narcotráfico".
Segue abaixo um trecho do livro do delegado Orlando Zaccone, cujo lançamento será realizado numa livraria carioca. Quando a data e o local estiverem confirmados, vou anunciar aqui neste blog:
O Fundo Monetário Internacional calcula que o chamado crime organizado movimenta, por ano, 750 bilhões de dólares, sendo que 500 bilhões de dólares são gerados pelo "narcotráfico". No comando deste grande negócio é identificada, em seu aspecto político e legal, a figura do "narcotraficante", cujo estereótipo, construído pelo discurso oficial e divulgado pela mídia, aponta para o protótipo do criminoso organizado, violento, poderoso e enriquecido através da circulação ilegal desta mercadoria, conhecida em nossa legislação, outrora, como "entorpecente" e hoje, genericamente, como "droga".
Toda atual política de repressão ao comércio de drogas ilícitas está voltada a combater este "inimigo" da sociedade que, já no final dos anos noventa, representava em torno de 60 % da população carcerária no estado do Rio de Janeiro, segundo um dos últimos anuários estatísticos.
Como delegado de polícia, atuando há pouco mais de seis anos na capital, acabei por encontrar uma realidade diversa daquela que nos é apresentada, diariamente, enquanto "verdade". Os criminosos autuados e presos pela conduta descrita como tráfico de drogas são constituídos por homens e mulheres extremamente pobres, com baixa escolaridade e, na grande maioria dos casos, detidos com drogas sem portar nenhuma arma. Desprovidos do apoio de qualquer "organização", surgem, rotineiramente, nos distritos policiais, os "narcotraficantes" que superlotam os presídios e casas de detenção.
O sistema penal revela assim o estado de miserabilidade dos varejistas das drogas ilícitas, conhecidos como "esticas", "mulas", "aviões", ou seja, aqueles jovens (e até idosos) pobres das favelas e periferias cariocas, responsáveis pela venda de drogas no varejo, alvos fáceis da repressão policial por não apresentarem nenhuma resistência aos comandos de prisão.
O fato da imprensa e das autoridades públicas darem grande destaque às prisões dos chamados "chefões" do tráfico, dedicando as primeiras páginas dos jornais e muitos esforços à captura dos "donos" do negócio relativo ao comércio de drogas, demonstra, por si só, a existência de um escalonamento. De um lado "grandes" traficantes, como Fernandinho Beira Mar, e pouco mais de uma dezena de nomes considerados delinqüentes de alta periculosidade, para os quais são reservadas algumas celas nos presídios de segurança máxima; do outro, milhares de "fogueteiros", "endoladores" e "esticas" que, junto dos "soldados" - única categoria armada e responsável pela segurança do negócio - assemelha-se mais à estrutura de uma empresa do que a de um exército, lotando as carceragens do estado.
(...)
Para além da função de reprimir a circulação destas substâncias, o sistema penal exercita um poder de vigilância disciplinar, de uso cotidiano, nas áreas carentes, seja restringindo a liberdade de ir e vir naquelas comunidades, através das prisões para averiguação, ou restringindo reuniões e o próprio lazer das pessoas, como na proibição dos "bailes funks", que a pretexto de reprimir a "apologia ao narcotráfico", traduz o poder de controle exercido sobre as populações pobres. Não é por menos que a historiadora Gizlene Neder, citada pela criminóloga Vera Malaguti Batista, conclui: "a eficácia das instituições de controle social se funda na capacidade de intimidação que estas são capazes de exercer sobre as classes subalternas".
PS: Na revista Caros Amigos deste mês há uma entrevista com o delegado Orlando Zaccone (ver nota Outro olhar sobre a criminalidade). Uma entrevista que tem rendido pelo menos um emeio por dia de estudantes de direito, juízes e leitores do Brasil inteiro que admiram a postura do delegado.
PS 2: Orlando Zaccone, hoje delegado titular da 52ª DP (Nova Iguaçu), desenvolve um trabalho em parceria com Marcelo Yuka e a Companhia Brasileira de Cinema Barato. Eles levam quinzenalmente um filme para ser exibido na carceragem, numa iniciativa que tem o objetivo de reduzir os danos causados pelo sistema punitivo. Além disso, o delegado conseguiu atendimento médico e odontológico para os presidiários numa parceria com a prefeitura de Nova Iguaçu, bem como montou uma biblioteca - que inclusive já recebeu doações da Caros Amigos. Como resultado, a convivência entre os detentos tem sido mais tranquila.
