Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com

A face oculta dos Jogos Pan-Americanos
12.07.2007 | 00h01 |

O "Globo" de ontem (11/7) estava furioso com a intervenção artística em frente ao Maracanã. É que nem todo mundo no Rio de Janeiro é massa de manobra, para desgosto da família Marinho. Tem gente que sabe muito bem qual é o esquema dos Jogos Pan-Americanos. Gente que sabe das ameaças de despejo, dos desvios de dinheiro público, do terrorismo da polícia contra quem mora em favelas. Aí um grupo resolveu pintar o Cauê, mascote do Pan, com um fuzil na mão. Nada mais apropriado, nada mais fiel à atual conjuntura da cidade. Em nome do Pan, massacram a maioria para que uma minoria se divirta.

Mas para o "Globo" de ontem, tratou-se de ato de vandalismo. Além de um grande destaque na primeira, rendeu matéria na página 13 quase toda e quatro repórteres destacados para a cobertura. Título: "Símbolo do Pan na mira de Vândalos". Ao que parece, a "ocorrência" será registrada como "dano ao patrimônio público".

Tudo isso porque Cauê, o simpático solzinho estampado em inúmeras peças publicitárias e objetos de consumo, finalmente assumiu sua verdadeira face. O artista de rua fez o traço perfeito. Rosto zangado, fuzil a tira-colo, o solzinho abandona sua simpatia e mostra aos atletas e espectadores dos jogos o que acontece do outro lado da cidade. Lá onde os holofotes não chegam, um lugar que esses administradores, com apoio irrestrito do Sistema Globo, fazem de tudo para esconder. Do alto de sua desfaçatez, os pretensos donos da cidade não podem permitir que o verdadeiro Cauê apareça para o grande público, para a mídia estrangeira e para os atletas.

São muito machos na hora de oprimir os fracos, mas não passam de covardes quando têm seus métodos expostos.

PS: Confira as medalhas que o Brasil já conquistou antes mesmo do início dos Jogos: http://www.youtube.com/watch?v=N3_5TyJlQ4w.

Jovem é assassinado no Jacarezinho
11.07.2007 | 23h30 |

Leandro Silva Davi, de 16 anos, foi assassinado na manhã desta quarta-feira, dia 11, quando preparava o café da manhã dentro da sua casa. A bala que o matou atravessou a janela da residência que dá para a Praça da Concórdia, de onde partiam os tiros da operação policial.

O jovem era estudante e treinava futebol no clube do São Cristóvão. O tiro atingiu a região do coração.

"Por volta das 6 horas escutei os tiros. Era uma operação policial. Às 8 horas eles voltaram e entraram atirando. A minha casa fica a cem metros da casa do rapaz", relatou uma moradora à Rede Nacional de Jornalistas Populares. "A família do rapaz está inconformada de ver o Leandro ser tratado como traficante pelos meios de comunicação e aceita conversar com a imprensa", disse. O rapaz foi levado para o hospital pela tia Maria Teresa Monteiro.

As informações são da Rede Nacional de Jornalistas Populares (www.renajorp.net).

Grupo de discussão dos assinantes do FM
11.07.2007 | 04h35 |

A partir de agora os assinantes do Fazendo Media podem participar de um grupo de discussão sobre mídia e política com os integrantes do jornal. Nesse espaço, vamos aceitar sugestões de pauta e traçar coletivamente estratégias e diretrizes a serem seguidas, além de promover a integração entre assinantes e membros da equipe. Para mais informações, clique aqui.

Uma conversa distraída e 2 perguntas
11.07.2007 | 01h57 |

Durante minha ida ao Morro do Alemão, presenciei uma conversa distraída entre três moradores. Eles riam de reportagens sobre a favela, um sorriso espontâneo, sem deboche, e comentavam: "pôxa, tem uns que escrevem 'tiroteio no alto da Grota'. Mas a Grota é uma favela plana, como o próprio nome sugere". O outro retruca: "Pois é, às vezes acontece alguma coisa aqui embaixo e eles escrevem que é no Complexo da Penha; ou então tá na Vila Cruzeiro e diz que é Complexo do Alemão".