Renúncia coletiva na OAB
28.07.2007 | 18h53 |
41 integrantes da Comissão de Direitos Humanos da OAB/RJ renunciaram coletivamente nesta sexta-feira. A decisão foi motivada pela exoneração do presidente da comissão, o advogado João Tancredo, que investigava as denúncias de execução que teriam ocorrido durante a invasão da polícia ao Complexo do Alemão, no dia 27 de junho. Segue abaixo um trecho da carta de renúncia, enviada ao presidente da OAB/RJ, Wadih Damous, e que pode ser lida na íntegra aqui.
É imperioso que rememoremos a Vossa Excelência que o provimento nº 56/85, do Conselho Federal da OAB determina que os presidentes de Comissões de Direitos Humanos sejam eleitos pelo Conselho Seccional, como foi o advogado João Tancredo. Logo, não há qualquer legitimidade na decisão colegiada dessa diretoria na exoneração de um Conselheiro eleito por seus pares. Ademais, o provimento do Conselho Federal prevê que os presidentes de Comissões de Direitos Humanos terão mandato. Talvez justamente para estarem a salvo de humores autoritários de Presidentes de Conselhos Seccionais.
Temos, portanto, muito orgulho em levar a Vossa Excelência nossa renúncia coletiva às funções de integrantes, delegados e colaboradores da CDHAJ da OAB/RJ para os quais fomos nomeados pos Vossa Excelência, frisando que não se trata de simples solidariedade ao nosso presidente (que a merece, indiscutivelmente), mas de coerência com os valores que defendemos durante nossa campanha, durante o tempo em que estivemos na Comissão e que continuaremos defendendo pelo resto de nossas vidas.
Chacina a conta-gotas
28.07.2007 | 15h32 |
Converso com um professor de Direito e advogado criminalista dos mais renomados do Rio de Janeiro, que pede para não ser identificado. Ele acompanhou desde o início as invasões da polícia no Complexo do Alemão (que desde 2 de maio deixaram 44 mortos e quase cem ferido, de acordo com os números oficiais) e chegou à seguinte conclusão: "Trata-se de uma chacina a conta-gotas com o objetivo claro de tomada das bocas de fumo. Quem é do Terceiro Comando não é incomodado, mas quem é do Comando Vermelho está sendo assassinado. Toda semana estão indo lá e matando cinco ou seis meninos".
A Secretaria de Segurança, evidentemente, nega. Diz que são ações de combate ao tráfico. Por outro lado, são muitos os fatos que contrariam o discurso oficial. Primeiro deles: de repente as corporações de mídia esqueceram-se das tais milícias, grupos formados por policiais, bombeiros e agentes penitenciários que atuam da mesma maneira que os traficantes varejistas e que já teriam ocupado aproximadamente 100 favelas do Rio de Janeiro. O reportariado carioca sabe muito bem que essas milícias atuam com o apoio da polícia, que empresta até o Caveirão para tomar o controle de algumas localidades.
Alguém de posse das estatísticas e capaz de analisar a situação além do sensacionalismo das corporações de mídia percebe que só existem duas interpretações para esse discurso oficial de "combate ao tráfico". 1) É uma mentira, pura e simplesmente; 2) Reflete uma política ineficiente. Senão, vejamos. O tráfico tem uma lógica internacional e quem enriquece com ele não está na favela, como ressaltou o historiador e deputado estadual Marcelo Freixo. Na favela não tem fábrica de armas, não tem fábrica de cocaína e nem plantação de maconha. Além disso, de acordo com o Instituto de Segurança Pública, órgão vinculado à Secretaria de Segurança Pública do RJ, embora a polícia esteja matando mais, os bandidos estão furtando mais e roubando mais. Além disso, caíram as apreensões de drogas e de armas. Em favor da polícia estão os números de homicídios, que diminuíram, embora continuem elevados.
| Alguns números, na comparação entre janeiro e junho de 2006 com o mesmo período deste ano: Mortes causadas pela polícia (de 520 para 652). Homicídios (de 3.210 para 2.828); roubos (de 61.038 para 62.106); furtos (de 67.249 para 70.581); apreensões de drogas e armas (de 12.357 para 9.823). |
A redução no número de homicídios é um ponto favorável para todos, sinal de que a polícia está cumprindo sua missão de proteger a vida dos cidadãos. Entretanto, há que se considerar que os dois meses que definiram a queda desse índice (maio e junho) correspondem ao período em que o Rio de Janeiro esteve fortemente policiado, com apoio de tropas federais, para a realização dos Jogos Pan-Americanos. Isso, sem contar com possíveis acordos do governo com os bandidos (tese reforçada pela queda brutal - cerca de 50% - nos números de apreensões de drogas e armas nesses dois meses). Resta saber se essa redução no índice de homicídios será mantida mesmo com o final do Pan-Americano. Eu duvido.