Esse pequeno detalhe revela o desconhecimento da grande maioria dos jornalistas acerca do que escrevem. E isso tem um efeito multiplicador extremamente danoso à sociedade, que será mal informada e passará a formar opiniões deturpadas.

Pior, os problemas decorrentes dessa ignorância jornalística vão além do contexto geográfico. A maneira como é construído o discurso a respeito das favelas associa o morador dos espaços populares a bandidos e estes a monstros que devem ser eliminados. Isso explica, por exemplo, o que ouvi de um amigo quando mostrei as fotos abaixo: "Ué, não roubaram a sua câmera? Mas na favela só tem bandido...". E isso explica também o discurso do governador do Estado, Sérgio Cabral, ao se ver diante dos laudos que comprovam execuções sumárias e tortura: "Eram todos bandidos".

O governador, ao proferir este discurso, contraria a versão de sua própria polícia, que divulgou a lista de 19 mortos separadas em três categorias: "menores", "com antecedentes" e "sem antecedentes". Eram 11 com antecedentes. Se eu for usar as versões dos moradores do Alemão (que até agora possuem a versão mais plausível), a coisa fica ainda pior: seriam apenas 8 bandidos. Mas vamos ficar com os números oficiais, por ora.

Sendo assim, eu gostaria de fazer duas perguntas, em público, ao governador (já que não adianta pedir entrevista - na semana passada foram cinco pedidos à Secretaria de Segurança, todos ignorados): 1) Senhor governador, desde quando, num Estado Democrático de Direito, o Poder Executivo está apto a julgar o cidadão? Não caberia ao Poder Judiciário resolver, após garantir amplo direito de defesa, quem é e quem não é bandido? 2) Senhor Sérgio Cabral, pode-se inferir de vossa fala que o Poder Executivo Estadual do RJ concorda com a tortura e a execução de bandidos?

* * *

Em tempo: sugiro a leitura do artigo do advogado Fábio de Oliveira Ribeiro.

O manual de guerrilha do "Globo"
10.07.2007 | 09h55 |

Dia de domingo, vendagem ampliada, o "Globo" estampa no coração da primeira página ilustrações toscas de táticas de combate, acompanhadas da manchete: "Alemão usa manual de guerrilha feito por militar". Na manhã do dia seguinte, ontem, o secretário de Segurança Pública anunciou que o "manual" apreendido pela polícia comprovava a necessidade das investidas policiais contra o Complexo do Alemão.

Taí, não deixa de ser uma metáfora curiosa. Justifica-se a matança promovida pela polícia a partir de rabiscos rudimentares, que lembram o traçado de uma criança. Uma explicação infantil. Assim como infantil é esse joguinho feito entre Globo e governo do Estado, justo no momento em que os laudos comprovam que pessoas foram torturadas e executadas a sangue frio, inclusive com tiros pelas costas, no dia 27 de junho. Interessante...

Isso prova que os moradores, em quem o "Globo" nunca acredita, estavam falando a verdade. E a polícia estava mentindo. E o governo do Estado e seus burocratas estavam mentindo. Mas o "Globo" deu 95% do espaço para sustentar essas mentiras, nos dias seguintes à matança. E os outros 5% eram coisas do tipo: "moradores afirmam que teriam...", assim, sempre no futuro do pretérito, que é o jeito do jornal publicar uma informação em que não acredita ou que deseja desqualificar. Mas de repente os laudos com provas gravíssimas saem de cena e entra esse "manual de guerrilha".

Para completar o serviço, o "Globo" publica mais uma chamada na primeira página, onde se anuncia com espanto: "O manual 'ensina até como monitorar as frequencias de rádio da polícia'". Ora, ora, quanta hipocrisia... Qualquer foca sabe que os jornalões monitoram a freqüência da polícia. A ordem é ter sempre alguém na "escuta" e quando ouvir um "triplo uno", que significa homicídio, telefonar para a polícia, mentir dizendo que alguém ligou fazendo a denúncia, e pegar mais informações. Então que grande escândalo é esse? Vamos brincar de sensacionalismo também: "Jornalões monitoram freqüência da polícia". Aí na seqüência alguém telefone para a polícia federal, anuncia o "furo" e pergunta: "Ei, vocês não vão fazer nada?" Que tal?