Portanto, cabe uma análise à parte dos índices de homicídio até abril. Nesse caso, em comparação com o ano passado verificamos um aumento de 2.187 para 2.224. Ou seja, o indivíduo fascista que bate palma pra polícia que mata bandido na verdade é um imbecil. Não percebe que está, indiretamente, tornando sua própria existência mais perigosa. O bandido que sabe que vai ser torturado ou morrer se for preso tende a se tornar mais violento, isso é óbvio, até porque ele não vai ter nada a perder.
Um último detalhe reforça a tese do professor: pelo que entendi quando estive no Complexo do Alemão, ali os bandidos não costumam pagar o "arrego".
Governo e Jornal Nacional
28.07.2007 | 15h29 |
Comentar com isenção partidária é tarefa complicada, meio como pedir pra ser atacado pelos dois lados. Entretanto, não vejo alternativa a não ser constatar que o governo negociou a divulgação, pelo Jornal nacional, da falta do reverso no avião da TAM. É fato que as corporações de mídia fizeram de tudo para culpar o governo pelo acidente? É. Mas não dá pra deixar de constatar que algum acordo houve entre governo e Jornal Nacional. Não vamos nos enganar: o telejornal não divulgaria uma informação como essa, que prejudica um grande anunciante, em nome do jornalismo. A gente sabe que jornalismo nunca foi o forte deles, apesar de existirem grandes jornalistas lá dentro.
Essa questão remete a setembro do ano passado, quando as corporações de mídia fizeram de tudo para levar as eleições para o segundo turno. E conseguiram. Na época, o PT pediu socorro à imprensa alternativa - que há muito se esgoelava pela democratização da mídia - e chegou a anunciar publicamente a necessidade de democratizar o setor. Lamentavelmente, ficaram apenas nos discursos. Até o Programa Setorial de Comunicação e Democracia do Governo, bastante progressista, foi retirado do endereço em que se encontrava no sítio do PT. Procurei em outro lugar, mas ele simplesmente sumiu. Se alguém aí achar, por favor me avise.
Ditadura do século XXI
28.07.2007 | 15h21 |
Lá do Blog do Bourdoukan:
Chamar de ditadura é pouco
Leiam e digam se há ditadura pior.
Transcrevo a nota da BBC: "Os ministros de Relações Exteriores da União Européia aprovaram um acordo que permite aos Estados Unidos ter acesso a uma série de informações pessoais de passageiros de vôos transatlânticos, incluindo orientação sexual, política e religiosa".
A nota continua: "Pelos termos do novo acordo, o Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos terá acesso a endereço, número de cartão de crédito, situação de saúde, eventual associação a sindicatos e origem étnica de todos os passageiros que queiram entrar no país provenientes da Europa, além de eventuais pedidos de refeição especial feitos às companhias aéreas".
Essa informação é tão assustadora que não há o que comentar. E ainda há quem creia que os Estados Unidos sejam uma democracia. Mas o pior mesmo é o silêncio da mídia sobre tão abominável fato.
Manchetes de um país distante
28.07.2007 | 14h39 |
- Deputados neoliberais investigam acidente causado pelo neoliberalismo
- Presidente da OAB afasta advogado que investigava chacina
- 57% dos trabalhadores da América Latina estão na informalidade
- Solução para crise provocada pela ganância de lucro é privatizar
- País com 2ª pior distribuição de renda se acha melhor que o Congo
- Governo apanha das corporações de mídia mas permite oligopólio no setor
Carlos Latuff, um grande ser humano
26.07.2007 | 01h20 |

Carlos Latuff. Anote esse nome. Porque ser humano como esse é coisa rara. Lembro de quando ele foi entrevistado por Raquel Junia e Gilka Resende para o Fazendo Media. Terminei de ler a entrevista e dois pensamentos logo surgiram: 1) uma pena não ter participado e 2) uma pena nosso impresso não ter mais espaço. Foi certamente uma das melhores entrevistas, senão a melhor, que publicamos nesses quatro anos de jornada. E olha que temos entrevistas com Luis Fernando Verissimo, Fausto Wolff, José Arbex Jr., Jânio de Freitas, Mino Carta, Marcelo Yuka e por aí vai...
Mas o pensamento de Latuff era completo, exemplar, contundente. Foi uma entrevista marcante (leia aqui), em que ele falou do início de seu trabalho artístico e de quando começou a se voltar para as causas sociais. Na ocasião ele também criticou duramente o sistema capitalista e as corporações de mídia, a quem não concede entrevistas.
A propósito, vale registrar que Latuff perdeu a confiança nessas corporações após o RJTV descontextualizar sua fala em 1999, ano em que foi intimado pela polícia pela primeria vez. "Desde aquele momento eu não dou mais entrevista para a grande imprensa", disse ao Fazendo Media.
Depois disso, Latuff foi intimado uma segunda vez, ano passado foi ameaçado de morte por um grupo ligado ao Likud (partido de extrema-direita israelense) e agora foi intimado pela terceira vez (ver abaixo nota intitulada "Santa democracia!"). Por ocasião dessa última, vários órgãos de imprensa o procuraram para entrevistas. Felipe Machado, repórter da revista Época, das Organizações Globo, escreveu-me a seguinte mensagem eletrônica:
Carlos Latuff - URGENTE. Olá Marcelo, vi sua reportagem sobre a intimação do Latuff na lista da Abraji e gostaria de dar esta história aqui na revista, na seção Primeiro Plano. Por favor, vc pode me passar os contatos dele? Aguardo retorno urgente, meu fechamento é amanhã... Abraços, Flavio Machado.
Respondi polidamente que não tinha autorização do Latuff para repassar seu contato e ressaltei que ele não concede entrevistas para as corporações de mídia. Em todo caso, avisei que havia encaminhado sua solicitação ao artista gráfico. O Latuff me respondeu: "Bela resposta. Eu mesmo não faria melhor".
Esse é o ponto onde queria chegar. Hoje, nessa sociedade de consumo, é tudo urgente. Nessa sociedade de aparências, fútil, onde todos querem aparecer na mídia, onde governadores e ministros alteram suas agendas em função das urgências do Jornal Nacional, deve mesmo ser muito estranho quando aparece alguém como o Latuff e diz: "Não, eu não quero". Não importa que você trabalhe numa organização que tenha uma considerável capacidade de ingerência sobre o governo; não importa que você tenha milhares de funcionários e milhões de reais de capital de giro. O dinheiro não compra tudo, como alguns gostam de repetir. E quando aparece alguém assim como o Latuff, alguém com princípios firmes, nem todo o poder do mundo pode quebrá-lo. As corporações de mídia podem conseguir outras entrevistas - certamente não faltarão candidatos - mas a entrevista com aquele artista respeitado no mundo árabe, aquele artista respeitado pelos zapatistas, aquele artista respeitado pela resistência popular carioca, aquele artista cujas imagens são reproduzidas por todos os povos que resistem à opressão capitalista... Não. Esta entrevista eles não conseguem.
Isso porque Latuff é um extra-terrestre? Não, muito pelo contrário. Isso porque Carlos Latuff é um ser humano extremamente humano, um cara que tem um pensamento que soa estranho a esse mundo de urgências - ditadas pelas relações capitalistas - em que vivemos. Por exemplo: Latuff é um sujeito que fica indignado - e não esconde de ninguém - que um lustre seja vendido a 15 mil reais dentro de uma loja e do lado de fora dessa mesma loja um menino não tenha o que comer. "A partir do momento em que o capital vale mais que o social, tudo vale. O social é o respeito à vida, respeito aos valores humanos. A partir do momento em que isso tem um papel terciário, o mais importante é ganhar dinheiro, é o lucro, acabou-se", disse numa entrevista concedida ao jornal A Nova Democracia.
Pra concluir, outro pequeno trecho do pensamento deste grande artista gráfico, extraído da entrevista concedida ao Fazendo Media: "A lógica capitalista é a grande responsável por isso, em que só o mercado importa. Em nome do capital, as pessoas matam. Em nome do capital, remédios são negados à população. Os direitos humanos são negados em nome do capital. Florestas são devastadas em nome do capital. Os rios são poluídos em nome do capital. Culturas são subjugadas em nome do capital. Enfim, fazem o que quiserem em nome do capital. Enquanto o capital falar mais alto que o social, o ser humano vai estar em risco. Enquanto o mercado dirigir a nossa vida, nós estaremos condenados".