No jornal de hoje, o tal manual de guerrilha continua rendendo. Manual, aliás, que a polícia já conhecia há dois anos. Mas de repente virou novidade pro "Globo". Hoje a chamada de capa, assustadíssima, avisa que o "chefe" do tráfico tem mais seguranças (38) que o presidente da República e quase o mesmo número de agentes (40) que protegem o maior tirano da história, George Bush.

Até quando o "Globo" vai usar esse manual? Até a polícia promover um novo massacre na favela, matando e ferindo pessoas que não tem nada a ver com o tráfico varejista? Se você aí quiser telefonar para o "Globo" para comunicar seu descontentamento com essa incitação ao crime, o telefone é (21) 2534-5000. Deixe um recado para Rodolfo Fernandes, o editor-chefe.

Paisagens do Rio de Janeiro
09.07.2007 | 04h25 |

Uma das vistas do topo do Morro do Alemão, que compensou a caminhada de uns 40 minutos, passo apertado. Cheguei suando aos píncaros, mas valeu a pena. No alto, a Igreja da Penha registrada por minha pequena Olympus.

Diálogo e Comunicação da Favela
09.07.2007 | 04h07 |

Esse graffiti está no Morro do Alemão e foi fotografado por Sadraque Santos. Repare na criatividade do artista: o cano de água virou a boca do boneco do meio e o portão virou um cartaz. Junto a outras 52 intervenções artísticas, este graffiti faz parte da "Galeria de Graffiti a Céu Aberto do Morro do Alemão", uma das atividades realizadas pelo Grupo Raízes em Movimento.

Raízes em Movimento
09.07.2007 | 04h03 |

Alan Brum Pinheiro, que é cientista social e coordenador do Grupo Raízes em Movimento, sediado no Morro do Alemão. A foto é de Sadraque Santos. Quando a barra aliviar aqui, transcrevo a entrevista e jogo no ar. Por enquanto, um trecho: "Estamos numa lógica de mercado em que nós temos um exército de reserva. O que existe é uma arena que coloca as pessoas para se digladiarem por uma quantidade de emprego irrisória, em que não cabe todo mundo. Então qual é a alternativa? A alternativa é trabalhar com as potencialidades das pessoas, fortalecer geração de renda para além do mercado de trabalho, com as habilidades das pessoas e tentar discutir um pouco o que se denomina "mercado". Me parece que hoje o discurso oficial é que estamos submetidos ao mercado, temos que atender ao que o mercado diz. Mas o que é o mercado? Se a gente for olhar na origem dele, nada mais é do que aonde se colocam as demandas e as ofertas para uma sociedade viver bem. E não induzir uma necessidade ou uma demanda que não existe, mas é construída ficticiamente. E as pessoas ficam dependentes desse mercado. Acho que o mercado é que tem que servir à sociedade, e não a sociedade ao mercado".

A sede do Raízes
09.07.2007 | 04h25 |

Eis aí a fotografia da sede do Grupo Raízes em Movimento, crédito para Sadraque Santos. Foi aí dentro que fiz a entrevista com o Alan.

A pauta do ano
09.07.2007 | 04h01 |

Essa nenhum jornalista pode perder: vive no Morro do Alemão a única galinha brasileira que põe ovo verde, fotografada por mim. Vou me inscrever no Prêmio Esso.

Paisagens do Rio de Janeiro - 2
09.07.2007 | 03h55 |

Mais uma vista do alto do Morro do Alemão: dessa vez, ampla visão da Zona Norte ao fundo; em primeiro plano, os meninos aproveitam o sábado para empinar pipas. Crédito da foto: Marcelo Salles.

Paisagens do Rio de Janeiro - 3
09.07.2007 | 03h50 |

Outra vista do Morro do Alemão, com a Baía de Guanabara ao fundo. Depois da água, ali onde não dá pra enxergar, está minha cidade, Niterói, fotografada por mim.

Bala perdida
09.07.2007 | 03h29 |

Eis aí a nova instituição da República, a bala perdida. Como o departamento é novo, ainda não tem assessoria de imprensa. Fotografei esse graffiti ali na Zona da Leopoldina, no centro do Rio de Janeiro. Merecido registro do artista, que teve a sacação de pintar um alvo na camisa do cidadão.


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